E se fosses tu uma mãe de colo vazio?

Nunca é fácil falarmos de filhos, sobretudo daqueles filhos que nunca nasceram. A dor, essa será atenuada com o tempo, mas nunca esquecida e não me refiro apenas à dor física, que essa o tempo leva com a mesma facilidade com que a trouxe. A dor mental, a dor espiritual é que se mantém dentro da nossa cabeça e da nossa alma. Para sempre.

Perder um filho, custa sempre. Sobretudo quando nesse filho, residia a esperança de uma mulher que já se tinha acostumado à palavra mãe.

Depois de dias, chorosos e incrédulos, magoados com o sentimento da raiva, da impotência, começa-se a acreditar na dura realidade e no luto que teremos de fazer. Nas inúmeras explicações que teremos de dar: desde a ausência da barriga e do bebé no colo, até às mirabolantes especulações do que terá acontecido.

Muitas das vezes, o que aconteceu foi, simplesmente, o mau fado. O destino que se encarrega de nos dar mais uma prova para ultrapassar, porque quando achamos que somos fortes o suficiente, a vida encarrega-se de nos dar mais uma prova de fogo. E tão dura como esta.

Perder um filho, ainda no útero, é perder um filho. Amado e desejado como todos os outros.

Para uma mãe, não era um feto nem um embrião. Era um filho.

Por isto tudo, não compreendo. Não compreendo como ainda se insiste em colocar uma mãe de colo vazio, que passou por uma interrupção involuntária da Gravidez, junto das puérperas. Não consigo imaginar a dor de uma mãe que acabou de perder o seu bebé, em ver a felicidade de outras mulheres que ela tanto ansiava e esperava. Isto não é Serviço Público. Para mim, isto é tortura.

Porque para mim também não seria um feto, ou um embrião. Seria um filho. E eu seria mãe.

#respeitopelaperdagestacional

Artigo por Bea

Mulher, mãe de dois rapazes, apaixonada por flamingos e completamente chocoholic. Adora ler, dançar, comer e experimentar coisas novas.

Este artigo tem 4 comentários
  1. Cátia diz:

    Olá,revejo-me neste texto!!quando fui fazer a ecografia e descobri que estava morto…10semanas,ainda não era nada,se me compreendem,mas era o meu filho!!tive que fazer o aborto,num hospital público,e neste hospital,somos colocados em cirurgia.para quem está a passar por um trauma deste,não se torna tão violento,como se nos colocassem em obstreticia.

  2. Gisela Patricia Tavares Cardoso Peneda Soares diz:

    Olá, perdi os meus dois primeiros filhos às 32 semanas, eram gémeos. Tive parto natural mas estive em piloto automático desde que me deram a notícia, fiquei dormente, sem sequer saber o que dizer, apenas acenava com a cabeça e dava a mão ao meu marido, que estava tão incrédulo quanto eu!!!
    Apesar de mau, muito mau… tivemos um apoio fantástico de toda a equipa de Obstetrícia do HSJ, estavam todos com as lágrimas nos olhos, a minha médica não parava de repetir que nada fazia prever este desfecho, estava tristíssima. Fui colocada num quarto sozinha e fora do alcance de choros de bebés …
    Já passaram quase 7 anos…….. e continuo a sentir saudades de duas pessoas que não conheci, não sei como tratar esta saudade!

    • Bea diz:

      Ainda bem que no HSJ procederam dessa forma exemplar. É assim mesmo que se deveria proceder em todos os hospitais do país. Um beijinho grande nesse coração. Estarei aqui para o que precisares.

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