[organização] Compras com Crianças? Claro que Sim!

Compras em 3… 2… 1…

Já alguma vez experimentou fazer compras com os seus pequenos dividendos do quociente familiar (uma outra forma de dizer filhos)?

Neste momento com 3 filhos de 12, 10 e 8 anos no meu portfolio de mãe posso dizer que já tenho praticamente a pós-graduação de compras com miudagem, desde a idade em que nos atiram de tudo para dentro do carrinho, levando quem se encontra à nossa volta a questionar-se se entrámos em guerra com algum país vizinho, até à idade fabulosa em que exercitam com assiduidade a prática milenar do rodar dos olhos, sobretudo quando a mãe diz alguma coisa de terrivelmente anacrónico e não fashion.

Sim, ir às compras com crianças é sempre um grande desafio, mas também pode ser uma oportunidade, tudo depende do ponto de vista. Pode ser oportunidade para colocar-se questões pertinentes tais como “Em que estado mental me encontrava eu quando decidi ter filhos?” ou a minha favorita: “Ahn?”.

Ou então pode ser uma verdadeira experiência de descoberta para ambos os lados, por vários motivos:

  • vai treinar a capacidade de autonomia e de resolução de problemas dos seus filhos;
  • vai criar vínculo entre pais e filhos;
  • vai dar-lhes ensinamentos sobre gestão de orçamento familiar.

Daí que, desta feita, lembrei-me de escrever sobre esta temática interessante porque faz parte do nosso dia-a-dia, não é verdade? E não há nada de transmita maior catarse do que nós sabermo-nos não sozinhos, ou seja, de constatarmos que há mais pessoas por aí que passam por isto e que vivem para contar a sua história.

Estabeleça Regras

Sei que esta não é talvez tão adequada para miudagem muito pequenina, mas também tenho a crer que há uma idade mais problemática em comparação e que nos apresenta um maior desafio: é a idade em que a) começam a andar b) começam a falar c) começam a querer coisas.

E sim, sei que as nossas pequenas anãs brancas (que é uma forma bonita de dizer estrelas) de poucos meses são um verdadeiro desafio, mas hoje venho propor algumas sugestões para uma faixa etária um pouco maiorzinha, sabendo de antemão que estou a visar um só grupo específico e as limitações que isso representa (ficando a temática das compras com os mais pequeninos para uma próxima vez).

Portanto regras. Deve ser o seu mantra. No carro, antes de abrir as portas. De novo, à entrada do centro comercial. Outra vez ao passar o limiar do supermercado. Se isso lhe parecer aborrecido e frustrante para os seus filhos, tiro-lhe já a dúvida: claro que é! Extremamente aborrecido. Extremamente frustrante. Ninguém, nem mesmo nós, acha grande graça às regras, mas sabemos à partida que elas existem para um fim específico. E quando nos apercebemos nós disso? Com os nossos pais, quando nos fizeram passar pela mesma “frustração”.

Portanto não devemos, nem devíamos querer privar os nossos filhos dessa lição tão importante: em sociedade existem regras que nos permitem viver em harmonia, regras essas que são imperativas e que devem ser cumpridas para o bem comum.

Uma ida ao supermercado, como qualquer local público, é um excelente local para pôr em prática esses conhecimentos. Quanto a que regras estipular, isso é algo que toca a cada pai. No que a mim diz respeito costumo usar as seguintes:

  • Não pedinchar;
  • Obedecer sempre;
  • Não ficar para trás e não se separar dos outros (é falta de consideração para o resto do grupo);
  • Ajudar quando é preciso: afinal de contas, o próprio acto de fazer compras é um acto altruísta, em prol da família.

Recompensas? Sim ou não?

Vemo-nos chegados à questão das recompensas. Até porque obrigámos a nossa miudagem a fazer algo de que não gostam nada, tadinhos. E nós, pais, adoramos as compras, não é? Segundo esse paradigma, enchia já o meu carrinho de duas coisas: cerveja e chocolate 85%.

Não. Na verdade, ao recompensarmos algo que deveria ser, à partida, parte do comportamento social e natural em família, não deveria haver lugar para recompensas (pelo menos no meu humilde entendimento). Porque deixa de ser novidade. Porque constitui uma prenda e esta deixa de perder o significado de que se reveste na altura das festas. Deixa de ser especial.

Pouco a pouco, não só perde a importância de recompensa para passar a ser algo de cobrado e de expectável. Não caia nessa ratoeira. E nem sequer podemos dizer que a culpa é deles. Nada disso. Se alguém me trouxer uma barra de chocolate todos os dias, adivinhem o que vou passar a exigir todos os dias? Ah pois é…

E agora esqueçam o que eu disse. Sabem que mais? De vez em quando dou uma recompensa. “Quando?” dizem vocês. Naquelas situações muito especiais em que eles estão particularmente cansados, deram mesmo o seu melhor, tiveram um comportamento e atitude de excepção e porque se trata disso mesmo: uma excepção.

