[psicologia] Seis segundos de abraço

Em tempos cruzei-me com um interessante artigo sobre o significado de abraçar – da saudação às implicações do toque.

Um abraço pode ser algo incrivelmente intenso, tanto para quem dá, como para quem recebe. Mas para que surta efeito, é preciso que tanto emissor e receptor estejam no mesmo “comprimento de onda” (sintonizados!).

Quantos de nós já não teve aquela pessoa excessivamente expansiva, que nos abraçou eufórica e sem licença (pensamos “que raio foi isso”)?

E quantos de nós já precisou de um profundo abraço para celebrar ou tranquilizar as emoções ao rubro, muitas vezes em silêncio?

Pois bem, o abraço não é só cultural. É também terapêutico. E tudo o que precisamos são seis segundos de abraço!

Etimologia da palavra Abraço

A palavra inglesa “hug“, terá originalmente derivado das palavras saxãs e teutónicas “hog” ou “hagen“, que significariam ” to be tender of, to embrace ” – ser terno, envolver – (Kluge & Götze, 1930; cit. por Forsell e Åström, 2012).

Por sua vez, a palavra “embrace” (abraçar) tem origem latina no prefixo “em” que significa “aqui estás” e “brace“, derivado do latim “braccia“, que combinado com “bracchia collo circumdare”, significa literalmente “braços a cercar o pescoço”.

De acordo com Morris (1977; cit. por Forsell e Åström,2012), um abraço é a manifestação de uma saudação, que demonstra desejar bem a alguém, ou pelo menos, que não se lhe deseja nenhum mal. Transmite sinais de amizade ou ausência de hostilidade.

Abraço com intenção

O abraço tem uma conotação cultural, mas quando sentido, enceta em si muita intenção e emoção.

A diferença entre o abraço cultural e o abraço emocional, reside na variação de proximidade do corpo, intensidade do acto e duração do abraço, assim como o motivo e contexto que o originou.

De acordo com Morris (ibidem), o estilo de abraço durante uma saudação ou um momento de condolências, baseia-se na intensidade das emoções derivadas do momento em causa. Por exemplo, quando se presta condolências a amigos ou pessoas próximas, tendem a ocorrer abraços  e estes são frequentemente realizados sem palavras, podendo mesmo resultar num longo abraço silencioso.

Estudos demonstram que o abraço é, geralmente, mais usado entre pessoas próximas ou ente queridos, e tanto em manifestações de saudação, como em momentos de partida ou condolências.

Não obstante, pela crescente consciencialização do poder de um abraço, têm surgido iniciativas públicas de desconhecidos que se abraçam em prol de causas sociais para o bem comum (por exemplo, vejam aqui o Free Hugs Project).

Abraço terapêutico

Parecem imensos os textos e os estudos que se encontram sobre os benefícios de um abraço.

No artigo de Forsell e Åström (2012), o abraço evidencia efeitos terapêuticos, reflectidos nas alterações emocionais, psicológicas e bioquímicas que ocorrem no organismo. A sensação de um abraço para uma única pessoa também pode ser evocada com estimulação elétrica do cérebro.

Com base na literatura publicada, bem como observação pessoal, aqueles autores relevaram o fato de que abraçar não é apenas uma parte do comportamento saudação, mas também é usada como uma demonstração de empatia e/ ou gratidão.

Lehr (2009) resumiu os efeitos benéficos de um abraço, incluindo o aumento da produção de endorfinas que fortalecem o sistema imunológico do corpo.

De acordo com Forsell e Åström (2012), abraçar pode referir-se a sensações físicas, a um sentimento psicológico de bem-estar, e muitas vezes a uma experiência emocional positiva.

Em particular, a experiência emocional positiva origina reacções bioquímicas e fisiológicas, tais como uma maior magnitude de oxitocina plasmática, norepinefrina, cortisol e alterações na pressão sanguínea.

