[psicologia] O que é a Sobredotação e o que a distingue

Certamente já todos ouvimos a palavra “sobredotado”, mas faltarão palavras para explicar no que verdadeiramente consiste a sobredotação. E se o primeiro conceito que vos surge é o Q.I. (quociente de inteligência), saibam que esse factor não é, por si, suficiente para determinar a sobredotação.

Hoje, convido-vos a saberem um pouco mais sobre este tema.

Tendo como fonte a comunidade científica de vários países, estima-se que 3 a 5% das crianças e adolescentes, que frequentam as escolas, são sobredotados e a maioria estará por identificar.

Sendo uma característica, a sobredotação não se afigura como uma patologia nem como uma dificuldade de aprendizagem e, talvez por essa razão, alguns clínicos ainda a desvalorizem.

A sobredotação não consta do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais (DSM), nem do Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID), ambas obras consultadas por profissionais de saúde, em especial os de medicina e os de psicologia. Ainda assim é uma área que carece de muita sensibilização social e atenção por parte de profissionais de saúde e educação.

Ser uma criança sobredotada representa potenciais riscos associados, como os de foro psicológico e fisiológico. Sendo um conceito associado a muitos preconceitos e ideias pré-concebidas, chega a ser uma condição de grande preocupação, especialmente para os pais destas crianças.

“A sobredotação no nosso país é, em grande parte, ignorada não se considerando na prática corrente como relevante a prestação de um acompanhamento diferenciado a estas crianças, por terem o privilégio de possuir uma habilidade superior” (Rebimbas et al., 2012).

A criança sobredotada

A sobredotação caracteriza-se por um desenvolvimento assincrónico entre a maturidade cognitiva (inteligência) e a maturidade emocional (afectividade), sendo que este desfasamento pode mesmo levar a algum sofrimento por parte das crianças, que não encontram nos seus pares os mesmos interesses e podem mesmo a sofrer de algum isolamento social.

Costumam ser extremamente exigentes consigo próprias e com os seus feitos, podendo por vezes serem interpretadas como obsessivas. Outras vezes, preferem desistir e assumir que não conseguem fazer algo, pelo profundo receio que têm de serem mal sucedidos, tal o perfeccionismo na execução que tendem a procurar. Isso pode levar a alguma insegurança e recusa perante coisas ou situações que lhes são novidade.

Não obstante, as crianças sobredotadas, quando encontram oportunidades de se desenvolverem adequadamente, têm todo o potencial para atingirem feitos extraordinários, constituindo-se um contributo valioso para a sociedade.

A criança sobredotada pode ser entendida como aquela que possui um potencial humano de nível superior e frequência constante em uma, ou mais, das áreas operacionais das Inteligências Múltiplas. Ou seja, inteligência tem várias facetas: linguística, lógico-matemática, musical, físico-cinestésica, espacial, interpessoal, intrapessoal e naturalista; sendo cada uma destas inteligências independente das outras, embora se possam combinar – Teoria das inteligências múltiplas (Gardner, 1995).

Renzulli acrescenta que a sobredotação é um comportamento que pode ser desenvolvido em pessoas que apresentam alguma habilidade superior à média, em certas ocasiões e sob certas circunstâncias, e não em todas e quaisquer circunstâncias. Daí que a Família, Escola e o grupo de Pares tenham grande influência como factores exógenos (que em casos adversos, derivam em pressão desadequada, imcompreensão/desconhecimento, preconceito, alienação e/ou bullying).

Definição de sobredotação

Não existe uma definição consensual sobre sobredotação, pelo facto de ser “um conceito aberto, algo relativo e não absoluto” (Falcão, 2012). Os sobredotados constituem um grupo muito heterogéneo, com uma enorme variabilidade no seu desenvolvimento, ainda que apresentem indícios claros à sua identificação. De acordo com Rebimbas et al. (2012), as crianças sobredotadas apresentam características do desenvolvimento que podem despertar a atenção do adulto, nomeadamente:

  • têm uma linguagem ou marcha precoce;
  • possuem vocabulário excepcionalmente extenso para a idade;
  • conta histórias bastante elaboradas e dramáticas, ou relata as suas experiências com grande pormenor;
  • demonstra interesse precoce por símbolos e números ou por palavras e leitura (hiperlexia).

