[sono] Quando o sono se torna luxo e também fonte da discórdia no casal

Maria chega a casa às cinco da tarde e encontra a bebé a dormir no berço e o marido, João, também a dormitar no sofá. Um sentimento de raiva apodera-se dela naquele momento e acorda João aos abanões.

“Mas o que é que estás a fazer?” pergunta indignada, como se a resposta não fosse óbvia. “Porque é que estás a fazer a sesta com a bebé?”

“Não era suposto mas sentei-me e fiquei tão confortável que acho que acabei mesmo por adormecer aqui” consegue retorquir João, estremunhado.

“Eu é que estou a precisar de dormir, João! Fui ao hipermercado e era suposto teres ficado a passar a roupa a ferro e afinal foi este belo serviço.”, respondeu ela, tentando não subir o tom para não acordar a bebé.

“Então dorme tu agora um bocado, Maria…”

Sem lhe dar espaço para terminar a frase, ela diz “Nós não temos tempo para dormir sestas”, enfatizando o “nós” e desbobinando um rol de tarefas por fazer. Aquela veia a meio da testa de Maria tornou-se saliente, o que permitiu a João perceber que ela estava mesmo furiosa com a situação.

Maria e João têm 2 filhos com idades abaixo dos 6 anos (Juliana com 1 e Artur com 5 anos) e, por isso, conseguir dormir 5 horas seguidas acontece com a mesma regularidade de um eclipse total do sol!

A bebé Juliana deita-se cedo e não “acorda com as galinhas”, ela própria acorda as galinhas e toda a gente lá em casa. Às duas da manhã reclama ainda uma dose de leite materno e, por tudo isto e ainda pelos terrores nocturnos, é a pior colega de quarto que o irmão podia ter.

Já Artur precisa de ser bem convencido a dormir, arrastando-se toda uma negociação para conseguir deitar-se sem acordar a irmã. Começam o ritual às nove da noite e os pais só saem do quarto às dez e meia, depois de vários pedidos de água, histórias, conversa, brinquedos, xixi e cocó. De vez em quando, um pesadelo desestabiliza ainda mais as noites.

As crianças podem ser muito estimulantes e divertidas mas também desgastantes e a vida nem sempre permite que os pais possam dormir as sestas com elas, para também descansarem. Ora, isto leva a que o sono seja a origem de tensão e até de inveja no casal.

Para que um dos cônjuges possa dormir umas horas retemperadoras, o outro tem que cuidar das crianças e responsabilizar-se por refeições, limpeza, roupas e manutenção da ordem dentro de casa. Fazer tudo isto imaginando a outra pessoa a dormir descansadamente na cama pode ser uma tortura porque, regra geral, ambos estão com uma bela conta de privação de sono. Por vezes até acham insultuoso que o outro ouse dormir, como aconteceu na situação simulada no início.

É nestas alturas que surge a troca. Umas boas horas de sono convertem-se assim num artigo de luxo, negociado no mercado negro. “Se tomares conta de tudo e me deixares dormir duas horas, logo à noite há festa na cama. Sim, aquele sexo desbragado por que andas a pedir há meses. Tem é que ser em silêncio, já sabes, e se um dos miúdos acordar, vou lá eu sossegá-los, combinado?”.

O problema é que rapidamente estas sestas passam a ser permitidas apenas se houver uma troca envolvida e esgrimem-se argumentos para se perceber quem está mais cansado ou será mais merecedor… Ou pior, discutir o valor de uma hora de sono pode tomar proporções babilónicas, gerar discussões acesas e até acabar por acordar os miúdos, que estavam a dormir!

Também é bastante comum que a mãe assuma o “turno da noite”, o que significa que quando uma das crianças acorda, é sempre ela que lhes oferece o apoio necessário. As razões para isto acontecer variam mas na raiz está muito no instinto materno de que “quem ama, cuida”. Escusado será dizer que rapidamente acusam a acumulação do cansaço: irritabilidade, impaciência, desempenho profissional afectado, etc.

Felizmente, são cada vez mais os homens a reivindicar a participação no turno da noite, a dar o biberão de madrugada (cheio de leite materno ou adaptado), a não querer que o bebé só consiga adormecer com a mãe. Os pais também querem estar presentes e, por isso, também adormecem de cansaço no sofá ou cabeceiam à frente do computador.

Todos os esforços que possam conciliar para coordenar os horários da família inteira valem ouro. Troquem as negociações de horas de sono, por uma reunião semanal na mesa da cozinha com coordenação de horários, distribuição de tarefas e elaboração de ementas, ao mesmo tempo que bebem um chá e comem uma fatia de bolo. Não imaginam as maravilhas que pode fazer no dia-a-dia familiar!

O objectivo é simples: prevenir a privação de sono e não apenas remediar o cansaço acumulado. Descompliquem a vossa vida e centrem-se no que é essencial. No fim da reunião, podem apertar as mãos e dizer: “Foi um prazer fazer negócio consigo!”

Artigo por Verina Fernandes

Consultora de sono infantil. Mãe montessoriana. Adoro os livros clássicos, rebuscados e recheados de figuras de estilo. Gostava de fazer mais caminhadas, de ver mais filmes... e de ler mais livros do que os que consigo. Preciso muito de dormir. E de conversar também.

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