Textos sobre Angola, Infância e Adolescência

Angola:

 

– Sobre as Quedas de Duque de Bragança…

 

“Lugar paradisíaco….lindo, a natureza no seu melhor, ….lá saíamos de casa às 4h da madrugada para a viagem ser feita ainda na fresca da noite…..estrada longa…uma curva aqui ou ali…..de vez em quando uma aldeia e os pequenotes vinham a correr para dizer adeus…..a paragem junto a uma plantação da cana de açúcar….ahhhhh…que delicia que era degustar a cana acabada de ser cortada…..e lá para o meio da manhã chegávamos às Quedas dos Duque de Bragança. Ali ficávamos…a viver a paisagem, a natureza….apesar de ainda ser criança como gostava daquele lugar….não sabia dizer o porquê mas agora já adulta compreendo…era um paraíso intacto!”

 

– Sobre umas férias em casa dos meus tios-avós em Luena com 16 anos….

 

“De repente o passado invadiu o meu presente…..um passado longínquo….há cerca de 42 anos ( e mais atrás há mais de 50 anos)….umas férias que passei numa cidade no interior de Angola, Luso, actualmente Luena. Foram 15 dias de uma vida muito diferente de Luanda__________ não levei a minha mota, não tinha praia, só havia um cinema e ninguém da minha idade para conviver. E o que fiz durante 15 dias, logo eu, irreverente, que adorava as praias de Luanda e adorava a minha mota? Li, ou melhor, devorei os livros que o meu tio-avô (foi na casa dos meus tios-avós que passei as férias) tinha nas estantes. Para além disso devorei as pitangas (uhmmm ….que deliciosas) das suas 2 árvores_____ficaram limpinhas! Fui 2 vezes ao cinema e aproveitei uns bons lanchinhos que a minha tia-avó fazia para as suas amigas. Mas o melhor________ahhhh o melhor era a noite______ a cama de estilo antigo, com uma colcha macia (as noites eram frias), o relógio no corredor que batia as horas e o som, a música, o concerto de toda a natureza que envolvia Luena! Momentos mágicos!”

Foto 3

 

“Que desejo de comer pitangas, sentada …….olhando para o tempo…..ver as

árvores, o céu, as aves…….e a pitangueira mesmo a meu lado. Ouvir as galinhas acacarejar na capoeira……a pedirem para eu partilhar com elas o sabor das pitangas……lá lhes fazia a vontade e atirava-lhe algumas. O tempo ajeitava-se a meu lado….preguiçoso……e ali passávamos horas ….eu, a pitangueira, as galinhas e o tempo. Como sentia a vida naqueles momentos, em que a lentidão do tempo me envolvia num mundo de tanta simplicidade. Foi em 1972 na cidade do Luso em Angola. Tinha eu 16 anos….como desejo comer pitangas!”

 

 

– Sobre a minha irreverência…

 

“Decorria o ano de 1970…..tinha eu 14 anos….uns 14 anos de rebeldia,

inconformismo com o sistema, provocatórios, por vezes….provocatórios no sentido de tentar mexer com as mentalidades, abri-las, libertá-las de tabus e

preconceitos…..por isso o ser “Maria-rapaz” ….a minha mota, as minhas “fugas” do liceu, as minhas ideias e conversas que levavam a minha mãe a ter “receios” pois os tempos ainda eram de fascismo….por outro lado, uns 14 anos que idealizava o futuro, que vivia aquele presente intensamente ao som desta e de outras músicas que adorava dançar….que vivia nas praias de Luanda mergulhando no seu mar deliciosamente azul envolvendo-me nas suas águas límpidas e tépidas…naquele mar que me balouçava nas suas ondas…naquele mar onde me sentia o feto no útero materno. ….14 anos em que não conhecia as palavras stress, ansiedade aguda, depressão que os jovens actualmente conhecem tão bem………..saudades……aiuê!”

 

– Sobre o Liceu D Guiomar de Lencastre….