Se no passado, o Q.I. era considerado factor essencial no despiste da sobredotação, hoje sabe-se que o mesmo é redutor e limitado. Actualmente, a caracterização passa por avaliar o potencial desempenho das crianças, em três áreas consideradas relevantes e essenciais à sobredotação: a criatividade, a persistência e a concentração na tarefa – conceitos observáveis.

A base teórica que melhor explica a sobredotação, são o Modelo dos três anéis de Renzulli, e o Modelo multi-factorial de Monks.

 

No primeiro modelo, renzulli explica que é a interacção daquelas três capacidades – criatividade, persistência e concentração – que leva a criança a uma realização superior à média.

No segundo, Monks acrescenta três factores – Família, Escola e Pares-amigos – cujo contributo considera necessário para o sobredotado se desenvolver. Ou seja, “oferecer oportunidades educacionais fundamentais e variadas a crianças com capacidades acima da média“. Uma ressalva: infelizmente, é exactamente esta última trilogia que frequentemente evidencia ser um entrave à criança sobredotada.

Erros de Diagnóstico

De acordo com a iniciativa SENG (Supporting Emotional Needs of the Gifted)[1], uma criança sobredotada que tenha um desenvolvimento assincrónico, é indevidamente rotulado com um diagnóstico de saúde mental).

“A gifted child whose naturally asynchronous development is mislabeled as a mental health diagnosis.“[1]

Webb et al., 2011 [2] indica que muitas crianças (e adultos sobredotados) estão a ser indevidamente diagnosticados por psicólogos, psiquiatras, pediatras e outros profissionais de saúde. Estes erros de diagnóstico derivam de uma ignorância entre profissionais sobre as características sociais e emocionais específicas das crianças sobredotadas, que são indevidamente assumidas por estes profissionais como sinais de patologia.

Many gifted and talented children (and adults) are being mis-diagnosed by psychologists, psychiatrists, pediatricians, and other health care professionals. (…)  These common mis-diagnoses stem from an ignorance among professionals about specific social and emotional characteristics of gifted children which are then mistakenly assumed by these professionals to be signs of pathology. [2]

Dado que muitas vezes se confunde sobredotação com outros conceitos e/ou patologias, segue resumidamente o que as distingue.

Precocidade Intelectual

De acordo com Rebimbas et al., a criança precoce é aquela que apresenta alguma habilidade específica prematuramente desenvolvida (geralmente na idade pré-escolar) em qualquer área do saber ou do fazer, mas habitualmente tendem a equiparar-se aos seus pares, à medida que passa o tempo. Contudo, uma criança já em idade escolar, que reúna condições para ser considerado sobredotado, foi precoce em alguma área (em idade pré-escolar).

Prodígio

A criança prodígio apresenta um desenvolvimento, em alguma área do saber ou do fazer humano, equivalente ao de um adulto especialista na área.

Génio

Habitualmente o termo génio é reservado para aqueles que deram contribuições extraordinárias à humanidade. São aqueles raros indivíduos que, até entre os extraordinários, se destacam e deixam sua marca na História (como Albert Einstein).

Perturbação do Espectro do Autismo

Sendo crianças que apresentam características muito diferentes, podem levar dúvidas ao profissional que as acompanha, sendo essencial a realização de um diagnóstico diferencial. A sobredotação, em alguns casos, apresenta algumas semelhanças com traços de autismo (de alta funcionalidade, antes denominados de Asperger).

Ambos autista e sobredotado, podem apresentar interesses e conhecimentos semelhantes sobre um mesmo tema (incluindo a persistência), contudo, o objectivo de ambos difere. Ainda de acordo com Rebimbas et al. (2012), “a persistência no sobredotado deve-se à exploração de formas alternativas de resolução da tarefa, enquanto o autista mantém de forma repetitiva o seu comportamento, sem um propósito. O autista aparenta ser independente porque não sabe que pode pedir ajuda, o sobredotado é individualista e auto-suficiente. O isolamento social também é uma característica que os pode aproximar, mas o autista não parece sentir necessidade do outro, enquanto o sobredotado pode não ter temas de interesse comuns aos seus pares, dificultando os relacionamentos.

Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção (PHDA)

Esta é outra característica que exige diagnóstico diferencial, já que muitos sobredotados são rotulados como hiperactivos. As suas características diferem, conforme infra se descreve (idem, ibidem).

O sobredotado pode estar desatento por falta de motivação para a tarefa que não é do seu interesse ou que não é estimulante. Por outro lado pode ser hipercinético e impulsivo, querer estar sempre a explorar, e estar sempre a fazer perguntas. Muitas vezes questiona as regras, os costumes e as tradições, tendo tendência a criar as suas próprias regras, enquanto que na PHDA a tendência é de não aderir a regras.

Assim, se formos a levar à letra, quase todos os comportamentos descritos no DSM IV-R para a perturbação de hiperactividade e défice de atenção, podem estar presentes no sobredotado, ainda que a sua causa difira por vários factores.

Dificuldades de Aprendizagem

Ainda segundo as mesmas autoras, e ao contrário do que se possa pensar, também pode ser prudente o diagnóstico diferencial com as dificuldades de aprendizagem: “as crianças sobredotadas podem ter resultados escolares abaixo ou ao nível da média. Isto pode acontecer tanto por não ser essa a sua área de habilidade (que pode ser unicamente psicomotora por exemplo) ou pela sua baixa auto-estima, problemas de motivação ou falta de reforço ambiental para o sucesso académico. Um exemplo célebre do mesmo, muitas vezes referido na literatura é o de Albert Einstein.

A Sobredotação e as NEE

Apesar do conceito de Necessidade Educativa Especial estar relacionada com deficiências e dificuldades ao nível da aprendizagem, a actual legislação em vigor (Despacho Normativo 50/2005, de 9 de Novembro, Art.º 5º) prevê um conjunto de estratégias de intervenção, com vista ao sucesso educativo dos alunos do ensino básico, estendendo o Plano de Desenvolvimento “aos alunos que revelem capacidades excepcionais de aprendizagem.”

Dez anos antes desta lei, Portugal foi signatário da Declaração de Salamanca (Conferência Mundial sobre Necessidades Educativas Especiais: Acesso e Qualidade, 1994), na qual se pode ler o seguinte:

“O princípio orientador deste Enquadramento da Acção consiste em afirmar que as escolas se devem ajustar a todas as crianças, independentemente das suas condições físicas, sociais, linguísticas ou outras. Neste conceito, terão de incluir-se crianças com deficiência ou sobredotados (…). Estas condições colocam uma série de diferentes desafios aos sistemas escolares”. (Declaração de Salamanca, 1994)

Apesar da legislação prever a legibilidade das crianças sobredotadas, a realidade dos pais tem demonstrado ausência de cooperação escolar, educacional e de saúde, por falta de conhecimento, formação ou recursos neste sentido.

Principais problemas associados à condição de sobredotado

A versão que quase ninguém conhece, é aquela que acarreta prejuízo à criança sobredotada. E neste texto descrevemos alguns (adaptado de idem, ibidem):

  • Mostra impaciência face à lentidão dos outros, recusa rotinas básicas/repetição do que já sabe;
  • Faz perguntas desconcertantes, interesse excessivo em alguns temas;
  • Coloca em causa métodos de ensino; é demasiado autónomo (no que domina);
  • Tem dificuldade em aceitar o ilógico e áreas pouco claras (tradições, sentimentos);
  • Desfasamento elevado entre maturidade cognitiva e maturidade emocional (o que lhes causa sofrimento);
  • Ao organizar coisas e pessoas, constrói regras e sistemas complicados; tende a ser dominante face aos outros;
  • Aborrecimento com a escola, intelectualismo face a problemas concretos;
  • Intolerância face aos outros, perfeccionismo; facilmente deprimível;
  • Preocupações humanitárias (por vezes sofrem por não compreenderem a existência de flagelos);
  • Desagrado com interrupções, abstraem-se dos pares e dos seus deveres quando concentrados;
  • Inibição face à crítica ou rejeição dos pares. Necessidade de reconhecimento;
  • Pouco conformismo, recusa pelos pares e professores (são muitas vezes alienados);
  • Aparente desorganização, frustração por falta de tempo;
  • Humor não compreendido pelos colegas, alvo de riso dos colegas.

