[psicologia] Crianças sobredotadas: orientações para pais e professores

Recentemente, publicamos um texto sobre o que é a sobredotação, o que a distingue, e quais os potenciais riscos psicológicos e fisiológicos associados.

No texto de hoje, procuramos descrever quais as principais características das crianças sobredotadas, as suas potenciais forças e fraquezas e listamos algumas dicas para pais, para professores e para educadores no geral.

A sobredotação e o Modelo Multi-Factorial

De acordo com Monks e o seu Modelo multi-Factorial da Sobredotação, a trilogia Família, Escola e grupo de Pares (amigos) é essencial para o sobredotado se desenvolver. Ou seja, o desenvolvimento destas crianças dar-se-á de forma sustentada se a trilogia Família-Escola-Pares “oferecer oportunidades educacionais fundamentais e variadas a crianças com capacidades acima da média” (Rebimbas et al. 2012).

Infelizmente, no oposto, a presença de uma força contra-produtiva oriunda de um daqueles três factores –  Família, Escola e Pares –  pode ser um entrave suficiente ao desenvolvimento globalmente saudável da criança sobredotada.

Neste sentido, ilustramos no quadro em baixo as principais características das crianças sobredotadas: as suas potenciais forças e os potenciais riscos a estas associados.

Principais características e potenciais riscos associados à sobredotação

Potenciais Forças e Oportunidades

Potenciais Fraquezas e Riscos

Aquisição e retenção rápida da informação Impaciência face à lentidão dos outros, alheamento; Pode resistir ao domínio de habilidades fundamentais/de base; pode criar conceitos incrivelmente complexos;
Atitude inquisitiva/investigativa, curiosidade intelectual; motivação intrínseca; procura de significância; Pode fazer perguntas embaraçosas ou desconcertantes; Obstinado; Resiste a orientações; Parece excessivo em alguns interesses; Espera o mesmo de outros.
Capacidade de conceptualizar, resumir, sintetizar; Adora resolução de problemas e atividade intelectual; Rejeita ou omite detalhes; Resiste à prática  ou exercícios repetidos; Questiona procedimentos de ensino.
Consegue percepcionar relações de causa-efeito; Dificuldade em aceitar o ilógico – como sentimentos, tradições ou assuntos tidos como fé.
Amor à verdade, equidade e fair play. Dificuldade em ser prático; Preocupe-se com questões humanitárias;
Gosta de organizar coisas e pessoas em estrutura e ordem; Procura sistematizar. Constrói regras ou sistemas complicados; Pode ser visto como líder, rude ou dominador.
Amplo vocabulário e habilidade verbal; detém muita informação sobre temas complexos. Pode usar argumentos para escapar ou evitar situações; Fica aborrecido com a escola e o grupo de pares (mesma idade); pode ser visto pelos outros como “sabichão”.
Pensa de forma crítica; Tem expectativas elevadas; É autocrítico e avalia os outros. Crítica ou intolerante para com os outros; Pode ficar desencorajado ou deprimido; Perfeccionista.
Observador perspicaz; Disposto a considerar o incomum; Aberto a novas experiências (do seu interesse); Foco excessivamente intenso; simplicidade ocasional.
Criativa e inventiva; aprecia encontrar novas formas de fazer as coisas. Pode interromper planos ou rejeitar o que já é conhecido; Visto por outros como diferente e fora de alcance;
Concentração intensa; Longo período de atenção em áreas de interesse; Comportamento dirigido a objetivos; persistência. Resiste à interrupção; Negligencia deveres ou pessoas durante o período de interesses focados; teimosia.
Sensibilidade e empatia; Desejo de ser aceite pelos outros. Sensibilidade à crítica ou rejeição de pares; Espera que outros tenham valores semelhantes; Necessidade de sucesso e reconhecimento; Pode se sentir-se diferente e alienado.
Elevada energia, alerta, ânsia; Períodos de intensos esforços. Frustração com inatividade; A ânsia pode prejudicar os horários dos outros; Precisa de estimulação contínua; Pode ser visto como hiperativo.
Independente; Prefere o trabalho individualizado; Dependente de si mesmo. Pode rejeitar contributos dos pais ou pares; Não conformidade; Pode ser pouco convencional.
Interesses e habilidades diversos; versatilidade. Pode parecer disperso e desorganizado; pode frustrar por falta de tempo; outros podem esperar uma competência contínua.
Forte sentido de humor Consegue percepcionar o absurdo em situações; o humor pode não ser entendido pelos colegas; pode tornar-se “palhaço da turma” para ganhar atenção.
Adaptado de Clark (1992) e Seagoe (1974), apud Webb et al. [1]

