[organização com crianças] 5 dicas de arrumação para espaços de brincar

Não está fácil, pois não? Isto de gerir a nossa casa assemelha-se cada vez mais àquele pequeno momento do primeiro filme da trilogia “The Matrix” em que aparece o gato duas vezes. Como se chamava ele? Ah sim! Déjá vu!

Não lhe parece? A repetição de rotinas de arrumação e a sensação de “voltar a fazer tudo outra vez” é tanta que até o próprio Sísifo foge a sete pés, volta para o seu suplício e abre os braços para apanhar com o pedregulho nas trombas de bom grado. Às vezes é ridiculamente surreal: viramos costas e de repente a nossa casa está de novo virada do avesso como se fosse habitada por poltergeists.

E nada, mas mesmo nada na nossa casa reverbera tão bem essas palavras como o quarto do nosso filho (no meu caso multipliquem por 3). Sabe, aquele espaço da casa do qual já nem se lembra da cor do chão? É esse mesmo! Por muito extenuantes que sejam as nossas tentativas de controlar tudo o que se mexe no nosso covil, é difícil controlar um espaço que apesar de estar debaixo do nosso tecto, não é um espaço comum, muito pelo contrário. É o único espaço privado do seu filho, aquele maravilhoso ser em evolução que é o seu orgulho e projecto de vida, mas que possui em si o potencial destrutivo de Shiva e consegue transformar um inocente quarto de criança num cenário típico do Mad Max (hoje estou com a mania dos filmes…).

Como tal, e se quisermos de facto lançar as bases para daqui a uns anos (largos…) termos um adulto capaz de se virar sozinho, deverá ser um espaço gerido pelo por ele, com o devido acompanhamento. E como devemos fazer isso? E já agora o que devemos ter num espaço de brincar? E podemos ter mais do que um espaço de brincar para além do quarto dele?

Ena, ena tanta pergunta! Tenho a resposta para tudo isso: 5 DICAS DE ARRUMAÇÃO PARA ESPAÇOS DE BRINCAR. Gostam do título? Eu gosto. É dinâmico e promete muita coisa. Só lhe falta a placazinha xpto em néon…

Então vamos a isso:

1. Tenha mais do que um espaço de brincar em casa

Eu não disse que ia já responder a tudo? Pois bem, aí está: dependendo do tamanho da vossa casa e da quantidade de assoalhadas e se tem escadas ou não, deverá existir mais do que espaço de brincar e não confinar a criatura só a um espaço. Porquê? Por três motivos:

• Porque convida a criança a brincar em dois espaços diferentes, o privado e o comum e a perceber as regras inerentes a cada um deles: num espaço tem maior liberdade de acção, no outro tem de aceitar as regras de convivência social e coibir-se de transformar a sala (por exemplo) no antro do Jabba the Hut (não adianta, hoje é só filmes…);

• Porque pode mais facilmente vigiar o seu filho, sobretudo em idades mais pequenas;

• Porque leva a que se criem mais facilmente laços na família entre pais e filhos que assim se vêem envolvidos na brincadeira.

Pode optar por dividir esses espaços por actividade: um cantinho de leitura na sala; uma mesa com cadeiras e material para fazer desenhos no escritório (havendo espaço), uma cozinha de brincar na… cozinha, etc.

Use a sua criatividade e não se esqueça de envolver o seu filho na decisão!

2. Utilize com fartura cestos e caixas de cores e com etiquetas

No acto de arrumar (ou organizar, que é uma palavra tão bonita) há que respeitar a personalidade de cada um e o seu estilo de aprendizagem. Isso é válido para graúdos e miúdos, sem dúvida. E sabe que mais? Tendencialmente somos todos muito visuais, tendência ainda mais alta nas crianças.

Daí que o uso de cores, de caixas com etiquetas ou até desenhos sugestivos seja um bom chamativo para ajudar e incentivar as crianças a arrumar. Opte por estratégias simples, sem grandes complicações e assoberbamentos (não se esqueça que aquilo que é simples para si pode não o ser para ele).