Ao ler testemunhos de pais de crianças sobredotadas, muitos assumem preferir manter a condição dos seus filhos na confidencialidade, pelas experiências prévias desagradáveis (algumas bastante prejudiciais) com educadores/professores e grupo de pares (preconceito).

Convém salientar que, independentemente das suas características, todas as crianças são isso mesmo: apenas crianças. Apenas querem sê-lo.

O princípio da igualdade de oportunidades da Declaração de Salamanca, sobre a “escola inclusiva” de 1994, de que o governo português é signatário , vem (…) referir explicitamente as crianças sobredotadas como grupo a requerer maior individualização educativa por parte das instituições e profissionais envolvidos (UNESCO, 1994). Penoso é, porém, este princípio continuar “arrumado na estante”, vítima das tendências sociais elitistas que consideram desnecessária a atenção aos sobredotados.” (In Esepf, Guia Sobre)[3]

Sendo um tema que requer sensibilização da sociedade, este é o nosso primeiro contributo. Noutro texto, abordaremos o papel que pais e professores podem ter na qualidade de vida da criança sobredotada. Até lá, conto convosco para partilhar e sensibilizar.

Até breve!

Joana Madureira

 


BIBLIOGRAFIA

Falcão, I. (1992). Crianças Sobredotadas – Que Sucesso Escolar? Rio Tinto: Edições Asa.

Gardner H. (1995). Inteligências Múltiplas: A teoria na prática. Porto Alegre: Artes Médicas.

Rebimbas et al. (2012). Sobredotados – o que a pediatria deve saber.  Acta Pediátrica Portuguesa, 43(6):268-71

Esepf (s. d.). Guia sobre crianças sobredotadas. Consulta online em www.esepf.pt

[1] http://sengifted.org/programs/misdiagnosis-initiative/

[2] Webb, 2011 – http://sengifted.org/misdiagnosis-and-dual-diagnosis-of-gifted-children/

[3] http://redeinclusao.pt/media/fl_9.pdf – (página 6, Ponto 3).

 

SUGESTÃO DE CONSULTA:

https://www.aneis.org/category/estudos_publicacoes/

Legislação: artigo Nº 5, Despacho n.º 50/2005 de 9 de Novembro

 

Artigo por Joana Madureira

Mulher e Mãe de duas crianças. Psicóloga e Formadora Facilitadora em Parentalidade Consciente Mentora da marca registada SCHOLA - Educar para a Felicidade.

Este artigo tem 5 comentários
  1. Ana diz:

    Parabéns pélo artigo. Esta muito bem explicado e de uma forma simples. Tenho um filho com características semelhantes mas sem diagnóstico. Obrigada por partilhar

    • Olá, Ana, obrigada pelo seu retorno! Dia 14/09/2017 sai novo texto sobre sobredotação com orientação para pais e professores, e nele encontra referência a duas associações que pode contactar para obter mais informações e apoio à precocidade intelectual e sobredotação. Até lá, faço votos de que nos continue a ler e a partilhar connosco! <3

  2. Adorei o artigo!
    Sempre tive bastante curiosidade em tudo o que tem a ver com o desenvolvimento cognitivo humano.
    Muito obrigada 😀

  3. Pedro diz:

    Eu sou sobredotado e concordei muito com o artigo principalmente naquelas partes do autismo e da escola, mas eu discordei na parte dos sobredotados sofrerem bullying e se isolarem.
    Normalmente os sobredotados que isolam são os burros que não querem ter vida social so mesmo para se armarem em coitadinhos, eu sinto que estou avançado relativamente aos meus colegas mas isso não me impede de ser amigo deles (apesar de também me admirar com a burrice de alguns) mas prontos… A do bullying e que fiquei uau… eu nunca sofri bullying por ser sobredotado na vida, mesmo que me isolasse da sociedade tipo… não entendi… quando se sofre bullying por inveja nem e considerado bullying… pelo menos para mim…

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