Relativamente ao seu desenvolvimento, a criança sobredotada pode apresentar níveis diferenciados em áreas distintas (muito desenvolvidos numa área e com fraco desenvolvimento noutra).

O desenvolvimento motor da criança sobredotada (principalmente ao nível da motricidade fina), em idade pré-escolar, pode revelar-se menos desenvolvido em relação aos pares ou revelar-se insuficiente para acompanhar o seu raciocínio, o que pode originar rejeição de exercícios escritos.

O mesmo pode ocorrer com as competências verbais das crianças sobredotadas, que podem não conseguir acompanhar a sua velocidade de pensamento, podendo gerar frustração ou desistência em se exprimir.

Já a maturidade emocional e intelectual, podem apresentar entre si uma considerável discrepância, apontada como comum à maioria das crianças sobredotadas.

Crianças sobredotadas e ambiente escolar

Quando integram o ambiente escolar, estas crianças tendem a procurar controlar o ambiente que os rodeia na tentativa de se sentirem mais seguras e consideradas pelos outros, ainda que tal possa originar mal entendidos por parte dos colegas da mesma idade e derivar em isolamento ou alienação. Estas crianças tendem a relacionar-se com crianças mais velhos ou adultos que acompanhem os seus interesses e raciocínio.

Em relação às elevadas expectativas criadas pelos outros (crianças e adultos), podem gerar uma pressão tal na criança sobredotada, que pode levar à desmotivação ou à tentativa de passarem despercebidas, propositadamente prejudicando o seu próprio desempenho para se nivelar ou agradar ao grupo de pares).

A bibliografia refere que grande parte dos problemas associados ao percurso escolar das crianças sobredotadas, se deverá maioritariamente ao facto de um ou vários elementos da trilogia Família-Escola-Pares (sociedade em geral) não serem capazes de entender e atender às suas características especificas.

Os pais carecem de informação e sensibilização, que idealmente lhes deveria chegar pelos profissionais de saúde que os acompanham; a Escola e grupo de Pares carecem de formação transversal, a respeito do tema da sobredotação. Em ambos os casos, precisa-se de genuíno interesse e carinho por esta temática, para que não derive numa problemática.

Sugestões aos pais de crianças Sobredotadas

Aconselhado

Desaconselhado

Responder e fazer perguntas com paciência e bom humor Tratar a criança sobredotada como um adulto só porque possui capacidades extraordinárias
Procurar informação para responder a perguntas que desconheçam (de preferência juntos) Ignorá-la ou culpabilizá-la por questionar e querer aprender tudo (embora, por vezes, possa ser cansativo, faz parte das suas características)
Conversar com a criança, discutir construtivamente acontecimentos e situações pelas quais ele se interesse Enganar a criança; ela perceberá facilmente que lhe estão a mentir e será muito difícil recuperar a sua confiança
Elogiar/reconhecer e encorajar os pontos fortes da criança Deixar a criança desrespeitar regras, não acolher rotinas
Ajudar a aceitar e a reconhecer as limitações da criança Exigir da criança mais do que ela pode dar
Proporcionar um melhor desenvolvimento das suas capacidades (maximizando as áreas fortes e estimulando as mais fracas) Exibir a criança e os seus dotes perante outros / a outros, vulnerabizando-a e/ou expondo-a.
Proporcionar à criança espaço para os seus trabalhos e passatempos Os pais manterem-se demasiado ocupados, estando pouco disponíveis para a criança
Alertar a escola para as suas características (se a mesma for receptiva); colaborar com esta, participando no Plano de Desenvolvimento (DN 50/2005 de 09/11) Preencher demasiado o tempo da criança com actividades, sobreocupando-a e não lhe permitindo brincar
Reunir informação sobre respostas existentes (legislação, programas de enriquecimento, associações privadas, etc.) Ficar demasiado ansiosos face às exigências próprias das crianças sobredotadas
Esclarecer-se sobre o tema da sobredotação, fazendo formações, workshops ou lendo sobre o assunto Criarem expectativas exageradas, ou subvalorizarem a situação

