[psicologia] Os pais sabem melhor!

Hoje, conto-vos uma história.

Na realidade, é mais um pedacinho de histórias de vida de dois casais, pais de crianças com particularidades.

Para começar, deixem que vos diga: todas as crianças têm as suas particularidades! Apenas umas sobressaem mais do que as outras. Apenas umas se integram na sociedade com maior ou menor facilidade. Algumas podem precisar de apoio adicional e quanto mais precoce for a intervenção, mais saudável e facilitado se torna o crescimento e o desenvolvimento da criança. E o crescimento e o desenvolvimento dos seus pais (como pais!), também.

O mesmo será dizer que todas as crianças têm necessidades educativas. Algumas têm necessidades educativas mais especiais que outras. Cada criança tem o seu tempo de evolução, cada criança tem as suas particularidades.

Voltando ao pedacinho de histórias.

Era uma vez um casal, pais de uma criança com particularidades cognitivas.

A intenção deste casal, era simples: conhecer e compreender melhor as características da sua criança, aceitando-a tal como ela é, para melhorarem a sua conexão.

Num mundo onde tanto se fala de má educação, mimo a mais (?!) e falta de limites, os pais tendem a sentir como difícil a tarefa de distinguir entre “defeito e feitio”… Os pais sentem-se cada vez mais julgados e cada vez mais perdidos.

Batendo no seu limite de competência, este casal recorreu a vários profissionais de saúde, no sentido de obter informação técnica para melhor perceber as características da sua criança. Todos os profissionais deram opiniões. Alguns palpites também.

A determinada altura, este casal sentiu-se perdido nas opiniões distintas. Tão simplesmente porque algumas opiniões não eram sobre as características clínicas da criança, mas sim sobre a relevância que os pais deveriam dar às características da criança em si. As opiniões variaram entre moderadas a extremas.

Para uns, se a criança era aparentemente funcional, mais valia desvalorizar – ou seja, “não queira que a sua criança seja sobredotada, queira que ela seja ‘normalzinha’. Com a idade isso dilui”.

Para outros, a criança apresentava características tão específicas, que o ideal seria “normalizar” – “não deixe”; (…); “não dê” (…); “não devia” (…). Ou seja, não alimentar os interesses da criança, neutralizando, assim, os estímulos em casa. Tal como uma flor sem água, uma criança sem o estímulo, resolveria essa especificidade (?!).

Nestas duas opiniões opostas, existe algo em comum: aceitação condicional. Ou, melhor escrito, não aceitação da criança como ela é. Ponto. E sobre esta matéria, sugiro-vos a leitura do livro Unconditional Parenting (Parentalidade Incondicional) do autor Alfie Kohn (2005).

Os pais procuraram apoio profissional para melhor compreender as características da sua criança. No final, os pais acabaram por sentir que lhes foram dadas lições de moral sobre a sua parentalidade.

Os pais sabem melhor

Era uma vez um casal, pais de uma criança autista não verbal.

Também estes pais recorreram a vários profissionais se saúde. Ao fim de várias consultas com diferentes profissionais, um médico disse-lhes:

“Não deixe que ninguém lhe diga que sabe mais sobre o seu filho, do que a senhora”.

E esta mãe continuou: “Foi aqui que eu tive o meu clique. Os profissionais têm conhecimento técnico que eu preciso. Mas ninguém conhece melhor o meu filho do que eu. Numa consulta que me custou 100€, esta foi a frase mais acertada que ouvi.”

É de grande importância escolhermos profissionais com os quais nos identificamos – seja na sua forma de trabalhar, seja na forma de comunicar – e, acima de tudo, escolhermos profissionais que respeitem a forma como praticamos a nossa parentalidade.

Necessidades e Limites

Quando um pai e uma mãe, em plena consulta, se sentem na necessidade de se justificarem e se defenderem perante o profissional a quem recorreram, algo está mal. E, certamente, a forma de comunicação deve ser revista.

Quando os pais, em consulta, sentem a sua parentalidade posta em causa, – especialmente quando as consultas decorrem com a criança presente – há, claramente, a urgente necessidade dos pais esclarecerem quais as suas necessidades e os seus limites pessoais.

“Eu recorri a si para obter maior informação técnica a respeito da minha criança (necessidade). Causa-me grande desconforto quando sinto que um profissional põe em causa as minhas decisões como pai / mãe” (limite).

Ninguém deve estar acima dos pais. Os pais não deveriam sentir necessidade de estar acima de ninguém. Os pais assumem o compromisso de fazer parelha com os profissionais a quem recorrem, para juntos identificarem necessidades e estratégias.

Os profissionais têm intervenções pontuais com as crianças. Os pais vivem com as suas crianças todos os dias. É preciso empoderar os pais para eles sentirem que são capazes de dar o seu melhor.

Empoderar os pais, pode tão simplesmente significar orientá-los, sugerir-lhes estratégias e ferramentas para situações futuras; e não em criticar situações já passadas, julgar ou usar o tão enraizado tom de “ralhar”  – o tom com que se comunica, interfere muito.

Ser vulnerável, faz parte da natureza humana e é muitas vezes um ponto de partida para o nosso crescimento. Aceitar que outros nos vulnerabilizem, deve constituir um limite pessoal.

Aos pais, que todos os dias procuram dar a melhor versão de si (com os recursos que dispõem), em benefício dos seus filhos, cabe-lhes a difícil tarefa de se “reencontrarem”, de se “escutarem” internamente.

De, também eles, se aceitarem incondicionalmente – aceitarem as suas capacidades e as suas limitações.

De definirem as suas intenções e de se manterem fiéis aos seus valores;

De esclarecerem sempre as suas necessidades e os seus limites pessoais, transmitindo-os através da linguagem pessoal e da comunicação não-violenta.

O instinto parental existe e a prática de uma parentalidade consciente é um grande aliado.

A todos os pais que nos lêem, em particular aos dois casais que inspiraram este texto, lembrem-se: os pais sabem melhor ♥

Até breve,

Joana Madureira

Artigo por Joana Madureira

Mulher e Mãe de duas crianças. Psicóloga e Formadora Facilitadora em Parentalidade Consciente Mentora da marca registada SCHOLA - Educar para a Felicidade.

Este Artigo tem 1 comentário
  1. Que texto interessantíssimo! Adorei esta frase: “Não deixe que ninguém lhe diga que sabe mais sobre o seu filho, do que a senhora”. Ninguém conhece melhor os nossos filhos, do que nós mesmos. Desde que, sejamos mães ou pais presentes. Parabéns pelo artigo. beijinhos

    https://saboresdoninho.blogspot.pt/

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