[psicologia] Educação e limites: as crianças são o espelho dos adultos

Serão mesmo as crianças as únicas a necessitarem de ordens e definição de limites? Será a educação algo que deixa de se receber, quando se entra na fase adulta? Os pais saberão tudo? Ou deverão os pais tirar momentos diários para repensar a sua educação e a educação que estão a dar aos seus filhos? E os educadores, servem só para pôr à prova a educação dada pelos pais? Ou têm influência na educação das crianças com que trabalham?

São perguntas que levanto para pensarem um pouco, sem julgamento, apenas reflexão.

Achamos que são as crianças o único destinatário legítimo da educação e muitas vezes as crianças são o espelho dos adultos que as educam.

De acordo com Silva e Esteves (2012), aprendemos com as seguintes intensidades:

– 1% a 2% pelo gosto

– 3% a 4% pelo odor

– 10% a 15% pelo que ouvimos

– 75% a 90% pelo que vemos

Para termos legitimidade naquilo que dizemos, temos de ser coerentes com aquilo que fazemos. As crianças aprendem através do modelo que observam. Os Psicólogos chamam a isto modelagem, ou seja, aprendizagem por observação de outras pessoas (Doron e Parot, 2001).

Olha para o que eu faço, e não para o que eu digo

Existe uma maior probabilidade de se encontrar crianças com comportamentos incorrectos, em famílias com poucos padrões ou que não tenham regras e limites definidos de forma clara.

Quando a família define de forma clara e consistente os seus limites, as crianças tendem a sentir-se mais seguras e, consequentemente, mais tranquilas – afinal, sabem que aquele é o limite do seu educador e dali não devem passar.

Claro que as crianças testam os limites e põem todas as regras à prova, isso faz parte da aprendizagem! É uma expressão normal e saudável da sua necessidade de independência e autonomia. As crianças testam a coerência e limites dos seus educadores e tal não deve ser entendido como um desafio à autoridade (não é maldade!).

Procurem, antes, entender essa atitude das crianças, como uma forma delas experienciarem as relações sociais, reconhecerem a diferença entre comportamentos apropriados e comportamentos incorrectos e compreenderem quais as consequências.

Certamente que o objectivo último das crianças será perceberem se conseguem obter o que pretendem (e, às vezes, experimentarem se vencem os educadores pelo cansaço – incoerência). Afinal, ninguém nasce ensinado e aprendemos com o que vivemos!

Deixo, no entanto, uma ressalva. Se derem uma ordem à criança, evitem:

– fazer o oposto do que diz – dando um exemplo contrário, deixando a criança confusa, reforçando-a a fazer igual a si, ao mesmo tempo que leva a criança a não cumprir a sua ordem;

– ceder ou permitir que não cumpra essa ordem por meio de uma birra ou por o adulto estar cansado demais para a ajudar a cumprir.

Em ambos os casos corre-se o sério risco de recompensar a criança (pelo facto de ser incoerente e intermitente) a ir ainda mais longe no seu teste de limites!

Resumindo: para sermos modelos, temos de dar o exemplo e sermos coerentes.

A forma como se fala com as crianças, torna-se a sua voz interior

A expressão é de Peggy O’Mara: “A forma como falamos com os nossos filhos, torna-se a sua voz interior”. Com isto, gostava muito que reflectissem sobre o tom de voz e a forma com que falam com as vossas crianças. Afinal, ter autoridade não significa ser autoritário nem déspota. Não precisamos gritar, ameaçar, nem humilhar – isso pode muito bem conduzir à criação de um inimigo em casa, não um filho.

Adicionalmente, torna-se mais importante para uma criança, sentir-se amado, educado e protegido, do que ameaçado, castigado e/ou humilhado e tudo isto interfere directamente na formação da sua auto-estima, dos seu auto-conceito, da sua noção de afecto parental e capacidade de resiliência!

Deixo-vos exemplos:

Ameaça:Ou páras imediatamente, ou dou-te já uma palmada!Perigo: quem ama não magoa e infligir dor não tem qualquer nível de pedagogia, seja de que cariz for;

Castigo:Dá cá o tablet, vai imediatamente para o teu quarto.Perigo: associar o quarto a castigo;

Humilhação:És sempre o mesmo palerma, nunca fazes nada de jeito!Perigo: a chamada “distorção confirmatória”, ou seja, a criança vê-se como palerma e perde a esperança de poder ser melhor na próxima oportunidade, porque o educador já o rotulou como “nunca fazendo nada de jeito”.

Agora, pergunto-vos: quem nunca? Relaxem, tenho certeza que darão ainda melhor de vocês numa próxima oportunidade. Afinal, o ponto de partida está na nossa capacidade de auto-análise! Seguem algumas perguntas que podem fazer a vocês mesmos (adaptado de Dias, 2016):

– Como é que vocês se descreveriam, em três palavras?

– E se o vosso filh@ vos descrevesse em três palavras, quais seriam?

– E quais são as três palavras que gostariam que os filhos usassem para vos descrever?

– A vossa atitude diária está nivelada com a imagem que gostavam que os vossos filhos tivessem dos pais?

– O que é que acham que teriam de repensar e reformular, para alcançar a imagem que querem que os vossos filhos tenham de vocês? Forma de comunicar? Mais afecto? Mais tempo de brincadeira convosco? Dar menos ordens? Ser mais claro? Reforçar mais os esforços dos filhos? Elogiá-los com mais frequência? Pensem nisso!

How we feel about our kids isn’t as important as how they experience those feelings and how they regard the way we treat them.” Alfie Kohn

E eu gosto muito de vocês!
Até breve,

Joana Madureira


BIBLIOGRAFIA

Dias, M. (2016). Berra-me Baixo: 21 dias para deixares de gritar com o teu filho. Lisboa: Manuscrito Editora.

Dias, M. (2015). Crianças Felizes: o guia para aperfeiçoar a autoridade dos pais e a auto-estima dos filhos. Lisboa: A Esfera dos Livros.

Doron, R. e Parot, F. (2001). Dicionário de Psicologia. Lisboa: Climepsi Editores.

Silva, A. P; Esteves, J. (2012). Parentalidade positiva – eu, tu, ele/a, nós, vós e eles/as?. Lisboa: CESIS e Projecto Espiral (CLDS).

Kohn, A. (2005). Unconditional Parenting: moving from rewards and punishments to love and reason. New York: Atria Paperback.

Artigo por Joana Madureira

Mulher e Mãe de duas crianças. Psicóloga, Formadora, Consultora de Recursos Humanos e Blogger Mentora da marca registada SCHOLA - Educar para a Felicidade.

Este artigo tem 2 comentários
  1. Bea diz:

    É mesmo isto. Obrigada por estares aí.

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