[psicologia] Parte I: Ordens eficazes para pais e filhos eficientes

Já por aqui falamos sobre educação e limites e sobre a quantidade de ordens que os adultos transmitem às crianças. Elas são os destinatários de imensa informação: regras, limites, ordens, enfim, aquilo que os adultos chamam de educação!

Por sua vez, a educação dos adultos vem, geralmente, acompanhada de ordens e alguma dificuldade em conseguir que as crianças as cumpram.

Mas… será que as crianças foram programadas para as desobedecer? O que terão os adultos a ver com isso?

Desobedientes?

Um estudo revelou que as crianças desobedecem aos pais em 30% das vezes que estes lhes dão ordens (Webster-Stratton, 2016) – considerando-se uma amostra de população normativa, ou seja, crianças ditas sem problemas de comportamento.

A esta percentagem de desobediência, não se deve só a necessidade das crianças testarem os limites e porem todas as regras à prova, como parte do seu processo de aprendizagem. Parte da co-responsabilidade recai nos educadores.

A eficácia das ordens deve-se, e muito, à eficiência dos pais (e/ou educadores no geral) no estabelecimento de regras, limites e na formulação das ordens que dão às crianças – se a eficácia se refere ao grau de alcance do objectivo, a eficiência refere-se à forma de alcance do mesmo.

No texto de hoje, vamos falar de três pontos importantes a ter em consideração, quando queremos que a nossa mensagem chegue à criança. São eles: o número de ordens, a importância das ordens que se dá, e a prática de dar uma ordem de cada vez.

 

Número de ordens

Uma grande questão a ter-se plena atenção, é a real importância das ordens dadas. Exemplo:

  • Calça os sapatos verdes“; “Não brinques com isso“; “pinta dentro dos limites“; “Come, anda lá“;

A não ser que a ordem surja em contexto de máxima prioridade ou perigo eminente (exemplo, ter um código de vestuário para um evento e ter de ser verde), estar a brincar com um objecto cortante (e não poder brincar com isso, claro), pintar um exercício de avaliação de capacidades motoras ou afins (e pedir-se que pinte dentro dos limites); será mesmo necessário darem-se este tipo de ordens?

As crianças devem ser autorizadas a decidir este tipo de coisas sozinhas, em vez de se envolverem num confronto de vontades com os pais. É de notar que, se os pais dão 20 a 40 ordens por cada meia hora, é impossível que as crianças as cumpram. Em consequência, as crianças recebem mensagens confusas relativamente à importância das ordens.” (Webster-Stratton, 2016)

Antes de se dar uma ordem, sugere-se que se pense bem se, realmente, a questão que se vai abordar (em forma de ordem), é realmente importante.

 

Ordens realmente importantes

Um exercício útil para os educadores se conseguirem mentalizar de quais as ordens realmente importantes, tentando evitar todas as outras que considerem secundárias (e assim reduzir o número de ordens dadas por hora), é escrever num papel as 10 regras incontornáveis de toda a família.

Ao definir e esclarecer essas regras incontornáveis, quando evocá-las, os seus filhos perceberão que essas são regras realmente importantes e devem ser cumpridas.

Por outro lado, conseguirmos priorizar regras importantes, permite-nos consciencializar de que outras ordens não são assim tão importantes (por vezes chega-se à conclusão de que são mesmo desnecessárias) de serem dadas. Isto ajuda a conseguir-se reduzir o número de ordens que damos todos os dias.

Não menos importante que a relevância das ordens que damos, são as consequências que se estabelecem.

Se a ordem não for cumprida, o que fazer? Pensem bem se existe uma consequência lógica a ser aplicada, no caso de não cumprimento dessa ordem importante para vocês, e pensem bem se estão dispostos a aplicar essa mesma consequência.

Por exemplo, se uma criança não cumprir uma ordem (exemplo, vir para a mesa para jantar), cuja consequência dada pelos pais será não comer (caso não venha para a mesa). Estariam mesmo na disposição de a fazer cumprir, deixando a criança sem jantar? Não há resposta certa ou errada. Esta é apenas uma questão a colocarem a vocês mesmos antes de determinarem consequências deste tipo.

Ponderem bem se as ordens são realmente importantes e se as consequências são mesmo realistas e exequíveis, pois correm o risco da criança testar os pais e ver que os mesmos não cumprem (o típico bluff pode-vos custar a credibilidade parental).

 

Uma ordem de cada vez

Por vezes, os adultos nem se apercebem que encadeiam várias ordens, sem dar tempo à criança de executar a primeira, ou sequer conseguir interiorizar todas as ordens dadas. Isto pode ser realmente confuso para crianças mais pequenas, ou para crianças maiores com dificuldade em memorizar tudo.

Se, por exemplo, um pai disser algo como “São horas de ir para a cama. Arruma os brinquedos, sobe para o quarto, lava as mãos e os dentes e veste o pijama“, por muito lógica que seja a sucessão de ordens, a criança vai focar-se no que memorizou. Sendo muitas ordens ao mesmo tempo, alguma pode ficar esquecida.

Adicionalmente, é importante recompensar verbalmente a criança a cada ordem que ela cumpra, o que se torna difícil com ordens em catadupa. Neste caso, ocorreria que o pai apenas enaltecesse o que a criança se esqueceu de fazer, sem elogiar o que ela se lembrou e cumpriu.

Muitas ordens ao mesmo tempo, também pode levar uma criança a sentir que não é capaz de cumprir, optando por desistir sem tentar, levando ao incumprimento dessa ordem.

Para além da importância de se dar uma ordem de cada vez, também devemos evitar repetir a mesma ordem várias vezes, porque as crianças acabam por inferir que só vale a pena obedecer à quarta vez, ganhando, assim, tempo na desobediência.

Um encadeamento de ordens acaba por reforçar a desobediência devido ao nível de atenção proporcionado pela repetição constante”. (idem)

Nota: É importante reconhecer e elogiar, igualmente, o esforço investido, mesmo quando uma tarefa não é realizada na plenitude.

 

Enaltecer as tentativas e as conquistas 

Neste processo de dar ordens, é muito mais importante recompensar o cumprimento (com um simples elogio verbal), do que enaltecer um incumprimento. E mesmo quando a criança não consegue cumprir o que lhe foi proposto, é igualmente importante reconhecer o esforço da sua tentativa.

Mais do que “ralhar” só quando as coisas correm mal, devemos “apanhar” as crianças a portarem-se bem e enaltecer o facto nesse preciso momento! Porquê? Porque todos gostamos de ser reconhecidos e tidos em consideração e isso aumenta a probabilidade da criança repetir o comportamento elogiado pelos pais.

Na próxima semana vamos explorar diferentes nuances das ordens e da forma como devem ser verbalizadas. Porque comunicar é quase tão difícil como se ser pai ou mãe.

Até lá, desejo-vos uma semana cheia de risadas e algumas travessuras. É Carnaval, ninguém leva a mal, pois não?!

 

Joana Madureira

 


BIBLIOGRAFIA

Webster-Stratton, C. (2016). Os Anos Incríveis – guia de resolução de problemas para pais de crianças dos 2 aos 8 anos de idade. Braga: Psiquilíbrios Edições.

 

 

Artigo por Joana Madureira

Mulher e Mãe de duas crianças. Psicóloga, Formadora, Consultora de Recursos Humanos e Blogger Mentora da marca registada SCHOLA - Educar para a Felicidade.

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