A recepção não podia ser das melhores: de tão raro que é torna-se um momento único em que eles nem conseguem acreditar nos seus olhos. E isso não só lhes traz verdadeiro reconhecimento como os incentiva a longo prazo e ajuda a reforçar a nossa relação. Não o objecto em si, mas o acto de dar. E muitas vezes não precisa de ser algo físico, pode ser até uma actividade, uma oportunidade de fazer algo que não tinham feito antes. Até uma ida simples ao parque.

Dê-lhes oportunidade de descobrir

O que não quer dizer que não o faça com a vigilância necessária. Dê-lhes uma missão: ir buscar o arroz, aquela marca que costumamos levar. Ou um pacote de sumo. Ou o sabão azul (e já agora explique-lhes o que é).

Isso treina a capacidade deles de discernir um método, um percurso e de activar o instinto de caçador-recolector e a capacidade de resolução de problemas. Tudo coisas muito boas, por sinal. Lembre-se de acompanhar o pedido com regras simples, claras e específicas, senão acaba com quantidades a mais do mesmo produto e marcas todas xpto e coloridas, daquelas que precisa praticamente que arrendar uma parte da casa para as comprar.


Outra ideia engraçada, para miúdos mais velhos: mostre-lhes os preços das coisas, indique-lhes o orçamento que tem para as compras e façam juntos os cálculos necessários. Deixe-os escolher entre uma marca e a outra e mostre-lhes a diferença de preço, mesmo a sua proporção entre o kg, a unidade e preço unitário.


Vá com eles para a parte das frutas e legumes e deixe-os explorar consigo os nomes, as cores, os cheiros e as formas. E ponha alguns limites: explorar não quer dizer necessariamente comer.

“Mas quem é que tem tempo para essas coisas? Eu faço sempre compras à pressa!” Sim, é verdade que nem sempre temos tempo para aproveitarmos uma ida ao super para estas sendas de explorador. Normalmente, a nossa velocidade predefinida é mesmo “turbo” e até não há tempo para esse luxo de outros tempos que é ir a uma casa de banho. Sozinha. Claro que entendo.

Isto não tem que acontecer sempre. Mas naquela ocasião em que por acaso até tem alguns minutinhos a mais ou as compras não são muitas, deixe cerca de 10 minutos para estas descobertas. Cronometre se for preciso.

Comer antes de ir

Se não quer ver o supermercado ser invadido por uma horda de visigodos esfomeados a atacar tudo quanto é prateleira, se calhar é melhor dar-lhes de comer antes de ir. E o mesmo se aplica a si. Não há nada pior do que ir fazer compras sem comer. Tenho a certeza que quem me lê já experienciou em primeira mão esse fenómeno pelo menos uma vez.

É algo de alucinante. De repente, assumimos a nossa vertente Hulk (“Hulk quer COMER!”) e andamos desenfreados pelo super fora a encher o carrinho de toda uma panóplia de comestíveis que dariam para alimentar todo o regimento suíço. Agora imagine os seus filhos a passar pelo mesmo. Como podemos depois pedir-lhes que não pedinchem nada se eles estiverem com fome? Impossível.

Por esse motivo, convém sempre evitar ir às compras de barriga vazia. Se já saíram de casa/escola/trabalho e não tiveram tempo de comer, faça uma pausa, pare no café e façam um lanchinho rápido. Em alternativa, tenha sempre no carro alguns snacks para satisfazer aquelas fomes inexplicáveis que os miúdos costumam ter (“Mas tu comeste ainda há bocado!”). Já era tempo da ciência se ocupar de explicar este fenómeno.

Se já estão no super e não têm mesmo tempo, uma última dica expresso: pegue num pacote de bolachas, abra e dê-lhes. Faça o mesmo com dois ou três pacotes de sumo. Vai pagar no fim não vai? Então, não há problema. Problema simples, solução simples, certo?

Finalmente, lembre-se também das sábias palavras de Mary Poppins:

In every job that must be done, there is an element of fun!”

O que não implica atirar livros às fuças uns dos outros, a ver se a magia funciona. Não convém.

Artigo por Rita Accarpio

Mãe de 3, esposa, portuguesa, italiana, apanhadora de cogumelos, organizada, organizadora, empreendedora, linguista, fanática de chocolate, viciada em pastelaria, ultra-nerd. Não, não é o voto de casamento da Guerra dos Tronos. Sou eu. Venham saber onde acaba esta apresentação: www.organiguru.com.

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