[organização] Acabaram as Aulas! E Agora??

Faça soar o alarme!

Este tom alarmista do título é propositado. Nas casas desse Portugal fora, o sentimento de pânico, cansaço por antecipação e ar sustido é comum a muitos pais que se vêm a braços com uma ou mais crianças em casa e a ter de congeminar um plano para a coisa dar mais ou menos certo.

Isto porque, embora para as nossas crianças as férias comecem mais ou menos em meados ou finais de Junho, para a grande maioria dos pais com direito a pouco mais de 22 dias de férias por ano, não é o caso. Claro que para poder dar um responso às várias questões que se colocam com este cenário pré-apocalíptico, terei obviamente que deixar aqui uma pequena ressalva e de pedir ajuda ao público que me lê desse lado aí da fibra óptica: feedback.

No meu caso específico devido à natureza flexível do meu trabalho (leia-se, a inevitável falta de clientes que por vezes ocorre nestas alturas), acabo por ser uma daquelas poucas pessoas privilegiadas que até tem tempo para ficar com a miudagem em casa.


Daí a minha iminente insanidade mental em contagem decrescente. 


Mas não é de mim que o artigo deve falar, mas sim de vocês e para isso tenho que fazer um exercício que é prerrogativa da minha profissão: colocar-me nos “sapatos” dos outros. Até porque quando organizo a casa de um cliente tenho de lhe apresentar soluções que o sirvam a ele e não a mim.

E como é que vamos fazer isto, desta vez? Listas, de novo? Não senhora. Estou farta de listas. Ultimamente os meus artigos tem levado com listas em cima e quero mudar um pouco o paradigma. Vamos fazer isto com perguntas. Vossas. Bem, que imagino como vossas. A ver se a coisa corre bem. Senão já sabem: feedback. Resmas de feedback. Só assim se aprende e só assim melhoro. O que é bom. Para mim e para vocês, meus leitores.

Vamos a isso.

Ah e tal, as aulas estão quase a acabar e não sei o que fazer com a miudagem…

Hoje em dia existem muitas e boas actividades por aí para ocupar os nossos (ar)rebentos, dos mais novos aos mais crescidos, sobretudo em Julho. No entanto e antes de escolher uma boa actividade para a sua progénie, coloque-se as seguintes questões importantes:

  • É seguro?
  • Ele gosta?
  • Que tipo de actividades tem? São adequadas à idade e personalidade?
  • Há uma pausa de descanso?
  • Servem almoços ou lanches? Que tipo de comidas?
  • Que horários? Coadunam-se com os seus?
  • Fazem sestas (para miúdos mais pequenos)?
  • Tempo de televisão/jogos de consola?
  • Relação qualidade/preço/orçamento?

Perca algum tempo a ver as opções existentes no mercado, as modalidades e os preços. Vá visitar as instalações do local com o seu filho e tente sondar o que ele quer e como se sente.

É essencial deixar também algum tempo livre, não programado, para deixar espaço à brincadeira criativa e saudável. Por criativa não quero dizer pintar as paredes da sala lá de casa ou atapetar o chão de roupa.

Já sei! Vou deixar o meu filho com a minha mãe durante o mês de Julho. Sim ou Não?

Sim e Não. Qual é o miúdo que não gosta de ficar em casa dos avós, esse reino em que as regras são meras sombras nas paredes da Caverna de Platão? Mas antes de considerar abdicar de todo e qualquer poder sobre os níveis de açúcar do seu filho, considere o seguinte:

  • em casa dos avós, com toda a probabilidade, não tem oportunidade de brincar com outros miúdos, a não ser que a sua mãe tenha aberto um ATL clandestino (e também uma produção de marijuana à parte, na “estufa” de que ela há uns tempos lhe falou);
  • a sua mãe poderá ter trabalho/actividades que não permita estar com o seu filho a tempo inteiro;
  • os seus pais já perderam metade da sanidade mental consigo quando foram pais;
  • em casa dos avós não há lugar para as actividades que o mercado tem para oferecer;
  • ficar em casa dos avós pode destabilizar as rotinas já estabelecidas em casa.

Pois, falar é fácil mas não tenho orçamento para actividades e a minha mãe até está livre!

Se efectivamente não existe opção, deverá tomar alguns cuidados essenciais para que tudo possa correr bem:

  • assente regras: não muitas, mas claras e simples de seguir;
  • dê espaço a algum fechar de olhos: afinal de contas está com a avó e essa relação especial tem que forçosamente ser diferente da que tem consigo;
  • combine horas com a sua mãe e sonde se ela se sente à vontade: se perceber que há algum desconforto, averigue, pergunte, ponha a claro;
  • considere pedir ajuda adicional a uma vizinha, uma amiga ou até uma filha adolescente de um dos seus amigos que possa despender do seu tempo para dar uma ajuda (paga ou não);
  • combine almoços, lanches e, se for necessário, jantares: traga alguma feita de casa para facilitar;
  • se for caso disso, deixe alguns jogos, brinquedos preferidos do seu filho e até sugestões de pequenas actividades caseiras fáceis de fazer e de limpar.

Então mas vou ter que fazer tudo aqui cá em casa??

