[psicologia] O meu filho pediu-me uma pistola, e agora?

O tema desta semana, foi-nos sugerido por uma leitora que nos é muito querida, a Marisa, que tem um filho de 4 anos.

O título deste texto, poderia não suscitar grande alarme aos pais, pelo simples facto de vivermos num país aparentemente pacífico, ao contrário de países como a América. MAS, o título deste texto, quer-vos convidar a uma profunda e necessária reflexão a respeito dos brinquedos que permitimos que as nossas crianças brinquem. Em particular, os bélicos.

Quanto mais complexos forem os brinquedos, mais hipnóticos são e menos oportunidade dão à criança de usar a sua imaginação, de brincar ao “fazer de conta”. Num outro texto, expliquei como as crianças experimentam, através da imaginação, diferentes papéis, sendo-lhes permitido criar o seu próprio guião:

“É com esse guião que o cérebro desenvolve! Estimula o seu raciocínio, as analogias, a criatividade em contornar situações inesperadas, em interiorizar papéis e regras sociais (como ir às compras e pagar a conta, por exemplo) e reviver na sua imaginação aquele papel de maneiras diferentes, permitindo saber com o que se identifica e com o que não se identifica.”

Há um factor muito importante na “equação do brincar”: aquilo que a criança vê. De acordo com Silva e Esteves (2012), estas são as percentagens aproximadas da nossa aprendizagem:

  • Aprendemos 1% a 2% pelo gosto;
  • Aprendemos 3% a 4% pelo odor;
  • Aprendemos 10% a 15% pelo que ouvimos;
  • Aprendemos 75% a 90% pelo que vemos;

O que devemos reter: as crianças aprendem com o que vivem! E o que observam, interfere muito na sua aprendizagem. A fonte dessa observação, pode ser de um adulto, ou de um desenho animado.

As brincadeiras das crianças, têm sempre por base um modelo (em psicologia, este fenómeno apelida-se de modelagem). Ou seja, a criança tende a repetir e a recriar, nas suas brincadeiras, situações que observa (algo ou alguém) fazer. É na imaginação, no faz-de-conta, que a criança sente o poder de ser e imitar o que a rodeia.

E a esta altura do texto, alguém se pergunta:

Então e a pistola? O meu filho não pode brincar com pistolas?

Primeiro, deixo uma ressalva: filhos e filhas, podem brincar com pistolas, se os pais assim entenderem. Os pais são os principais educadores e, eles, mais do que ninguém, sabem o que é melhor para os seus filhos.

Ainda assim, devolvo-vos as seguintes questões para melhor entenderem os pedidos dos vossos filhos e filhas:

  • Com que intuito as nossas crianças brincam com pistolas? – perguntem aos vossos filhos (seja menino ou menina) o que pretendem com a pistola, quando vos pedirem uma.
  • Que exemplo estão a tentar imitar? – é importante explorarem que cena ou ocorrência estão a recriar, para compreenderem o contexto em que aprenderam;
  • Acham que brinquedos bélicos são brinquedos de crianças? – no exemplo deste texto, sugiro que analisem que tipo de “pistola” estamos a falar. Existem pistolas de fazer bolas de sabão (projectores), ou pistolas de leds voadores (propulsores). Sermos nós a explicar a finalidade de cada brinquedo, é importante.

Em relação a esta última pergunta, os autores Zatz et al. (2007), referem o seguinte:

“O universo de lutas e o conflito entre o bem e o mal sempre esteve presente nas brincadeiras infantis, desde os tempos mais remotos. (…) esta perspectiva lúdica se perpetua através das gerações.

Por um lado, a guerra e o combate são atraentes na medida em que expressão aventura e heroísmo (…) da luta (…) dos bons contra os maus.(…)

Por outro lado, nada em excesso pode fazer bem (…) falamos (…) da importância da variedade de actividades e brincadeiras que devem ser ofereceidas às crianças, independentemente de sua idade.”

Ou seja, numa primeira perspectiva, alguns autores acreditam que, a representação de conflito e guerra que as crianças têm, seja menos violento pelo facro de ser “imaginário”, ou seja, fora da realidade; assim como pelo facto de, muitas vezes, a brincadeira de luta, ser uma forma da criança expressar a sua agressividade, controlar a sua angústia, extravasar os sentimentos conflitantes que possa estar a sentir. Adicionalmente, existem estudos que demonstram que as brincadeiras das crianças não são determinantes nas escolhas enquanto adultos.

No outro lado da perspectiva, é importante verificar em que medida as brincadeiras são constantes representações de conflito, guerra e agressividade. Nestas alturas, deverá existir o cuidado de perceber se a televisão ou a realidade em que a criança vive (quer em casa, quer na escola) está a influenciar em excesso o seu mundo imaginário.

Mesmo que o interesse da criança por brinquedos bélicos como “pistolas” persista, sem haver causa externa para tal (assistir a violência ou ser alvo dela), é importante o adulto procurar transitar o interesse da criança (curiosidade pelo bélico) para outros objectos, apresentando alternativas de brinquedo que permita à criança maior amplitude de criatividade e imaginação – os blocos ou legos são uma excelente alternativa. Ao fazê-lo, também aumenta as hipóteses da criança ampliar o seu universo de brincadeira e migrar para outros temas e ambientes de interesse.

