[psicologia] A importância dos contos para as crianças

Muitos de nós se questiona sobre sentido da nossa existência.

A compreensão do sentido de vida de cada um de nós, não é adquirida repentinamente em determinada idade ou momento. Ela é fruto de uma maturidade psicológica que se vai desenvolvendo progressivamente (desde que nascemos) e consiste na aquisição de uma segura compreensão do que pode (ou deve) ser o sentido da nossa vida.

“Hoje, como em tempos idos, a mais importante e mais difícil tarefa na educação de um filho é ajudá-lo a encontrar um sentido para a sua vida. Para se conseguir isso, são precisas muitas experiências de crescimento. Enquanto se desenvolve, a criança tem de aprender, passo a passo, a compreender-se melhor a si própria; com isso ficará apta a compreender os outros e, eventualmente, a relacionar-se com eles por vias mutuamente satisfatórias e significativas.” (Bettelheim, 2003)

De facto, é a esperança no futuro e a identificação de uma vida com significado, que muitas vezes nos sustentam (nos dá força) nas adversidades da vida. Como tal, é de grande importância que seja permitido às crianças a construção de um conceito de vida com significado e com esperança. E nada melhor que usar a literatura e o apelo à imaginação.

Literatura infantil

Existe uma multiplicidade de livros que compõe a actual literatura infantil. Uns contos são mais apropriados que outros e, eventualmente, existirão obras cuja existência parece não fazer grande sentido. Não obstante, dentro do espectro da literatura infantil, os contos de fadas (uma variação do conto popular ou fábula) ainda são vistos como o melhor instrumento de trabalho interior e de aprendizagem.

Obras de autores como La Fontaine (fábulas como “A formiga e a cigarra”), Perrault (contos como “Cinderela”), Irmãos Grimm (conto do “Capuchinho vermelho”) e Christian Andersen (história como “O patinho feio”), entre outros, são amplamente usadas, quer em contexto pré-escolar e escolar, quer em contexto clínico e terapêutico, ou simplesmente como momento de lazer no contexto familiar.

É verdade que os contos de fadas não espelham a especificidade da vida moderna actual, uma vez que foram criados muitos anos antes. Ainda assim, através destes contos, pode-se aprender acerca de problemas interiores (transversais a todas as épocas e a todos os seres humanos), e acerca das resoluções mais acertadas, tendo em conta os dilemas e exigências neles contidos.

“Para que uma história possa prender verdadeiramente a atenção de uma criança, é preciso que ela distraia e desperta a sua curiosidade. Mas, para enriquecer a sua vida, ela tem de estimular a sua imaginação; (…) Em suma, precisa de estar simultaneamente relacionada com todos os aspectos da sua personalidade (…) dando todo o crédito à seriedade das suas exigências e dando-lhe conjuntamente confiança em si própria e no futuro.” (idem, ibidem)

Contos como ajuda na resolução do “self” (eu interior)

Em contexto pedopsiquiátrico, deparei-me com um caso de uma criança que evitava ouvir contos de fadas até se sentir segura de si, para depois pedir que lhe contassem o mesmo conto vezes sem conta.

A explicação é simples: o comportamento de fuga perante situações de novidade, medo, insegurança e/ou afins, tende a ser a primeira resposta. Contudo, expor uma criança aos contos de fadas, permite que a mesma possa trabalhar os seus conflitos internos, imagem de si e dos outros ou até questões relacionadas com os conceitos de “bem” e de “mal”.

As crianças tendem a ver repetidamente os mesmos vídeos ou ouvir as mesmas histórias, porque isso as ajuda a integrar a informação ao seu ritmo, ao mesmo tempo que lhes transmite familiaridade e segurança. Apesar de ver de forma repetida, cada vez é única e diferente das anteriores e, quando sentem que tiraram todo o ensinamento, mudam para outra história.

É sempre desejável que as crianças consigam chegar sozinhas à sua “moral da história”, incentivando a que raciocinem por si, (ao invés de apenas ouvir a conclusão verbalizada pelo adulto), dando à criança a oportunidade de despoletar os seus mecanismos internos (e não a simples atenção) que levam à integração da “resolução” (muitas vezes, interna).

Dica: quando uma criança nos faz questões sobre “e o que aconteceu à personagem x?“, podemos sempre retornar a questão dizendo: “O que achas que aconteceu? Gostava de saber a tua opinião!”. Experimentem e veja o que as crianças dizem quando pensam por elas próprias!

“Exactamente porque a sua vida é muitas vezes desconcertante, a criança precisa mais do que ninguém que lhe dêem a possibilidade de se compreender a si própria neste complexo mundo que vai enfrentar. Para o poder fazer, tem de ser ajudada a criar um senso coerente no meio do turbilhão dos seus sentimentos. A criança precisa de ideias sobre como pôr a casa interior em ordem e, nessa base, conseguir dar certo sentido à sua vida. Precisa (…) de uma educação moral em que, com subtileza, apenas se lhe transmitam as vantagens de um comportamento moral (…) através do que parece palpavelmente acertado e portanto com sentido para a criança. A criança encontra este género de sentido nos contos de fadas. Tal como muitas outras intuições psicológicas” (idem, ibidem).

Os contos no nosso quotidiano

Existem muitas oportunidades de integrar contos de fadas no nosso dia-a-dia. Certamente, em contexto escolar, muitos contos são lidos ou disponibilizados no “cantinho/área da leitura”.

Em contexto familiar, é muito comum ler-se uma história antes de dormir, ou fazerem-se pequenos teatros em família.

Recentemente, tomei conhecimento de uma peça, intitulada “Sei lá – Teatro para a Infância”, interpretado pela Actriz Joana Amaral Estrela. Nesta peça, a narrativa dos contos infantis conta com a participação improvisada das crianças da plateia, promovendo a sua participação, interactividade e imaginação!

É através da imaginação, que as crianças experimentam o que é ser adulto e desempenham papéis pré-estabelecidos, sendo-lhes permitido criar o seu próprio guião. É com esse guião que o cérebro desenvolve! Estimula o seu raciocínio, as analogias, a criatividade em contornar situações inesperadas, em interiorizar papéis e regras sociais e reviver na sua imaginação aquele papel de maneiras diferentes, permitindo saber com o que se identifica e com o que não se identifica.

  

Esta peça destinada a crianças a partir dos 6 anos, está em palco até ao dia 07 de Maio de 2017 no Armazém 22, em Vila Nova de Gaia e é uma excelente sugestão para aliar os contos infantis ao lazer cultural em família!

A actriz Joana Amaral Estrela, em parceria com o bloga8, pretendem celebrar o Dia da Mãe oferecendo aos leitores do nosso blog convites duplos para a sessão do dia 07 de Maio de 2017.  O(a) autor(a) da frase escolhida será informado(a) por mensagem privada e poderá levantar os bilhetes na bilheteira até ao dia do espectáculo. Podem consultar como participar no nosso texto do facebook!

E já agora, faço votos de Boa Páscoa para todos! Até breve,

 

Joana Madureira

Porto Canal: Peça Teatro “Sei Lá”, uma parceria Bloga8

 


BIBLIOGRAFIA

Bettelheim, B. (2003). Psicanálise dos Contos de Fadas. Lisboa: Bertrand Editora.

 

 

 

Artigo por Joana Madureira

Mulher e Mãe de duas crianças. Psicóloga, Formadora, Consultora de Recursos Humanos e Blogger Mentora da marca registada SCHOLA - Educar para a Felicidade.

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