 

“Estes dias resolvi dedicar algum tempo às minhas memórias. Já são muitas, mas nunca demais. O dia a dia, que me absorve implacavelmente nas suas tarefas, não me deixa rebuscar na gaveta das memórias momentos da minha vida que estão lá ciosamente guardados. Alguns desses momentos, mesmo que me pareçam insignificantes, estão lá gravados. Momentos como, por exemplo, o vestir a bata do liceu no 1º dia de aulas de um novo ano lectivo. Mas o pormenor responsável por ter esse dia na memória foi o emblema do liceu que era bordado na parte superior da bata, no lado esquerdo. Eram as iniciais: LGL, Liceu D. Guiomar de Lencastre. E do emblema sobressai a sua cor. A cor do emblema indicava o ano que frequentava. No 1º dia de aulas do novo ano lectivo, ao vestir aquela bata branca, esmeradamente passada a ferro, olhava para o emblema com a nova cor e pensava: mais uma etapa na minha vida. Mais uma etapa para chegar onde quero. Mais uma etapa para poder exercer esta minha profissão que tanto amo. Desejava, naquele dia, que nada mo impedisse de fazer.

Como gostava de vestir a bata no 1º dia de aulas do novo ano lectivo, Como gostava de olhar para aquele emblema. Como gostei de todos os anos passados no Liceu D. Guiomar de Lencastre em Luanda.”

 

– Sobre de tudo um pouco….

 

“14 anos tinha eu…….passaram por mim ou eu passei pelos anos……41……..lembranças muitas! Luanda, o Liceu D. Guiomar de Lencastre, liceu feminino com uma certa austeridade, muitas regras e proibições……ah, as proibições……eram o melhor! Sair sem ser vista, ir às varandas da frente, preparadas junto à porta da sala de aulas para que ao 2º toque pudéssemos sair a correr para o pátio de trás. As aulas, as professoras, as minhas colegas, as brincadeiras, as traquinices…….estudante, existe melhor vida que a de estudante?

Os meus vizinhos da rua José Oliveira Barbosa….hoje lá nos vamos encontrando em almoços anuais! A mota, a minha adorada mota……..não era nada sem ela….horas passadas à porta da oficina quando ela ia lá parar após uma esmurradela, consequência da minha atracção pela velocidade! As festas ao ar livre ….aos sábados…ora na casa de uma …ora de outro! O cinema também ao ar livre…..o Miramar um dos meus preferidos….ecran panorâmico e tendo como fundo a Baía de Luanda. A praia……praia ……ondas altas e bravas como eu gosto….muito mar….quentinho……..colchão de ar…..horas e horas na água…..bronzeada, tãobronzeada que ficava. Vivia intensamente….as chuvadas de verão….os dias no liceu…..os exercícios de matemática que adorava fazer…..os jogos do ringue …..as noite quentes, os grilos…..os mosquitos a sobrevoar-me e a picar-me…..o paludismo com as suas febres altas…….o amanhecer….e o sol posto….a muamba, a deliciosa muamba…..o mercado de Kinaxixe…..a minha cadela e o meu papagaio…..as viagens à Cela….a Nova Lisboa….ao Lobito….a Novo Redondo esta última numa avioneta e debaixo de tempestade….a estante ainda tem tantas memórias, tantas…Memórias de uma vida que foi minha….vida que me fez crescer.. .ser o que sou e sempre serei…….reflexos da minha vida! I’m changing?…..or the world is

changing!”

 

“Só quem esteve em África entende o amor que sinto por Angola…..só quem teve o privilégio de mergulhar nas águas mornas daquele mar…de o saborear durante todo o ano(mesmo no tempo do cacimbo….como nesta foto)…..só quem brincou sob a água das chuvas tropicais…..só quem vestiu uma blusa de tecido fino, uma calça e sandálias de Janeiro a Dezembro….só quem amanheceu com o sol quente que dava energia ao nosso dia…..só quem percorreu as estradas longas e rectas rodeadas de terra vermelha….só quem parou ao lado de uma plantação de cana de açúcar e sorveu o seu sumo….só quem visitou as Quedas dos Duques de Bragança…..só essas

pessoas entendem o amor que sinto por Angola. Aiuê…saudades!!”

 

“Sempre que posso falo em Luanda, em Angola. Faço parte daquela terra imensa, com as suas cores fortes e quentes, as suas chuvadas que amaciavam o calor, a sua fruta cujo sabor ainda permanece nas minhas papilas, o mar infinito que balanceava nas ondas gigantes mas que eu não temia, as suas músicas e danças inebriantes…..eu faço parte daquela terra e ela está entranhada em mim. Ó Ilha de Luanda com as tuas praias irresistíveis, como me queria aí deitada ouvindo as ondas falarem enquanto se desenrolavam em espuma na areia. Como gostaria que meus

filhos te conhecessem minha terra.”