E sabe o que ajuda a inculcar o hábitozinho da arrumação? Deixar que o espaço seja configurado com ele, em conjunto: deixe-o colocar as etiquetas, fazer os desenhos, escolher as cores – quanto mais o espaço for dele, mais sentirá a responsabilidade de o manter arrumado, com a devida orientação dos pais, claro.

Na hora de escolher o tipo de armário pense também em duas questões importantes:

Segurança: com crianças pequenas todo o cuidado é pouco – evite estantes grandes e pesadas, opte por armários baixos acessíveis, à medida dele. Se tiver que optar por alguma estrutura alta, tome as providências de segurança necessárias.

Evolução da idade: convém sempre optar por modelos mais ou menos neutros ou pelo menos customizáveis.

Porquê? Porque o seu filho vai crescer e um dia vai querer uma decoração diferente, um estilo diferente que vai comunicar a sua evolução. Existe por aí mobília já pensada para isso, que acompanha a idade. Explore-a! Em alternativa, as gamas BUSUNGE, STUVA E TROFAST da Ikea podem ser uma boa ideia porque os móveis são suficientemente neutros para poderem ser customizáveis com autocolantes ou até desenhos com tinta lavável.

Ou então com um poster do Justin Bieber quando chegar àquela idade. Não. Estava a brincar, não se assuste.

Tem um filho que é muito auditivo? Gosta de música? Então invente uma música que encoraje a arrumar, que seja quase um mantra da arrumação. O acto de arrumar é assim transformado num acto de brincadeira, num momento de música. Peça para ele fazer a letra para ser também um momento dele.

Evite no entanto o estilo Heavy Metal. Já experimentei. Não resulta.

3. Estabeleça regras e rotinas

Chegamos àquela parte que leva muitos pais a dizer “Pois, é fácil falar!” (neste caso escrever).

Claro que não é fácil conseguir que as nossas excelentes criaturas, prémios nóbeis em potência, percebam e mantenham a rotina da arrumação. Já agora faço uma pergunta? E nós? A roupa que despimos antes de pôr o pijama está aonde? Dobrada? E os cabos dos nossos “brinquedos” (iPods, iPhones, iPads, etcs) estão arrumados?

Como dizia Gandhi? “Seja a mudança que quer ver no mundo.” Comece por si. Seja o exemplo. A mudança que quer ver no seu filho. Dessa forma de cada vez que lhe pedir o mesmo será um processo natural e lógico. Afinal de contas se o pai ou a mãe também o fazem, faz todo o sentido pedir-lhe o mesmo.

Estabeleça regras (poucas), simples e fáceis de entender e cumprir. Minimalismo à força toda. Terá tempo de ir complicando, à medida que ele cresce, e pedir-lhe mais coisas. Para já concentre-se em cativar a atenção dele, com pouco.
Mas como não somos máquinas nem robots (pelo menos para já), de vez em quando podemos até nem arrumar assim tão bem. Tudo bem. Se isso acontece consigo, pode acontecer com ele. Faça-o perceber, no entanto, que se trata de um momento e não da regra. Porque estamos cansados, porque o nosso melhor muda todos os dias consoante a nossa energia e o nosso estado de alma.

4. Destralhe de vez em quando

E chegamos à palavrinha mágica. É bonita não é?

Destralhar. Significa retirar tralha a mais.

E o que é tralha? O que não nos serve, não é bonito, não nos é útil (atenção: não se aplica às pessoas). Neste caso concreto temos os brinquedos dos nossos filhos. “Estudos” indicam que os brinquedos que se encontram no quarto dos nossos filhos têm a seguinte proveniência:

15% das tias

5% dos amigos da escola

10% dos pais

80% dos avós

Com toda a probabilidade teremos uma verdadeira panóplia de categorias (o conjunto, não a armadura): desde brinquedos cuja chinfrineira mete os AC/DC num chinelo e acorda toda a vizinhança num raio de 5 km a pequenas peças de lego que têm a tendência “tétrica” de deambular à noite por corredores sombrios e enfiar-se bem debaixo dos nossos pés. E agora até existe a versão transparente. Medo. Caminhar em cima de brasas é canja. Agora experimente em cima de legos.

