[gastronomia] Wine Summit Cascais 2017 – Must fermenting ideas

Caros leitores,

Esta é a primeira vez que vos endereço algumas palavras, depressa repararão que pouco ou nada se extrai da minha conversa fiada. Se me permitem prever o futuro, chegarão ao fim deste texto exauridos de me ouvir.

Numa altura em que a tecnologia e a formação desencadeiam uma competitividade crescente a um ritmo alucinante, Portugal, país tradicionalmente produtor do néctar dos deuses, luta de igual para igual entre os melhores para se manter na vanguarda da expressão qualitativa. Neste seguimento, surge então, no rescaldo de “duas garrafas de vinho” entre Rui Falcão e Paulo Salvador, o esboço para um ciclo de conferências integrado por speakers de renome internacional.

De olhos postos no objectivo de criar um programa que englobasse tendências, oportunidades, desafios e necessidades que compreendem o sector dos vinhos, as barreiras foram sendo ultrapassadas e um ano depois, a iniciativa do wine summit teve início.

O primeiro dia encontrou-se marcado pela controvérsia que os vinhos naturais representam no planeta da enologia. Mas afinal o que é um vinho natural? Uma tendência? Uma filosofia? Segundo Alice Feiring, autora e jornalista da The Feiring Line newsletter, é todo o vinho que provenha de uma agricultura orgânica, mesmo que não certificada, ao qual nada pode ser retirado e nada pode ser adicionado. Apesar de ser um nicho de mercado, representa um conceito envolto em debate por dois lados extremistas: a superioridade moral de quem os defende e, por outro, a ofensa que o próprio nome acarreta. Serão os outros vinhos artificiais?!

Ao segundo dia, chegam os millennials, uma nova geração (pessoas nascidas a partir da década de 1980 e o início dos anos 2000) que nasceu com as mãos afastadas da terra. Surge a discussão de como motivar e lidar com os millennials, como comunicar a uma geração cada vez mais preocupada com a saúde e bem-estar que o vinho se deve encontrar na rota de todas as cozinhas. E, se por um lado se trata de ser uma geração que vai gastar menos ao comprar uma garrafa de vinho (motivada por toda a conjectura económica actual), continua a procurar nesta bebida a mesma classe que as gerações anteriores.

Os anos vão passando e a China continua a ganhar terreno enquanto produtora de vinho, é já a sexta a nível mundial. A continuar assim, é impossível prever onde estabelecerão a sua meta. A percepção e relação dos chineses com o vinho tem vindo a sofrer alterações significativas. Outrora adicionavam frequentemente gelo ou coca-cola ao vinho, hoje em dia encontram-se familiarizados com a adstringência e a acidez que caracteriza esta bebida. O mercado chinês está, deste modo, a emergir, sobretudo no vinho tinto (com um consumo de mais de 80%) com a casta cabernet sauvignon a liderar a concorrência. O wine Summit Must – Fermenting Ideas despediu-se assim, com os olhos postos no futuro repleto de curiosidade no mercado chinês depois de três dias recheados de palestras protagonizadas pelas mais ilustres figuras internacionais deste sector.

Apenas guardei em mim a tristeza de ver um tema ser esquecido na gaveta. Sendo que a tendência, no panorama actual dos vinhos, é de rumar em direcção a sentir e pensar o vinho da uva ao copo o que, obviamente, se traduz numa aproximação entre viticultores e enólogos, pareceu-me redutor deixar a terra de fora da equação. Espero que na próxima edição esta área seja integrada no programa.

 

Sem esquecer a consciência social, houve ainda tempo para a Make-A-Wish, licitar (ao longo dos três dias de congresso) diversas garrafas de vinho cujo valor remetia integralmente para a realização de desejos a crianças entre os 3 e 18 anos que têm ou tiveram doenças progressivas, degenerativas ou malignas de forma a proporcionar a estas crianças momentos de alegria e esperança. Na foto a embaixadora Paula Lobo Antunes a dar início ao leilão.

Tenho ligeira sensação de que, por este andar, os meus leitores já começam a bocejar. Vamos lá ao que interessa: após o término diário do programa oficial do evento, os participantes foram convidados a experienciar um Winesunset by the Sea no Forte da Cruz.

Aproveito para relatar alguns dos vinhos deslumbrantes que por lá apareceram.

Quinta do Gradil Tannat 2014

Vinho para ser consumido pelos mais duros, é daqueles casos em que se adora ou odeia. Mono varietal Tannat, de nariz pouco expressivo é em boca que exibe todo o seu esplendor, com notas de fruta madura, chocolate e algum fumado possui ainda taninos bem com um final de boca persistente e alguma acidez de influência atlântica.

Quinta da Gaivosa 2013

Ainda a evoluir em garrafa, um tinto ao qual se espera com alguma ansiedade um futuro muito promissor. De cor granada escura, possui fruta vermelha e algumas especiarias em nariz. Na boca apresenta notas de ameixa e amora madura e alguns fumados. Possui uma acidez harmonizante e taninos redondos. Sem dúvida, um vinho a revisitar daqui a uns anos.

 

Luís Pato Vinhas Velhas Branco 1991

 

Para um branco com 26 anos tenho a referir que se encontra divinal, vinhas velhas no seu melhor. Muito equilibrado com notas vegetais, mineralidade refrescante e uma excelente acidez.

Nossa Calcário Bical 2015

Fermentado em barrica, é um vinho branco carregado de carácter e expressividade. De perfil florado no nariz e cítrico em boca possui uma frescura mineral muito própria. Sem dúvida um excelente trabalho por parte da Filipa Pato.

 

Barbeito 10 anos Verdelho

Bronze no copo, amêndoas, tâmaras, caramelo e pêssegos na boca. Um excelente indicador do potencial dos vinhos da Madeira. Possui uma acidez que lhe confere frescura e o deixa bastante sedutor.

 

Para quem aguentou até ao final, assim me despeço.

Da vossa correspondente wine girl,

Artigo por Joana Amaral Pinto

Gastronomia

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