[psicologia] Parentalidade Consciente

Quando se fala ou pesquisa sobre parentalidade, surgem inúmeros resultados sobre estilos parentais, sendo os mais comuns o permissivo, o democrático e o autoritário – podem variar as nomenclaturas, mas a caracterização costuma ser dentro desta trilogia.

Não obstante, se observarmos, na prática, o dia-a-dia dos pais, eles certamente reconhecerão que não têm um estilo definido e oscilam no seu estilo parental consoante as situações, contextos e emoções. Porquê? Porque a parentalidade é uma função que não requer experiência prévia na área, nem habilitações académicas que certifiquem os pais a saber sê-lo, de acordo com um determinado molde pré-definido de “pais perfeitos – filhos perfeitos”.

Parentalidade-em-piloto-automático

E eis que muitos casais se deparam no papel de pais. Depois de experienciarem a(s) dura(s) tarefa(s) de o serem, percebem que só é possível desempenharem a parentalidade através da constante tentativa e erro. Pois é mesmo assim e não existe fórmula mágica. Mas requer consistência e congruência.

É muito habitual os pais ditarem regras e orientações, consoante o contexto (comunidade) em que se inserem, e o maior agente influenciador é, geralmente, a sociedade. É em função desta que muitos pais educam os seus filhos, algumas vezes sem se aperceberem dessa influência. Os exemplos são muitos e estão impregnados de julgamento:

  • “Não comas com as mãos, parece mal!”;
  • “Ri-te baixo que está toda a gente a olhar para ti!”;
  • “Por amor da santa, pára de chorar em pleno supermercado, olha que vergonha!”;
  • “Estás a perturbar todo o Centro Comercial com essa birra!”
  • “Oh filha, isso não se diz à senhora!”
  • “Filho, então o senhor quer te dar um beijinho, e tu não dás?”

E o pior de todos – quando a sociedade se intromete na relação de pais e filhos, através da verbalização de julgamentos e sem conhecimento de causa:

  • “Aaah, pai, não o deixe fazer isso sozinho! Olhe que é perigoso!”
  • “Que menino mau, os teus pais não te dão educação? Está a faltar-te uma palmada.”
  • “Oh pai, vá lá, dê lá o que a criança quer para parar de chorar.”
  • “Vê-se mesmo que é mimo a mais. Oh mãe, assim nunca mais tem mão nele…”

A autora e mentora da parentalidade consciente, Mikaela Övén, no seu curso de certificação de facilitadores de parentalidade consciente, apresenta este quadro:

O convite a analisar este quadro, permite-nos a reflexão e a tomada de consciência: em que campo estamos a influenciar as nossas crianças e em que campo queremos ter essa influência. Enquanto educadores que somos, queremos educar tendo em conta a nossa individualidade, ou tendo em conta o que a sociedade espera de nós?

Aceitem uma sugestão:

Párem e escutem-se!

Um momento a sós: reflectir ou meditar sobre as intenções

Permitam-se reflectir, ou meditar, alguns minutos só vossos, em silêncio, para se calibrarem com o vosso corpo e a vossa mente.

Reconheçam o que vos despoleta emoções agradáveis e desagradáveis (ambas úteis!). Procurem encontrar quais as vossas necessidades, os vossos valores e os vossos verdadeiros limites pessoais, sem se sentirem pressionados pelo que é socialmente correcto ou esperado. Se não nos conhecermos bem, seremos um joguete da sociedade. E o nosso modelo influencia os nossos filhos.

Nesse momento de reflexão só vosso, o grande propósito é o de procurem definir as vossas intenções como pais. “Intenção” é uma vontade que admitimos como um projecto pessoal (intento, propósito, tenção ou desígnio) – neste caso, na nossa parentalidade. Por isso, questionem-se. Por exemplo:

  • Quais as minhas intenções como pai / mãe / educador?
  • Que tipo de pai / mãe /educador quero ser?
  • Que ambiente familiar / educativo quero fomentar?
  • Que capacidades gostaria de ter, enquanto pai / mãe / educador?
  • Que capacidades gostaria que o meu filho tivesse ou desenvolvesse? Estou a dar-lhe esse exemplo?
  • Que imagem gostaria que o meu filho(a) tivesse de mim?
  • E, de forma consciente, questionem-se: o meu comportamento está alinhado com as minhas intenções?

