[sono] A-mãe-nésia: mito ou realidade?

Falhas de memória, esquecimento de coisas aparentemente simples e básicas, sensações enevoadas: quem nunca sentiu na gravidez e no pós-parto?

Nem a mais empedernida e organizada das mulheres escapa à “a-mãe-nésia” e, quando dá por si, já está desvairada à procura das chaves do carro (que deixou no lavatório porque teve ir a correr urinar assim que entrou em casa, que estava tão aflita que já nem via nada à frente) e a mala (que guardou dentro do frigorífico porque sentia imensa sede e teve de se servir de meia melancia antes de fazer qualquer outra coisa). 

É muitas vezes ridículo e apatetado, sim, mas é também a mais genuína consequência da maternidade.

Quando nós, mulheres, temos um bebé a crescer desmesuradamente nas nossas entranhas, tudo o resto é absoluta paisagem. E nem vale a pena cientistas vincarem que a gravidez altera a morfologia do cérebro, que determinadas zonas se vêem aumentadas e outras mirram.

A natureza é simples: a prioridade máxima passa a ser o bebé, ponto. Todo o organismo se molda para a chegada dele e o universo da mulher gira em torno da sua barriga solar.

O cérebro vai redesenhando e reestabelecendo as suas ligações neuronais, porque se alteram drasticamente as prioridades. Assim, a grávida pode não mais lembrar-se do número de telemóvel do marido mas não esquece de que tem consulta com a obstetra no dia tal, às tantas horas. Além disso, outros factores contribuem fortemente para as falhas selectivas de memória:

– alterações hormonais;

– produção de relaxantes musculares no final da gravidez (já a preparar o parto, por isso as grávidas de termo são tão zen!);

– as noites mal dormidas, consequentes dos incómodos físicos (azia, cãibras, bebé a reclamar espaço aos pontapés, idas ao WC, etc.)

O que é importante reforçar é que isto não significa que nós, mulheres, fiquemos menos inteligentes, apenas que direccionamos todos os nossos recursos para conseguirmos ser a mãe mais eficaz do mundo. E porquê todo esse esforço? Porque sabemos, por instinto, que o nosso bebé vai precisar muito de nós, da nossa presença, atenção, carinho e dedicação.

Maternidade é trabalho duro e desmesuradamente compensador, arrebatador até. Só a amamentação ocupa-nos 40% do cérebro e quem vê diz que só estamos ali sentadas, de peito ao léu, a produzir leite.

Quando o bebé nasce, a privação de sono passa a ser o principal factor responsável pelas falhas de memória. No primeiro ano da vida do bebé, o principal cuidador (geralmente a mãe, pela questão da amamentação) perde, em média, 400 a 700 horas de sono.

Por outro lado, a interrupção recorrente de ciclos de sono impede a consolidação das memórias recentes e aumenta a sensação de fadiga. Por isso é que a grande maioria das mulheres não tem recordações detalhadas dos seus primeiros meses de mãe e ouve, muitas vezes, o seu companheiro comentar que está “taralhouca das ideias”. Máquina fotográfica, blocos de notas, agendas e telemóvel são os maiores aliados nestas alturas (principalmente para as fãs de economato!).

Simplificar a vida também ajuda imenso no dia-a-dia desmemoriado:

– optar por refeições simples e rápidas de confeccionar;

– tarefas domésticas reduzidas ao mínimo essencial;

– adiar o que pode ser adiado;

– pedir ajuda a toda a gente, sem pudores, nem reservas;

– não dramatizar de cada vez que nos esquecemos de algo (até porque não era nada realmente importante para nós, mesmo).

O sono passa a ser o melhor investimento, nesta fase. Bebé e mãe a dormirem bem e, de preferência, juntos garantem o bom funcionamento da memória: a criança sedimenta aprendizagens e a mãe guarda todas as memórias boas e momentos únicos em família, sem lapsos.

Conclusão: “a-mãe-nésia” é um mito, no sentido em que se perdem memórias. O que acontece é a acumulação de cansaço, de privação de sono e toda uma reestruturação de prioridades e o bebé é o número um absoluto da tabela!

Artigo por Verina Fernandes

Consultora de sono infantil. Mãe montessoriana. Adoro os livros clássicos, rebuscados e recheados de figuras de estilo. Gostava de fazer mais caminhadas, de ver mais filmes... e de ler mais livros do que os que consigo. Preciso muito de dormir. E de conversar também.

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