O abraço potencia mudanças psicológicas e fisiológicas positivas. Por outro lado, pode combater a ansiedade, a falta de auto-estima e a falta de autoconfiança.

Abraço na Infância

A literacia emocional inclui reconhecer emoções (a sua e a dos outros), exprimir verbalmente e expressar fisicamente as emoções. Mas para tal, a criança precisa de aprender.

A infância é a idade da aprendizagem por excelência. Como tal, quando as crianças experienciam abraços por parte dos seus progenitores desde cedo, aumenta a probabilidade de tornar o abraço mais prevalente na idade adulta.

Uma pessoa criada em um ambiente onde o abraço é predominante, tem tendência a incorporar abraços no seu próprio comportamento de saudação. E, uma vez que as emoções têm grande interferência no comportamento, os abraços também podem ser vistos como uma manifestação do respectivo estado emocional.

Tiffany Field, Directora no Departamento de Pediatria  do Touch Research Institute (Escola de Medicina da Universidade de Miami), em 2010, resumiu pesquisa empírica sobre o toque, incluindo o abraço, e descreveu as consequências da carência do toque para o bem-estar sócio-emocional e físico na infância e idade adulta.

Esta pesquisa inclui o papel do toque no desenvolvimento precoce, privação do toque, aversão ao toque, emoções que podem ser transmitidas pelo toque, a importância do toque para as relações interpessoais e como o toque amigável afeta conformidade em diferentes situações.

Uma pessoa que abraça, transmite a impressão de amizade e abertura, o que por vezes pode ser espelhada por indivíduos mais controlados – auxiliando, assim, na expressão das emoções.

Este efeito do abraço, pode ser optimizado quando combinado com expressões faciais e comunicação verbal congruentes.

Com uma criança, por exemplo, um sorriso e verbalizações positivas como “que bom ver-te!” ou expressão de reconhecimento pela criança “estou tão feliz por teres tomado a iniciativa de me visitares!”, transmitem-lhe congruência emocional e estima, assim como proximidade e carinho, uma vez que abraços são uma manifestação de preocupação e apoio.

De acordo com a bibliografia, mesmo após o encontro marcado por um abraço, só a lembrança desse facto pode mesmo estimular o alcance de estados de humor positivo! E não preciso referir o quanto este estado interfere na auto-estima de uma criança, pois não?

Seis segundos de Abraço

E porquê que se defende um abraço de seis segundos? Porque seis segundos é o tempo que a Dopamina (um neurotransmissor) leva a agir no nosso cérebro.

A Dopamina é responsável por funções como: o movimento; a memória; a recompensa agradável; o comportamento e cognição; a atenção; o sono; o humor; a aprendizagem.

Um abraço de seis segundos é o suficiente para activar os neurotransmissores de Serotonina (regulador do humor, sono, apetite, ritmo cardíaco, temperatura corporal, sensibilidade a dor, movimentos e funções intelectuais) e Oxitocina (intimamente ligada às sensação de prazer, bem estar físico e emocional, e à sensação de segurança e pertença).

Há quem diga que o quarteto da felicidade é a combinação de Dopamina, Serotonina, Oxitocina e Endorfinas – chamados as hormonas do prazer!

Resumindo, dêem abraços sentidos e sejam felizes!

 

Até breve,

Joana Madureira


BIBLIOGRAFIA

journals.sagepub.com/doi/pdf/10.2466/02.17.21.CP.1.13

Lehr, L. J. (2009) A hug: the miracle drug. em www.HelpINeedaHug.com.

www.news-medical.net/health/Dopamine-Functions-(Portuguese).aspx

www.tuasaude.com/serotonina/

osegredo.com.br/2015/04/conheca-o-quarteto-d-felicidade-dopamina-serotonina-endorfinas-e-ocitocina

Artigo por Joana Madureira

Mulher e Mãe de duas crianças. Psicóloga e Formadora Facilitadora em Parentalidade Consciente Mentora da marca registada SCHOLA - Educar para a Felicidade.

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