 

Sugestões aos Educadores e Professores de crianças Sobredotadas

Aconselhado

Desaconselhado

Estar atento e observar a criança nos diferentes domínios e momentos da sua vida diária Propor tarefas rotineiras e/ou não desafiantes
Confrontar as suas observações profissionais com informações fornecidas pelos pais Ignorar ou culpabilizar a criança por questionar e querer aprender tudo
Recorrer a técnicos especializados na área em que a criança mostra mais aptidões para desenvolver melhor as suas capacidades (maiores e menores) Sentir-se ”ameaçado” pelo nível de conhecimentos da criança e tipo de questionamentos
Fazer formação para adequar as metodologias profissionais e educativas às necessidades do aluno Tirar conclusões unicamente a partir de um determinado tipo de dados (viés)
Promover constantemente a integração social da criança sobredotada Utilizar metodologias pouco diversificadas
Manter o contacto frequente com os pais da criança sobredotada Criar expectativas exageradas, ou subvalorizar/desvalorizar a situação; satirizar ou humilhar a criança sobredotada
Praticar a diferenciação positiva Exibir a criança e os seus dotes em frente a outros
Promover um clima de confiança entre professor e acriança sobredotada Ignorar ou culpabilizar a criança por querer aprender tudo mais rapidamente
Suscitar a curiosidade da criança e estimular a sua criatividade e fantasia Impedir que, nas aulas, a criança coloque questões pertinentes e exponha o seu ponto de vista

Adaptado de Esepf, in Guia sobre Sobredotação [2]

Associações Nacionais de Sobredotação

De entre outras organizações a nível nacional, os pais podem consultar a Associação Nacional para o Estudo e Intervenção na Sobredotação (ANEIS) e a Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas (APCS) para maior informação e apoio na precocidade intelectual e sobredotação.

Despeço-me na expectativa que este tema seja crescentemente divulgado com vista à sensibilização da sociedade. Faço votos de que muito em breve sejamos bem sucedidos a conviver na diferença, na semelhança, na dificuldade e na capacidade! Como sempre, estarei disponível para as vossas partilhas!

 

Até breve,

Joana Madureira

 


BIBLIOGRAFIA

Clark, B. (1992). Growing up gifted: Developing the potential of children at home and at school, (4th ed.). New York: Macmillan.

Rebimbas et al. (2012). Sobredotados – o que a pediatria deve saber.  Acta Pediátrica Portuguesa, 43(6):268-71

Seagoe, M. (1974). Some learning characteristics of gifted children. In R. Martinson, (Ed.), The identification of the gifted and talented. Ventura, CA: Office of the Ventura County Superintendent of Schools.

[1] http://sengifted.org/misdiagnosis-and-dual-diagnosis-of-gifted-children/

[2] Esepf (s. d.). Guia sobre crianças sobredotadas. Consulta online em
www.esepf.pt

https://dre.tretas.org/dre/191200/despacho-normativo-50-2005-de-9-de-novembro

Artigo por Joana Madureira

Mulher e Mãe de duas crianças. Psicóloga e Formadora Facilitadora em Parentalidade Consciente Mentora da marca registada SCHOLA - Educar para a Felicidade.

Seja o primeiro a comentar

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.