[psicologia] A auto-estima como sistema imunitário Social

A auto-estima é um tema que me é muito querido. Ele está intimamente relacionado com a nossa voz-interior e com a nossa capacidade de resiliência.

Ao visionar um vídeo da Mikaela Ovén sobre “Pais e Filhos Conectados” (um curso da Dharma5), apercebi-me que ainda não tinha escrito sobre este tema!

A auto-estima é o cerne da Parentalidade Consciente, porque é ela que nos ajuda a enfrentar os desafios da vida. E o mesmo se aplica aos nossos filhos e crianças em geral. Quanto mais saudável for a sua auto-estima, melhor e mais facilmente as crianças se sentem capazes de lidar com os desafios do dia-a-dia.

AUTO-ESTIMA ou AUTO-CONFIANÇA?

Em Parentalidade Consciente, convidam-nos a suprimir o “auto”, tornando-se mais simples considerar as palavras “estima” e “confiança”.
Auto-estima refere-se a tudo o que sabemos sobre nós. Todas os pontos fortes e os pontos fracos, todas as coisas boas e as coisas menos boas. A auto-estima é a forma como nos relacionamos com o conhecimento que temos de nós mesmos. Quanto melhor me relacionar com aquilo que sei, mais saudável é a minha auto-estima! Daí que seja tão importante que o input que os adultos dão às suas crianças, seja neste sentido, ao invés da humilhação.
Auto-confiança encontra-se mais ligada a situações especificas, como jogar à bola, fazer ginástica, falar uma língua estrangeira, fazer exercícios de matemática, ou falar em público sobre Parentalidade Consciente. Pode-se ter uma Auto-estima saudável e não ter auto-confiança para resolver exercícios de matemática, como também se pode ter uma auto-estima frágil e ser auto-confiante para falar uma língua estrangeira. Imaginando que quero muito aprender a fazer ginástica artística e vou confiante para as aulas. Mas após algumas aulas, me confirmam que não tenho capacidade física para tal. A minha reacção estará directamente ligada com a minha auto-estima. Quanto mais saudável a minha auto-estima, melhor lido com esta informação. É a diferença entre me sentir bem ou me sentir com pouco valor.

DESENVOLVER UMA AUTO-ESTIMA SAUDÁVEL

De acordo com a autora Ovén, existem três pilares para o desenvolvimento de uma auto-estima saudável das nossas crianças (e a nossa também):

– O Amor Incondicional

– A aceitação

– A confiança

AMOR INCONDICIONAL

Certamente que a maioria dos pais admite sentir amor incondicional pelos nossos filhos. Mas a única forma que os nossos filhos têm de sentir que os amamos incondicionalmente, é através do nosso comportamento e pela forma como comunicamos com eles.

Aceitando a reflexão da autora, tendo a concordar que, de facto, muito do que se faz com as crianças, é baseado no amor condicional. Por exemplo, a existência de prémios, recompensas, tabelas de comportamentos, castigos e retiradas de coisas que gostam.

De facto, na perspectiva de uma criança, estes comportamentos transmitem ausência de amor pelo que são ou estão a sentir.

Se nos colocarmos na posição perceptual de uma criança, quando ela é sujeita a palmadas, a gritos e atitudes agressivas, a time outs (afastada e isolada), a castigos ou ao serem completamente ignoradas… que mensagem isso vos transmite? ZERO amor. As crianças não sentem que esses adultos gostem de si ou as amem incondicionalmente.

ACEITAÇÃO

Aceitar não significa “concordar” ou “aprovar” ou “não fazer nada”.

Aceitar quer dizer “estar em paz com aquilo que é”. À nossa semelhança como adultos, quanto mais aceites nos sentimos, mais cooperantes nos tornamos. Com as crianças é igual: quanto mais aceites e/ou escutadas se sentem, melhor o comportamento (diminui necessidades de chamar atenção de forma disruptiva) e mais receptiva se torna a colaborar com o adulto.

