[gastronomia] WineSummit 2018 – a experiência

Numa era em que a globalização, internacionalização e indiferenciação se fazem sentir, a valorização das origens e do estado de arte que a vinha proporciona culminaram, em contexto de partilha de conhecimento, num coração repleto de humildade. Solo, vinha, terroir: três conceitos recheados com um misto de esperança, dedicação e magia. Explorar este micro/macro mundo de incógnitas significa embarcar em desafios inesperados, aceitando a certeza de que é uma mais valia compreender a mãe natureza para prosseguirmos em simbiose.

Seguimos, com este pensamento em mente, para a segunda edição do Wine Summit. E, se as expectativas deixadas pelo primeiro ano pairavam numa fasquia elevada, gostaria que o leitor terminasse de ler este pedaço de ideias fragmentadas capaz de tirar suas próprias ilações. Em jeito de desculpa aos restantes oradores, este evento traduziu-se num rol de comunicações de “se lhe tirar o chapéu”.Médica de formação base, Laura Catena depressa se deixou envolver pela paixão da família, a vinha e o estranho mundo dos vinhos. E se, para singrar não basta seguir a corrente da maré, a família Catena encontra-se para a viticultura de altitude como Moisés no meio do mar Vermelho. Laura representa a voz de uma geração que necessita de repensar a viticultura, numa altura em que as alterações climáticas começam a ter impacto nos vinhos elaborados. A sua teimosia levou à descoberta de um novo terroir, a cerca de 1 500 m de altitude sempre guiada pela missão de elevar a casta Malbec e os vinhos argentinos ao topo do trono.

 

Como contar a história do vinho? Como introduzir um vinho no mercado e agarrar o consumidor? Dúvidas que pairam na cabeça de todo e qualquer enólogo, Felicity Carter abordou o mantra que uma possível solução como o storytelling representa. Um bom enredo, dividido em capítulos que oscilam entre o drama e a ascensão. A par com o êxito Fifty shades of grey (que pode ser reduzido a um rollercoast de emoções), também a ascensão dos vinhos franceses coincidiu com uma série de eventos trágicos como a filoxera ou a primeira guerra mundial que conduziram o espectador a desejar e contribuir para um final feliz. Surge a questão no ar: até que ponto o storytelling ultrapassa os limites razoáveis da imaginação?

E então eis que outra questão surge, seguir o mercado ou criar o mercado? Rui Falcão responde com a necessidade urgente de preservar a identidade e tradição dos vinhos de talha alentejanos enquanto Alberto Antonini perceciona que a paixão que a enologia representa conduz o louco a alcançar o auge. Engraçado, partilho da ideia de que é possível existir uma perfeita sintonia entre a biodiversidade absurda que um pedaço de terra encerra em si mesmo e a experiência sensorial traduzida num copo de vinho. Afinal, quanto maior for o domínio da vinha menor será o monopólio da “farmácia” no vinho. Estará a nossa consciencialização ambiental a empurrar-nos em direção a vinhos mais naturais?

Encontro-me neste momento em frente à crónica que elaborei o ano passado. Algures perdido no texto escrevi “Apenas guardei em mim a tristeza de ver um tema ser esquecido na gaveta. Sendo que a tendência, no panorama atual dos vinhos, é de rumar em direção a sentir e pensar o vinho da uva ao copo o que, obviamente, se traduz numa aproximação entre viticultores e enólogos, pareceu-me redutor deixar a terra de fora da equação”. Com grande orgulho no peito anuncio que o Wine Summit resolveu abraçar o solo e a vinha enquanto passeava de mãos dadas com a viticultura. Sentir o vinho da uva ao copo, finalmente.

Como não poderia deixar de faltar num congresso sobre vinhos, as tais desejadas provas que decorreram ao longo do evento. De salientar este ano, dois deles.

Quinta das Bágeiras, Avô Fausto, 2016 (B) | Bairrada

Este vinho da região da Bairrada conta com as notas florais da casta Maria Gomes a contribuir para uma mistura de frescura e mineralidade que inundam o copo. Cor discreta, elegante, leve e ao mesmo tempo prolongado em boca, ideal para qualquer desculpa, ideal para o calor do verão.

Puro Talha, 2015 (T) | Alentejo

Na vanguarda da tradição, a adega José de Sousa junta-se a um movimento de voltar às raízes. A talha em Reguengos de Monsaraz na dose certa. De taninos redondos, encontra-se equilibrado pela acidez e exprime uma exuberância de especiarias onde a proporção de castas Grand Noir, Moreto, Trincadeira e Aragonez coexiste em harmonia.

 

 

 

Fica o desejo de ver, aprender e sentir mais. Até para o ano Wine Summit!

Para quem aguentou até ao final, assim me despeço.

Da vossa correspondente wine girl,

Joana Amaral Pinto

Artigo por Bea

Mulher, mãe de dois rapazes, apaixonada por flamingos e completamente chocoholic. Adora ler, dançar, comer e experimentar coisas novas.

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