[testemunho] Rita e João – o sal da gratidão

Existe um conhecimento instintivo dentro de cada um de nós, que reconhece que ser grato, ter gratidão, nos torna mais felizes.

Apreciar o que temos, sem pressão de criar mais ou ser mais de forma constante. Escrevendo no nosso pequeno diário, os momentos pelos quais estamos gratos.

Robert A. Emmons na sua pesquisa, chegou à conclusão que a gratidão aumenta a felicidade e reduz a possibilidade de depressão.

Então porque é que muitas vezes, nos sentimos infelizes, apesar de sabermos que apreciar o que temos nos eleva a mente e o nosso bem-estar?

(Fiquem com a história da Rita e do João)

O meu percurso académico levou-me ao curso de Direito, na UCP. O meu objetivo era ser advogada, trabalhar na área de contencioso administrativo, ter uma casa, um carro, casar, ter filhos, ir para a reforma e morrer, com alguma sorte, pacificamente.

Contudo, conheci o João, e percebi que tanto ele como eu, tínhamos a noção que éramos privilegiados, mas não éramos felizes. Faltava sempre algo. Havia sempre uma sensação de vazio, que necessitava de ser preenchido. A necessidade do mais, e mais e mais…

A expressão artistica faltava na minha vida, e quando reconheci que precisava de expressar esse lado de mim, a maquilhagem surgiu. E tornei-me maquilhadora, até chegar ao cargo de Maquilhadora Oficial Portugal da The Body Shop. Devem estar a imaginar a conversa com os meus pais a dizer: É verdade, tudo o que andei a estudar estes anos em Direito, vai agora pelo cano abaixo porque na verdade quero ser feliz e ser maquilhadora é o que me parece que vai trazer essa felicidade. Passei de uma área extremamente teórica para uma área criativa, e mesmo assim, mesmo sabendo que devia apreciar o que tinha, o vazio que sentia não estava preenchido.

Num momento de impulso, mudei para Londres. E com a confiança de quem tinha atingido um bom cargo na área de makeup, achei que ia brilhar, acreditava nisso. Pensamento positivo, não é verdade?

Tudo desabou. O dinheiro que tinha poupado foi-se esgotando, e passados uns meses seria Natal. Na noite de consoada. Lembro-me de não ter 50pp para comprar açucar para colocar nas rabanadas. Lembro-me de andar a pé durante uma hora para chegar a um trabalho que detestava, em pleno Janeiro, porque não tinha dinheiro para o bilhete de autocarro. Lembro-me de acordar às 4.30am para distribuir jornais. Lembro-me de chorar e olhar para mim mesma dizendo: “Perdi tudo.”

O facto de ter batido no chamado fundo do poço, fez algo de extraordinário. Saí das nuvens onde vivia, e comecei a ficar grata por tudo. Por tudo mesmo. Por ter açúcar na mesa, por ter dinheiro para o autocarro, por ter um tecto para dormir, por ter saúde para continuar. Algo mais aconteceu instintivamente quando as coisas começaram a correr melhor. Passei a dormir no chão, apesar de ter uma cama, a cozinhar para mim e para os meus vizinhos sem pedir nada em troca, a sorrir na face da adversidade, a fazer mais e mais voluntariado e a criar mais empatia.

O ter muito pouco, tendo em conta que tinha tanto, foi a chave de entrada para o mundo que criei à minha volta. Com esse pensamento montei uma empresa, a AvanHeart, de cosmetica vegan, em que as decisões tomadas são sempre feitas com gratidão. A gratidão é o sal das minhas decisões profissionais. Quando preciso de investir, agradeço por tudo o que tenho, e isso faz com que consiga desligar-me do materialismo imposto pela sociedade capitalista. Consigo viver com o essencial, por isso consigo dar mais ao produto, ao cliente, aos valores da empresa. Nunca há o pensamento de lucro apenas para ter lucro, mas o lucro realizar um projeto que me permitirá ter mais gratidão pelos outros, pelo mundo ao meu redor.

