[feminismo] God (didn’t) shave the Queen!

Feliz Ano Novo!

Esta é sempre aquela altura do ano que tem algo de especial. Se pensarmos de forma muito racional, o dia 1 de Janeiro, é apenas mais um dia. Mas talvez porque aos comandos societários assim nos ditaram ou apenas porque Magia existe, parece que estamos mais felizes, mais motivados, e prontos para assumir novas realidades e abrir horizontes.

Sorrisos são partilhados, promessas eternas de mudança para o melhor são dadas, inscrições em ginásios e marcações de viagens paradisíacas são feitas. A vibração geral é de positividade e encanto. Isso transmite uma esperança na humanidade do indivíduo sentida nestes momentos em que parece que o coletivo se junta para o bem do planeta.

Este espírito de abertura caiu em mim como uma luva. O que fazer?! O otimismo corre-me nas artérias. Ao consultar o meu feed no Facebook, deparo-me com mil fotos e quotes sobre o Ano Novo. Mais uma vez muita felicidade estampada, muitas famílias juntas, muitos brindes de sucesso eterno. Deparei-me no meio de tanta foto com uma da Madonna e da filha Lourdes. Como gosto da Rainha da Pop desde sempre, parar nesta foto é algo que faria normalmente. E a verdade é, quando olhei para a imagem senti o sorriso em mim abrir-se naturalmente vendo uma cantora que adoro com a sua filha, a irradiar aquela boa vibração que falamos de passagem de ano.

Todavia, este meu sorriso desvaneceu quando me deparei com muitos dos comentários feitos na foto. O foco destas mensagens expostas para todos vermos, não era a alegria de ver uma mãe e filha a celebrarem um momento festivo, para meu espanto. Algo estava a ser falado, e eu não queria acreditar nos meus olhos. Tanto a Lourdes como a Madonna, não depilam as axilas. Posso mesmo dizer que a Madonna foi uma defensora do direito da mulher escolher depilar-se ou não, quando ainda nem sequer se pensava em colorir os pêlos nas axilas e mostrar-los com orgulho. Lourdes segue as pisadas da Mãe.

Ora na dita foto, num abraço sereno e amoroso, Lurdes mostra essa característica do seu corpo. E todo o Inferno se soltou. “Porca”, “Nojenta”, entre outros insultos, foram feitos a esta jovem mulher de forma gratuita e triste. Confesso que fiquei em choque. Um dia depois a Bea fala sobre esta foto e algo acaba por fazer sentido: tenho de escrever sobre o tema.

A depilação ou não da mulher, é considerado maioritariamente um problema menor por muitos. Comparações destas sucedem-se: “Há países onde as mulheres nem sequer podem fazer um aborto medicamente assistido.”

“Isso dos pêlos?! Não é um problema comparado outros mais relevantes”.

Apesar de apreciar a noção de atribuir prioridades aos caminhos a seguir, penso que este assunto merece ser visto de forma a que permita a exploração de todas as consequências. E não apenas aquelas que se podem apresentar à primeira vista.

O assumir os pêlos ou não no corpo para o género feminino, é uma batalha de décadas. Sim, porque apesar de haver registos de haver depilação nos tempos do Antigo Egípto, por exemplo, o acto só se tornou comum nos anos 20. Após o lançamento da primeira lâmina específica para mulheres, em 1915, mostrando na Harpar’s Bazar uma mulher de vestido e sem pêlos nas pernas e axilas.

Esta construção social foi criada por dois motivos: a necessidade de vender mais lâminas chegando a um público-alvo com potencial – mulheres (visto que o volume de vendas em lâminas para homens estava muito aquém das expectativas na altura), e também a necessidade de infantilizar este grupo pressionando o foco da existência da mulher no corpo e não na mente. Este tipo de táticas existiu e continua a existir nos dias de hoje, como visto pelos comentários da foto.

Bravas pessoas famosas (Jemima Kirke,  Patti Smith, Penelope Cruz, … ) estão a quebrar o tabu e a deixar crescer os pêlos nas pernas e axilas, bem como noutras partes do corpo. Isto permite um encorajamento da aceitação do próprio corpo e da noção de controlo sobre o mesmo. Controlo que tem de ser tomado na sua totalidade pelo género feminino, e não cedido a outros que nada têm haver com as nossas escolhas corporais.

Toda esta polémica roda à volta de querer assumir controlo do outro e enquadrá-lo nos parâmetros ditos “normais” pela sociedade em que vivemos. Mas aqui joga a velha máxima: a minha liberdade termina quando começa a dos outros. E este ditado é perfeito para aplicar neste caso.

Como mencionei acima no texto, penso que este assunto tem ramificações maiores do que uma opção estética a nível corporal.

Esta mentalidade de controlo, por exemplo, existe também em assuntos como o aborto medicamente assistido em muitos países que ainda não o permitem de forma legal. Danificando a liberdade de escolha do individuo.

2017 foi definitivamente um ano de mudanças, de abertura e discussão sobre problemas que afetam o género feminino. É com agrado que vejo mais pessoas a assumirem a sua identidade tão própria e pessoal. Por isso, caro leitor, se queres deixar crescer os pêlos seja onde for, tens o meu apoio. E sabe que como eu, outros te apoiaram.

Conclusão, resolver grandes questões é de facto prioritário. Todavia, são as coisas consideradas “pequenas” e “fúteis” que ás vezes nos dão sinais da mentalidade coletiva em desenvolvimento… O melhor é mesmo seguir as pistas e não fechar os olhos…

Artigo por Rita Silva

Fundadora da AvanHeart Cosmetics, blogger de viagens do Hippie and Corporate, editora de beleza do IvaniasMode, fundadora do projecto fotográfico Speak Your Heart, e escrevo regularmente sobre temas como activismo, direitos humanos, feminismo, e sobre a comunidade LGBTQ. O meu objectivo de vida é tentar deixar este mundo melhor do que o encontrei para as futuras gerações. Por isso identifico-me como feminista, vegan, mulher, e pessoa com o coração na boca, sempre pronto para saltar.

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