Tal como Övén (2016) refere, estamos constantemente a influenciar os nossos filhos. Quanto mais consciente e intencional for essa influência, melhor. O ideal é modelar pelo exemplo!

A Parentalidade Consciente

Em medicina, “consciência” designa o estado do sistema nervoso central que permite pensar, observar e interagir com o mundo exterior. Na parentalidade, o conceito “consciente” sugere darmo-nos (a nós mesmos, passo o pleonasmo) a oportunidade  para usar todos os nossos sentidos, para realmente integrar no nosso interior o que é genuinamente importante para nós – e mais uma vez, deixando de lado a pressão e os julgamentos da sociedade (vizinhos, amigos, família alargada, etc.!).

Para muitos pais, o mais importante para si são questões relacionadas com os seus filhos. Em particular os momentos de tensão, em que as crianças parecem não compreender as orientações dos pais e simplesmente, não as cumprem, ou fazem enormes manifestações de discordância (a minha nova denominação para a palavra birras).

Comer a sopa, vestir sozinho, respeitar orientações simples dos pais, são temas sensíveis e tomam muitas vezes proporções de birra e discussões. Sugiro (re)lerem o nosso texto “perceber o cérebro de uma criança” para mudarmos a forma como encaramos as birras das nossas crianças (ah, também aplicável aos adultos!).

Naquela parentalidade a que eu chamo em-piloto-automático, geralmente os pais dão por si centrados no comportamento da criança e questionam-se: “O que é que eu posso fazer para o meu filho mudar de comportamento? Como faço para que ele (comportamento)?”

Na parentalidade consciente, a proposta é observar além do próprio comportamento. Usar todos os meus recursos que me permitam olhar para a criança de forma mais integrada e integral. E a forma como nos questionamos, faz toda a diferença:

“Porque tem o meu filho este comportamento?”

Com esta questão, o foco deixa de ser no comportamento da criança e passa a ser na razão que despoleta o comportamento (raíz da situação). O porquê é a chave para o como! Porque, por detrás de um comportamento, subjaz sempre uma necessidade, que muitas vezes as crianças não sabem como expressar essa necessidade de forma adequada ou perceptível para o adulto.

Por vezes, as necessidades mais importantes para uma criança, são as mais simples: a de querer sentir-se seguro, amado, atendido ou, simplesmente, de ver fortalecida a sua conexão com os pais e/ou educadores.

Ao descodificarmos as necessidades subjacentes, estaremos a focar no bem-estar emocional da criança, ou naquilo que estará a perturbar esse bem-estar (e, muito consequentemente, a interferir na sua auto-estima).

Quando a necessidade da criança é satisfeita, o comportamento também muda.

O maior aliado da parentalidade consciente: a atenção plena

Atenção plena é uma das possíveis traduções da palavra mindfulness, ou seja, “é uma forma de prestar atenção de propósito, no momento presente e sem julgamento perante o que esteja a surgir no seu campo de experiencia” (Jon Kabat-Zinn, apud Ovén, 2016).

Esta prática de atenção plena, permite-nos, como pais, estarmos mais presentes e mais conscientes em todos os momentos da nossa vida e fazê-lo, em particular com os nossos filhos.

Ao nos comprometermos a estar inteiramente presentes (intenção), em cada momento com os nossos filhos, permitimo-nos usufruir desses momentos, tal e qual como são (sem julgamentos nem pressões externas). O que, por sua vez, nos permite estarmos despertos e tomarmos consciência das nossas verdadeiras necessidades e das necessidades dos nossos filhos.

Da próxima vez que os vossos filhos estiverem numa enorme e audível “manifestação de discordância”, em vez de se centrarem em cessar ou mudar o comportamento, perguntem-se: “porquê que o meu filho está a ter este comportamento?”. E usem as competências de um detective para detectar todos os possíveis sinais.

A prática de uma parentalidade consciente, necessita de ser sustentada em valores sólidos. Esse poderá muito bem ser o tema da próxima semana. Entretanto, proponham-se a praticar a atenção plena!

 

Até breve,

 

Joana Madureira


BIBLIOGRAFIA

Övén, M. (2016). Educar com Mindfulness – guia de parentalidade consciente para pais e educadores. Porto: Porto Editora.

Artigo por Joana Madureira

Mulher e Mãe de duas crianças. Psicóloga, Formadora, Consultora de Recursos Humanos e Blogger Mentora da marca registada SCHOLA - Educar para a Felicidade.

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