[psicologia] Mini class sobre Filhos e Pais conectados

Há umas semanas, assisti a uma mini class da Mikaela Övén, intitulada Filhos e Pais conectados, onde foi abordada a questão da parentalidade.

Nela, falou-se da ideia clássica da obediência e da tendência crescente, dos pais da actualidade, optarem por pensamentos disruptivos, com vista à criação da nova parentalidade para um mundo em paz.

Não quis deixar de partilhar convosco alguns conceitos que foram abordados, porque achei a apresentação de interesse relevante, juntamente com reflexões que fui fazendo. Sejam estes conteúdos iguais ao que pretendemos como pais, ou sejam diferentes, pelo menos surge como um novo ponto de vista. E reflectir faz-nos crescer.

Obediência

O conceito de educação rígida e de obediência cega (pelo medo da punição), tendem a levar as crianças a não pensarem por si próprias, agindo conforme mandadas e extraindo daí toda e qualquer culpa que possam ter ou sentir. Um exemplo falado foi a proporção do crime contra os judeus na Alemanha nazi, onde reinava uma educação severa e de obediência cega.

A obediência tende a levar, de facto, a uma dependência extrema de terceiros, aumentando a permeabilidade às opiniões dos outros e a uma falta de convicção própria (intrínseca).

Iguais, mas diferentes

O comportamento é um acto visível aos outros. Na minha infância, era comum ouvir-se “tu és má” ou “portaste-te mal” (por coisas nem sempre devidamente conotadas, mas eis a crítica social!).

De facto, há condutas sociais inerentes à vida em sociedade, que nem sempre “permitem” que as pessoas se comportem como querem e lhes apetece (lembrem-se sempre da premissa “a minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro”), mas há um direito que nos assiste a todos: termos a liberdade de nos expressarmos como queremos. Isto é tanto válido para adultos, como para crianças, como para relações entre adultos e crianças. Övén chamou-lhe a prática de igual valor – os meus desejos e necessidades, são iguais aos dos meus filhos.

Como adultos, temos por hábito sobrepor as nossas opiniões às opiniões das crianças e com alguma dificuldade praticamos (com as crianças) o igual valor. Mas é possível; é apenas necessário empenho em todo um processo para lá chegar, se isso fizer parte do nosso reportório de valores como pais.

A prática de igual valor tem a ver com isto mesmo: o meu filho tem o mesmo valor que eu. E para criar um mundo em paz, é preciso estarmos em paz. Para estarmos em paz, necessitamos de amor próprio e de auto-estima – relação saudável comigo e com os outros.

Pessoas que são muito dependentes da validação externa (da opinião dos outros), tendem a ver a construção da sua auto-estima dificultada. Então, o que é necessário para educarmos filhos com verdadeira auto-estima?

Três pilares para a auto-estima das crianças

Mikaela Övén apresentou três conceitos basilares para a auto-estima das crianças:

 Aceitação – aceitar as coisas como elas são (aceitar a natureza das crianças, por exemplo) e estar em paz com isso.  Não aceitarmos, é resignarmo-nos.

Um exemplo: imaginem uma mãe no momento em que o filho faz uma birra em pleno espaço comercial. A diferença entre resignação e aceitação, é não se preocupar com os olhares alheios e o que os outros possam estar a pensar de si e do seu filho; mas sim abstrair-se dos outros e focar a atenção no filho e no que ele necessita naquele momento mas não sabe como exprimir da forma mais apropriada;

Confiança – acreditar e confiar nas capacidades e competências inatas das crianças. Nesta mini class, Övén permitiu-me uma reflexão valiosa: é possível obrigar um bebé a mamar no peito da mãe? Não. Ele mama apenas e só quando tem fome (e chora bem alto para se fazer ouvir). Então, porque é que, a partir do momento que introduzimos a refeição à colher, não confiamos mais quando a criança diz que não tem fome? Ou frio? Ou calor?