Por sua vez, a Amnistia Internacional Portugal, na posse de números assustadores em termos mundiais, desenvolveu em 2007 a iniciativa “A Guerra não é um Brinquedo” no âmbito da Campanha “Controlar as Armas” e teve como objectivos muito específicos, os seguintes:

  1. Difundir a mensagem de que “A guerra não é um brinquedo”, incentivando os pais a não oferecerem brinquedos bélicos aos seus filhos.
  2. Realçar o importante papel das comunidades educativas e da família na transmissão de valores de respeito e solidariedade às crianças.
  3. Consciencializar, através da reflexão, do papel que os brinquedos desempenham no desenvolvimento da criança e na construção da sua personalidade.
  4. Proporcionar às famílias e às crianças um papel interventivo na prevenção da violência armada, através da participação na construção de uma escultura pela Paz.

Esta foi a carta redigida pela Amnistia Internacional Portugal, distribuída aos pais e restantes agentes educativos e escolares:

arma-n-e-um-brinquedo

Por todo o mundo, a guerra e as armas reais, fazem parte da vida quotidiana de muitas crianças. Umas são usadas como penhor, transporte de armas ou mesmo como crianças-soldado (podem consultar o texto da Unicef aqui); outras vêem as suas vidas dramaticamente afectadas pelo uso das armas, ao ponto de, nos seus desenhos em papel, flores e sol conviverem lado a lado com cadáveres e sofrimento (podem consultar o texto da Unicef aqui).

Como referi no início deste texto, felizmente a realidade do nosso País não é a mesma que tantos outros, mas todos nós somos agentes da mudança e as nossas crianças são o futuro deste mundo.

Acredito que este texto nos tenha levado a reflectir sobre o que se passa “do outro lado do mundo” também. E acredito que caminhamos, cada vez mais, para uma consciencialização da educação que damos às crianças.

Por exemplo, num texto do Centro Regional das Nações Unidas, intitulado “Pai Natal “invadido” por milhões de cartas de todo o mundo” – estimou-se terem sido enviadas mais de 7 milhões de cartas no ano de 2014. Os desejos registados, foram:

“O Pai Natal recebe cartas de crianças de todo o mundo, sendo muitas delas da Ásia. Muitas vezes, os seus desejos passam por boa sorte e uma boa saúde em vez de brinquedos. Os últimos são mais comuns entre as crianças europeias”, afirma Maria Ibsen dos correios suecos.”

Em Portugal, segundo Isabel Tavares dos Correios de Portugal,

“Os brinquedos ainda permanecem os principais desejos de Natal, mas os pedidos de roupa, animais de estimação e até mesmo irmãos ou irmãs estão a aumentar”.

As crianças têm o poder da humildade e da inocência. Os valores ensinam-se e aprendem-se. A violência e a bondade, também. Por isso, nunca se esqueçam de educar as vossas crianças com valores integros e numa perspectiva de simples e sincera felicidade. Lembrem-se: a felicidade é uma opção nossa, mais do que precisar de factores externos, ela é um trabalho interno!

Qualquer que seja a vossa opção na compra de brinquedos, procurem sempre ter em mente aquelas três questões que vos sugeri. É importante saberem “o que se passa na cabeça” do vosso filho ou da vossa filha.

Mas a maior sugestão que vos deixo, é esta: brinquem com os vossos filhos!

Se é verdade que as crianças têm um aparente capacidade instintiva para brincar, também é verdade que esta capacidade desaparece gradualmente, se não houver intervenção do adulto para estimular o desenvolvimento da criança. Brincar com as nossas crianças é muito mais importante do que se possa imaginar:

  • Contribui para criar uma relação próxima e fortalecer laços afectivos na família, através da troca de experiências e sentimentos;
  • Ajuda as crianças a resolverem problemas, a experimentar novas ideias, a explorar a imaginação, a estimularmos a aquisição de vocabulário, a aprenderem e a comunicarem as suas emoções, pensamentos, sentimentos e necessidades;
  • Estimula os sentimentos de auto-estima e competência das crianças;
  • Transmite-lhes sentimento de pertença, segurança e afecto às crianças, ao saberem que os pais periodicamente brincam com elas e entram no seu “mundo imaginário” sem reprovação, moralismo ou tentativas de corrigir, por parte do adulto.
  • Permite aos adultos “deixarem fluir” a imaginação e coltarem a ser crianças!

 

 


BIBLIOGRAFIA

Silva, A. P.; Esteves, J. (2012). Parentalidade Positiva – eu, tu, ele/a, nós, vós e eles/as?. Lisboa: cesis e Projecto Espiral (clds).

Zatz, S.; Zatz, A.; Halaban, S. (2007). Brinca Comigo! Tudo Sobre Brincar e os Brinquedos. Brasil: Editora Marco Zero

WEBGRAFIA

http://www.amnistia-internacional.pt/dmdocuments/projecto_GNEB_objectivos_metodo.pdf

Artigo por Joana Madureira

Mulher e Mãe de duas crianças. Psicóloga, Formadora, Consultora de Recursos Humanos e Blogger Mentora da marca registada SCHOLA - Educar para a Felicidade.

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