Se uma pessoa que interage contigo, não te aceita ou te desvaloriza, qual a tua abertura em colaborares com essa pessoa?

A aceitação da criança, tal como ela é, é essencial para a sua auto-estima. Quanto mais um adulto julga o comportamento de um a criança, mais a criança se sente não aceite. Por isso, lanço este desafio: trabalhem a vossa aceitação com os comportamentos (eles existem porque há uma necessidade subjacente!) – em relação aos comportamentos da criança e em relação a vocês também!

CONFIANÇA

O próximo pilar é um desafio e também um nutriente da auto-estima. A confiança. No fundo, é permitirmo-nos ter confiança nas capacidades e competências inatas das crianças. O oposto a isto é a preocupação, que se pode tornar um veneno para a auto-estima da criança. Porquê? Porque a preocupação dos adultos pode ser interpretada como desconfiança: “os meus pais não confiam na minha capacidade de eu saber o que é melhor para mim”. E isso pode afectar a auto-estima da criança negativamente.

Será assim tão desafiante para nós, pais e adultos, confiarmos nos nossos filhos e nas suas capacidades e competências inatas?

O que mais podemos fazer para ajudar a auto-estima saudável?

RECONHECIMENTO

Reconhecer!

Reconhecimento difere de elogia. Os elogios geralmente ficam-se pelo “boa!”, “que giro!”, “que bem!”. Já o reconhecimento envolve descrever exactamente aquilo que nos levou a elogiar. No fundo, reconhecer é demonstrar interesse pela criança, sermos curiosos e querer conhecer mais sobre o mundo interior da criança.

Um exemplo: quantas vezes as crianças nos vêm mostrar desenhos, na expectativa de saber a nossa opinião sobre ele? Este é um ponto de partida para sabermos mais a respeito da criança, dos seus gostos, das suas aspirações, das suas motivações. Ao invés de simplesmente elogiarmos, podemos comentar:

– “vejo que usaste várias cores (enumerar)”;

– “O que é isto que desenhaste?”

– Ou “isso é uma árvore?” (figura a que se assemelhe)

– Em que sítio está plantada essa árvore?”

– “que frutos dá essa árvore”?

– etc.

A conversa pode fluir de forma descontraída e ao ritmo da receptividade da criança que, em princípio, se sente reconhecida por querermos saber mais a respeito, ao invés de se sentir “refém” da opinião do adulto sobre o desenho dela mesma.

Na minha formação de facilitadora de parentalidade, descobri que este simples gesto pode significar muito mais do que um simples comentário “que giro!” Pode significar a chave para a conexão. E também reflecti sobre a vantagem de questionar o que a criança sente ao ter feito aquele desenho (ao invés de sermos nós a dizer que estamos orgulhosos da criança).

O mesmo acontece quando temos a cooperação da criança em alguma tarefa. Por exemplo, os meus filhos cá em casa põe a mesa e passaram a ser muito mais cooperantes, quando lhes reconheci que essa era uma ajuda preciosa para que nos pudessemos sentar todos à mesa a horas, poupando tempo para outras coisas. Onde todos ajudam, nada custa! A diferença esteve na forma como os reconheci, ao invés de lhes dizer que “era o mínimo que poderiam fazer para ajudar os pais cá em casa, já que os pais fazem praticamente tudo.”

A forma como nos relacionamos com os nossos filhos, interfere muito nos adultos em que eles se tornam

E para aceitá-los tal como eles são, precisamos primeiro de fazer o exercício de nos aceitarmos tal como somos. Perfeitos na nossa imperfeição.

Até breve,

Joana Madureira

Artigo por Joana Madureira

Mulher e Mãe de duas crianças. Psicóloga e Formadora Facilitadora em Parentalidade Consciente Mentora da marca registada SCHOLA - Educar para a Felicidade.

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