Educamos com base em crenças culturais muito enraizadas. Mas podemos pensar diferente, dando a oportunidade de decisão ao(s) nosso(s) filho(s). Exemplo: dizendo simplesmente “tens aqui o casaco para quando tiveres frio” (ao invés de “veste o casaco porque vais ter frio”). A criança começa a sentir que confiam nela e sente-se responsável.

Reconhecimento – é quando as pessoas me vêm e se interessam por mim, querem saber mais a meu respeito ou sobre o que fiz. É um passo importantíssimo para alguém desenvolver uma auto-estima verdadeira e saudável. Reconhecimento é diferente de elogio. O reconhecimento faz-nos sentir que somos valorizados, ajuda-nos a crescer “verdadeiramente de dentro para fora“.

O elogio difere do reconhecimento, quando dizemos a uma criança sobre o seu desenho “Que bem! Que bonito!” (elogio); em vez de “o que desenhaste? Onde te inspiraste? Essa é a tua cor preferida?”, etc. (reconhecimento).

O elogio é quase um impedimento à comunicação, porque é imediato, termina ali, não permite dar continuidade à conversação; para além de desenvolver uma dependência da avaliação externa. Mas isto não quer dizer que o elogio não possa ser usado!

Já o reconhecimento é um processo (mais demorado que um elogio, portanto) e é algo duradouro, permite troca de impressões e de ouvir a pessoa a falar mais sobre si e sobre o que faz.

Por fim, Övén abordou o tema do mindfulness que, aliás usou na sua obra Educar com Mindfulness – guia de parentalidade consciente para pais e educadores.

Educar com Mindfullness_Mia Övén

De uma forma muito sintética, praticar mindfulness é estarmos a “prestar atenção de propósito, no momento presente (aqui, agora) e sem julgamentos“. O foco em si próprio, no seu corpo, no que sente, naquele exacto momento e lugar. Conseguirmos abstrair-nos dos pensamentos, sabendo que não são reais: são apenas pensamentos, assim como as nossas emoções. O mindfulness pode, então, ser entendido como o espaço entre a emoção (ou pensamento) e a acção (ou comportamento).

Praticar mindfulness com as criança, é exactamente o mesmo, sendo o nosso foco a própria criança – estar disponível apenas para ela, para a educar em paz e para a paz. E educar para a paz, pressupõe uma educação consciente das crianças: os futuros adultos.

Em jeito de reflexão final, é importante se entendermos a Parentalidade Consciente como uma (longa) caminhada e que, com ela, pode vir a culpa e a compaixão por nós próprios. Podemos tomar consciência que, algures pelo caminho, é possível que tenhamos errado e continuemos a errar. É humano e faz parte da aprendizagem ao longo de toda a vida. Mas ver só as coisas que erramos (culpa), não resulta. Conhecer a nossa intenção, saber o que podemos fazer da próxima e seguir em frente, é o caminho (compaixão e mindfulness ajudam).

E vocês? Já se questionaram:

“Quem é que eu quero ser como pai/mãe?”

“Quem querem ser na vossa parentalidade e perante vocês também?”

“Qual a relação que desejo ter com os meus filhos?”

“Quem tenho de ser para possibilitar esse desenvolvimento nos meus filhos?”

Como mãe, também eu sei que vou ter desvios no caminho que desejo ver traçado. Mas saber realmente o que quero, permite-me voltar ao meu trajecto; refocar-me.

E vocês, o que acham desta abordagem? Gostava tanto de ter partilhas vossas!

 

Até breve,

Joana Madureira

 


WEBGRAFIA

Transmissão Mini Class

http://www.mindfulnesseparentalidade.com/

Artigo por Joana Madureira

Mulher e Mãe de duas crianças. Psicóloga e Formadora Facilitadora em Parentalidade Consciente Mentora da marca registada SCHOLA - Educar para a Felicidade.

Seja o primeiro a comentar

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.