Calma. Primeiro de tudo, respire fundo. Conte até 10. Agora vá buscar uma mini e já falamos, combinado?

Ok, já está melhor? Sim, é verdade: a perspectiva de ter miudagem em casa e ter de chegar ao final de um dia de trabalho para a confusão pantagruélica em que a sua casa se transformou entretanto pode não ser algo de propriamente almejável. Daquelas coisas que nos fazem pensar antecipadamente nos saldos da ryanair, de preferência para ilhotes perdidos no meio do Pacífico. E com um excelente serviço de cocktails na praia.

Calma. Tudo se consegue. Por esta altura poderá já ter inculcado nos seus filhos o paradigma de se ajudar em família, o valor de uma comunidade e da entre-ajuda etc. Não? Então esta é uma boa altura para começar!

Então que faço? Existe alguma fórmula mágica?

Comece por ter um bom gestor de tarefas: basta escolher as tarefas, fazer uns discos com dois lados, escrevendo a tarefa de um lado e “Feito!” do outro, arranjar uma cartolina grande ou um painel de esferovite com os nomes deles por cima e colocar as rodelas por baixo em ordem cronológica – quando a tarefa ficar feita bastará virar para o lado correspondente.


As tarefas devem ser simples e fáceis, pelo menos de início, podendo aumentar de dificuldade pouco a pouco, dependendo de criança para criança.


Tenha em conta também a adolescência, aquela idade em que tudo parece pesar 100 vezes mais, em que a vida deles é uma seca, em que os pais obrigam a tudo e é uma tragédia contínua. Já por lá passámos todos. Arranje assim umas boas toneladas extra de paciência, mas nunca perca o foco nem a firmeza.

Depois, perca algum tempo a treinar essas tarefas com eles: seja gentil mas perseverante, insistente mas calma. Se houver vacilações e crises de preguicite aguda, relembre-lhes que a ajuda deles é importante para o bom funcionamento da casa. E dizer este tipo de frases não ajuda em nada:

“Então mas sou eu a fazer tudo, é isso?”

“Vocês não ajudam em nada!”

“Porquê eu?”

“Vou precisar de terapia depois disto tudo!”

Eu sei. Já as experimentei todas. Por outro lado, frases deste género tendem a produzir melhores resultados:

“Nós somos uma comunidade, tal como a escola. Vocês ajudam na escola, não é?”

“Se vocês não põem a mesa, porque tenho de fazer o jantar? Somos uma equipa certo?”

Daqui a uns meses irei falar um pouco mais sobre este assunto, incluindo outras técnicas que poderá empregar para facilitar a aprendizagem das tarefas.

Gostava mesmo muito de poder estar com os meus filhos agora que eles estão em casa…

Essa é a grande questão, não é? Pois é. E sabe que mais? Não há grandes respostas para ela. É a questão das questões. A que faz correr rios e rios de tinta por essa internet fora. A gestão de carreira e filharada nunca foi tarefa fácil, para nenhum dos pais, embora ainda pensemos muito no estereótipo da mãe que espero que perca cada vez mais esses contornos. Prefiro pensar que ambos os pais têm este dilema em cada família, tenha ela os elementos que tiver.

O único conselho que tenho para dar é o seguinte: concentre-se na tarefa importante que tem perante si, o seu trabalho é essencial, constitui o ganha-pão da sua família e é também uma parte de si. No entanto, sempre que chegar a casa retire esse chapéu. Deixe tudo o resto para trás, deite-se no chão com o seu filho, brinque com os legos, pinte a manta (talvez não literalmente…).


Se no trabalho tem de se estar concentrado e coisas como facebook e youtube lhe são interditas, porque é que quando chega a casa deixa de haver essa interdição na presença dos filhos?


Gosto de ver o nosso dia-a-dia como se tivéssemos quatro expedientes: o do nosso trabalho, o dos filhos, o da nossa vida amorosa e aquele que é só nosso. Em cada expediente dedique-se a cem por cento e deixe os outros para a altura designada. Sei que não é fácil: o telefone toca fora de horas, chega-nos mais um e-mail de trabalho e por vezes a nossa cabeça divaga à procura de distrações e vemo-nos sugados pelo vórtex da zona negra do youtube (quem é que ainda não esteve lá?). Aquela em que vemos videos como este.

Eu não posso imaginar como será o seu dia-a-dia. Mas posso dizer que a melhor coisa a fazer é trabalhar com o que se tem. Se consegue limitar as respostas ao telefone, limite. Peça ao seu parceiro/parceira para o trazer à razão quando começa a fazer zapping a mais em loop no facebook e se distancia do resto da família.

E sobretudo lembre-se do que nos disse aí há uns tempos largos Benjamin Franklin:

“Do not squander time, for that is the stuff life is made of.”

Artigo por Rita Accarpio

Mãe de 3, esposa, portuguesa, italiana, apanhadora de cogumelos, organizada, organizadora, empreendedora, linguista, fanática de chocolate, viciada em pastelaria, ultra-nerd. Não, não é o voto de casamento da Guerra dos Tronos. Sou eu. Venham saber onde acaba esta apresentação: www.organiguru.com.

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