Evidentemente os nossos pimpolhos não precisam de tanta coisa, sobretudo ao mesmo tempo, espalhada no chão. Claro que não. Por esse motivo, agende no seu calendário uma data específica em que se vai reunir com o seu filhote e verificar se haverá alguma coisa que possa ser doada, vendida ou até incinerada em alguns casos mais graves.

Não é um exercício fácil para ele. É uma tomada de decisão, uma das primeiras, só dele, portanto há que saber acompanhar com alguma paciência o processo. E sobretudo ouvir. Entender porque é que ele quer manter alguns dos brinquedos. E é ouvindo e percebendo o seu raciocínio que vai conseguir arranjar uma solução. Juntos. Aqui a palavra de ordem é vínculo. Ainda no outro dia li um artigo de Magda Gomes Dias, essa grande senhora da parentalidade positiva, a falar sobre a importância do vínculo. 100% de acordo.

Criando laços com o seu filho e fazendo-o entender que, do outro lado da conversa, tem uma pessoa atenta, pronta a ouvir e empática, é meio caminho andando. Para tudo, não só para esta actividade específica.

5. Quanto mais coisas, mais para arrumar

Eu sei que este e o outro tópico são parecidos, mas nada é por acaso.

Na verdade, o tópico anterior prendia-se com uma actividade, este prende-se com uma mentalidade. Bem mais difícil e bem mais dispendiosa em termos de tempo. É coisa para durar uma vida. A sério. Viver com menos é uma filosofia, algo que nos transporta para a pergunta essencial: de que precisamos nós, verdadeiramente? Precisamos de tanto nas nossas vidas?

Não sou propriamente minimalista (depende das áreas) e não acredito que exista uma bítola do minimalimo para todos, mas acredito que podemos todos parar para reflectir no que precisamos e treinar essa questão. Colocá-la todos os dias: quando vamos às compras, quando estamos a encher o prato, quando estamos a levantar dinheiro.

É um caminho que se vai fazendo, e se for feito em família, melhor ainda. Optar pelo consumo consciente, não se deixar cair pelo consumo desenfreado e ditado pelos outros. Tomar a decisão consciente de que isto, só isto, me basta.

Claro que aqui falamos do espaço (ou espaços) do seu filho, que é o espelho do que ele é e do que ele vai ser. Está repleto das suas dinâmicas, decisões, vivências, mas também de tudo o que ele vai aprendendo dos pais que têm essa centelha divina de fazer acontecer e muitas vezes não o sabem. Ou esquecem-se, aliás, esquecemos (eu também). Assim sendo, fale, converse, coloque-lhe a ele também essas questões, envolva-o nelas, construa uma mentalidade sã de questionar o consumismo, de pôr em causa a evidência da compra que nos querem impor nos anúncios, nos panfletos e nas vitrines um pouco por todo o lado.

E pouco a pouco naquela cabecinha fantástica pronta a conquistar o mundo vai criar-se o rebento da mudança e da metamorfose para alguém que vai pensar com a sua cabeça, vai exercitar o seu pensamento crítico, a sua capacidade de análise e vai saber fazer escolhas. E perceber que se calhar pode abrir mão daquele ou de outro brinquedo. Se calhar se um amigo não trouxer uma prenda para a sua festa de anos não vai sentir falta. Se calhar vai partilhar e emprestar com maior facilidade.

O quarto dele vai finalmente reflectir essa mentalidade e, obviamente, quanto menos coisas, mais fácil se torna arrumar e mais livre o espaço. Um espaço de brincar e que o vai ver crescer.

Artigo escrito pela Rita Accarpio da OrganiGuru

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