Foto 6

 

 

 

 

 

 

 

– Poemas a Angola:

 

“Um dia

longe nos ponteiros do tempo…

o mar, a areia, o sol eram a minha praia.

 

Um dia

os anos passados ainda não eram vinte…

os dias eram sal, luz, riso.

 

Um dia

a vida oferecia sonhos, fantasias, futuros…

desse dia restou o relógio.” – MRS

 

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“Na imensidão do mar

recordo a minha terra…

Na imensidão de seu mar

ficaram alguns sonhos.

 

Na imensidão do mar

Cheiro a minha terra…

que a chuva vinha molhar

em tempestade passageira

 

Na imensidão do mar

chama-me a minha terrra…

um dia hei-de voltar

a Angola e dizer: sou tua!” – MRS

 

O antes e o depois do adeus a Angola:

 

“Saí de Luanda a 2 de Novembro de 1975 acompanhada de meu pai. A minha mãe e irmãos já estavam em Lisboa desde Agosto. Fiquei para acabar o 1º ano de Medicina e trazer a transferência para a Faculdade de Medicina de Lisboa nas minhas mãos.

Vivi os tempos da guerra civil. A faculdade, em Luanda, ficava ao lado do hospital Maria Pia e da morgue. Diariamente assisti ao vai e vem de carros militares que, deixando um rasto de sangue, arremessavam os mortos (?) para um lado e os feridos (muitos deles feridos graves) para outro. Ali, naquele espaço, não havia guerra. Ali, naquele espaço, os 3 movimentos, ditos de libertação, não se combatiam, Ali, naquele espaço, as tréguas traduziam-se naqueles corpos inertes que se acumulavam debaixo do sol quente, decompondo-se sem ninguém para os reclamar, enterrar e chorar a sua morte. Ali, naquele espaço, os feridos e graves, crianças (tantas crianças), mulheres e homens eram largados à porta de um hospital já quase

sem meios humanos e materiais para serem tratados. Ali vivi a guerra para além do som dos morteiros, das rajadas de metralhadora, dos canhões. Ali vi a desumanidade de quem quer ganhar o poder a todo o custo.

Depois a vinda para Lisboa. Antes de o avião descolar já sentia um nó de saudades de uma terra que foi minha durante 19 anos. Uma terra de sol, de chuvadas que apaziguavam o calor, de vida simples, da praia com o seu mar infinito onde as ondas enroladas em espuma branca me traziam para terra. Que saudades. Tanta saudade.

Aeroporto de Lisboa em 2 de Novembro, um Outono que, para mim, quando saí do avião se tornou num pesadelo invernoso.

Meu pai, que tinha profissão liberal, teve dificuldades para a reiniciar numa cidade como Lisboa onde era mais um desconhecido e ainda por cima “retornado”.

Entreguei a papelada na faculdade de Medicina e continuei o curso já no 2º ano.

Não foi fácil, nada fácil, nem para mim nem para muitos colegas também

“Retornados”.

Vivemos de um subsídio do IARN e da minha bolsa de estudo até o meu pai conseguir, ao fim de quase 3 anos, iniciar uns trabalhos.

Conseguimos alugar um apartamento mais barato em Cascais, pois após o 25 de Abril de 1974 era onde havia. Devido a isso, andava cerca de 2h e 30m duas vezes ao dia a pé e em transportes públicos. Saía de casa às 6h e 30 da amanhã para chegar ao hospital de Stª Maria 10m antes das 9h.

Estranhei, claro que estranhei! Só trazia no bolso 20 escudos para a cantina e o passe.

Estranhei, claro que estranhei! A comida da cantina era um vomitório mas a fome obrigava-me a comer e a habituar-me a ela.

Estranhei, claro que estranhei! As RGA’s em vez de aulas! Eu estava ali para estudar. Para tirar o curso que tanto queria, Estava ali para aprender, para ser o que sempre quis ser, médica. As RGA’s ocupavam os tempos das aulas. Eu não tinha dinheiro e por isso não podia ter o luxo de reprovar.

Estranhei, caro que estranhei.

Hoje, passados tantos anos de ter deixado Angola, ainda estranho. Sou médica, adoro a minha profissão, vivo no Norte de Portugal, tenho família em Lisboa, sou portuguesa mas com a minha alma em Angola.”