 

 

Aquilo que a Rita descreveu, foi o que também vivi. De privilégio, a passar necessidades, dificuldades, por vezes as mais básicas.

A minha infância e adolescência foram sem dúvida, felizes, e com tudo a que tinha direito. Fui também para a UCP estudar Economia e foi aí que conheci a Rita.

Juntos, apercebemo-nos que o caminho para a felicidade residia em explorar a gratidão em diversos sentidos. Para além do pessoal, para o caminho profissional.

Em Londres, a casa onde estavamos ia ser demolida, por isso tivemos de tomar uma decisão. Ou continuar noutra casa, ou realizarmos o sonho de viver full time numa carrinha.

Inicialmente estava com medo, com receio de não conseguir comprá-la, de não conseguir convertê-la, de não conseguir de lidar com os perigos de viver, na estrada. Mas agradeci a possibilidade que me estava a ser dada. Perder uma casa mas ganhar uma nova vida na estrada. Uma vida que me possibilitaria viajar, e fotografar novos locais, novas paisagens, novas vidas.

E assim o fizemos. Começamos a viajar pelo UK, e a ter experiências fantásticas.

Com isso, começamos um projecto, Speak Your Heart, para retratar mulheres refugiadas e mulheres europeias, e revelar o que as faz sentir empowered. Com este trabalho voluntário esperamos conseguir criar empatia entre os europeus, para que possam abraçar ainda mais a causa dos refugiados.

Para realizar este projecto e avançarmos em pleno tivemos em consideração estes pontos, que pesamos sempre com gratidão.

 

  • Am I gratefull for what I have everyday, and walking towards that? Estou agradecido pelo que tenho todos os dias, e caminhando nessa direcção?

 

  • How can I show my gratitude towards others? Como posso mostrar a minha gratidão aos outros?

 

  • Am I being kind to myself? Estou a respeitar-me a mim próprio?

 

  • What will make me feel more grateful about this project? O que me vai fazer sentir mais agradecido por este projecto?

 

Este é o resultado de tomar uma decisão com gratidão. Fazer mais por nós e pelos outros.

Também a nível pessoal, conto um evento em que consegui expressar a minha gratidão. Apanhamos o avião do Porto para Londres, mas com um atraso chegamos demasiado tarde para passar a noite na nossa carrinha, que estava num parque que fecharia ás 10h da noite.

Pedimos a uns colegas nossas nossos para ficar em casa deles, mas por motivos de logística não foi possível. Passamos a noite na rua, a dormir juntos, encostados a uma parede. Esse momento, que inicialmente parecia doloroso, tornou-se num momento que recordo com gratidão. Recordo que este momento me fez ainda dar mais valor ao facto de ter uma carrinha para viver, e que apesar de estar feliz a viver um dos meus sonhos, isso não significaria que não passaria por momentos de sofrimento. E com isso sinto muita gratidão por esse momento, por me mostrar que a vida é também feita destes momentos, e que a pratica que tenho feito de gratidão me ajuda a lidar com eles com alegria.

 

E aqui respondo à pergunta que a Rita fez inicialmente: porque somos infelizes apesar de sabermos que sendo gratos, chegamos a um maior estado de felicidade? Qual a receita? Dispam-se de tudo material que tenham medo de perder. Durmam no chão do vosso quarto, livrem-se da comida extra que têm em casa e ofereçam a quem precisa, usem apenas roupa dada por alguém, livrem-se da casa e vivam numa carrinha, façam voluntariado. E em todas as decisões que tomem apliquem o sal da vida: a gratidão.


Obrigada à Rita e ao João pelo seu testemunho. Este texto foi retirado da TEDTalk que ambos fizeram no TEDxGuimarães.

 

Artigo por Bea

Mulher, mãe de dois rapazes, apaixonada por flamingos e completamente chocoholic. Adora ler, dançar, comer e experimentar coisas novas.

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