a ti, enfermeiro

Querido enfermeiro,

Desde cedo soube respeitar-te, não fosses tu o primeiro a estar sempre lá. Foste o primeiro a colher-me o sangue para as análises, foste tu que me seguraste quando me coloquei de pé depois da minha cirurgia. Foste tu que me administraste a medicação para me tirar a dor, e foste tu que eu vi, logo depois de acordar da anestesia.

Foste tu, enfermeiro, que me abraçaste quando eu consegui amamentar os meus filhos, e foste tu que me incentivaste a tal nas aulas de preparação para o Parto.

Vacinaste os meus filhos, vacinaste-me a mim. Fizemos juntos uma grande maratona, ao longo destes anos, com pesagens e medições, semana a semana, mês a mês e, agora, de ano a ano.

Já te vi a suportar nos braços, homens e mulheres débeis. Já te vi a suportar o peso de um bebé. Já te vi zangado com as pessoas que não respeitam o teu trabalho e já te vi exausto depois de um turno cheio. Talvez porque sempre te respeitei, sempre vi um sorriso teu.

Agora, que estás em greve, eu percebo. Percebo que não te sintas dignificado. Percebo que alguns dos teus colegas tenham escolhido o estrangeiro para viver. Percebo que queiras receber mais e que até para isso tenhas feito greve. Isso é um direito nosso, o direito à greve, não é?

Mas há duas coisas que gostava de te dizer:

Admiro-te muito. Admito a tua determinação e a tua força, juntamente com os teus colegas por se unirem e reivindicarem o que acham que é vosso por direito. Admito que até admiro a vossa Bastonária, não só pela atitude que mantém na defesa intransigente que vos faz, até pelo sarcasmo que usa nas suas redes sociais.

Não te esqueças, nunca, mesmo em greve, daqueles que te esperam. Dos milhares de doentes que esperam por uma cirurgia. Dos pais que anseiam regressar a casa, e dos filhos, que anseiam o colo deles. Dos trabalhadores independentes, que estando fora do local de trabalho, não recebem. E de todos eles, que não só sabes o nome de cor, mas também a sua história de vida.

Acredito que não seja fácil para ti, mas, por favor, não falhes durante muito tempo a quem nunca falhaste.

Artigo por Bea

Mulher, mãe de dois rapazes, apaixonada por flamingos e completamente chocoholic. Adora ler, dançar, comer e experimentar coisas novas.

Este artigo tem 2 comentários
  1. Parabéns 🙂 Conseguiste escrever o que eu penso sem mais nada a acrescentar.
    Isto tem os 2 lados, também os percebo mas também percebe de quem espera por uma cirurgia urgente e se vê sem ela sem se poder manifestar.

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