[psicologia] Quantas ordens dás por hora?

A semana passada, escreveu-se sobre Educação e Limites – a importância que isso tem para as crianças e o feed-back que dá sobre os adultos que as educam!

Hoje, levo-vos a outra reflexão. Já alguma vez pararam para reflectir na quantidade de ordens que um adulto dá às crianças? Em média, quantas ordens acham que dão por hora? Querem genuinamente saber? Deixo-vos duas opções:

  • Experimentem ir a um parque infantil (no jardim ou num shopping) e observem.
  • Em alternativa – esta sugestão é para os mais resistentes, que não caiam na tentação de discutir – peçam a alguém que vos é próximo e com quem costumam partilhar o dia-a-dia (os vossos marido ou mulher ou pai ou mãe…  ou o sogro ou a sogra, se a ligação com estes for amistosa), que registem o número de ordens que dão, desde que os vossos filhos chegam a casa até que se deitam – e registem o tempo decorrido nesse intervalo também.

Observem, com algum distanciamento, a quantidade de ordens dadas e a cadência das mesmas.

Chuva de ordens

Os pais entram muitas vezes em piloto automático, mas poucos se aperceberão do número de ordens que dão aos seus filhos. De acordo com a investigação da Psicóloga Carolyn Webster-Stratton (2016: 68), os pais dão cerca de 17 ordens a cada 30 minutos (34 ordens por hora); e em crianças com maiores problemas de comportamento, a média de ordens dadas sobe para 40 a cada meia hora (80 ordens por hora)!

O interessante desta investigação, é ter reunido evidencias para demonstrar que os filhos, cujos pais recorrem a um número excessivo de ordens, se tornam crianças com maiores problemas de comportamento!

Conseguem imaginar porquê? Empatizem: coloquem-se na pele de uma criança com vontade própria e um mundo inteiro por descobrir, mas que está sempre a ser bombardeada com ordens sem filtro, impedindo-a de ser ela própria e levando-a a sentir-se desvalorizada e incapaz.

É sensato que os educadores (pais, avós, professores, etc!) estipulem regras e imponham limites. Insensato é, por vezes, o número de ordens com que “bombardeamos” as crianças. Pensem nisso com carinho.

Crianças desobedientes

As crianças desobedecem a cerca de 30% das ordens dadas pelos educadores (Webster-Stratton, 2016: 67). Todas as crianças testam limites, fazem birras, protestam e descompensam de alguma forma, quando contrariadas.

Para nós, educadores adultos, mais do que respirar fundo, é importante começarmos a encarar essa atitude e comportamento como uma expressão natural e saudável da criança (variável em intensidade), ao exprimir, desta forma, a sua necessidade de independência e autonomia.

Ajuda-nos a manter o distanciamento emocional se encararmos isto como um teste das crianças às regras dos adultos (e sua aplicação) – e não como um ataque pessoal. O que deriva das birras (e das suas consequências), constitui uma experiência poderosa de aprendizagem (na primeira pessoa), já que a criança explora os limites do meio que a envolve, aprendendo a diferença entre comportamentos apropriados e comportamentos inadequados.

Ouvir alguém dizer o que acontece ou testar fazendo na primeira pessoa, é completamente diferente. As crianças gostam de “ver para crer”. E ainda bem que assim é, ou correríamos o risco de termos filhos que aceitavam ordens (sem confirmar) de qualquer colega ou adulto, no seu futuro próximo.

“Olha, faz birra para aí, não quero saber”

O facto de algo constituir um comportamento natural nesta idade, não quer dizer que devemos deixar uma criança na sua birra descomunal sozinha. Porquê? Porque uma birra tem implícita uma necessidade subjacente. Ou seja, uma vontade ou pedido e geralmente gira à volta da insegurança que a criança sente nesse momento.

Uma criança que protesta com gritos, activou o seu instinto mais primitivo de reagir intempestivamente. O que esta criança mais precisa, é de um adulto firme e paciente, que tenha em mente que não é o que diz que vai ensinar (nem a criança, neste estado, ouve), mas é o que o adulto faz nesta situação que ensina a criança. O adulto, vai ensinar-lhe, indirectamente, como deve reagir perante uma situação de maior stress – porque as crianças são o espelho dos adultos e aprendem por modelagem.

E sim, a criança pode ser orientada a, progressivamente, se conseguir auto-regular, ou seja, a saber encontrar mecanismos internos para gerir a sua frustração, sem necessidade do adulto recorrer à ameaça, castigo ou humilhação (incluindo palmadas). Porque isso leva a criança a repetir esses mesmos comportamentos com alguém… e não se admirem se um dia virem um filho a levantar a mão para bater aos pais. Terá aprendido por modelagem.

Se a água da chuva rega e limpa o solo, uma chuva de ordens fragiliza e agita a alma.

Na próxima semana, exploraremos e reflectiremos juntos como dar ordens que sejam cumpridas. Conto convosco?Até lá, faço votos que tenham uma excelente semana!

Até breve,

Joana Madureira

 


BIBLIOGRAFIA

Silva, A. P; Esteves, J. (2012). Parentalidade positiva – eu, tu, ele/a, nós, vós e eles/as?. Lisboa: CESIS e Projecto Espiral (CLDS).

Webster-Stratton, C. (2016). Os Anos Incríveis – guia de resolução de problemas para pais de crianças dos 2 aos 8 anos de idade. Braga: Psiquilíbrios Edições.

 

Artigo por Joana Madureira

Mulher e Mãe de duas crianças. Psicóloga, Formadora, Consultora de Recursos Humanos e Blogger Mentora da marca registada SCHOLA - Educar para a Felicidade.

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