[psicologia] Literacia emocional: a importância das emoções boas e más

Todos tendemos a separar as emoções em “boas” – as que nos fazem sentir bem; e em “más” – as que nos fazem sentir menos bem. Mas tentar nomear 10 emoções “boas” e 10 emoções “más”, já se torna um exercício de dificuldade acrescida para alguns de nós.

Muitas vezes, quando questionamos a alguém o que sente, é comum sentir-se a dificuldade de dar nome às emoções sentidas. Nessa impossibilidade, as pessoas procuram metáforas como “borboletas na barriga”, “nó na garganta”, “parece que me caiu o mundo em cima”, “tremo como varas verdes”, entre outros.

Quando o tema se refere a uma criança, muitos pais tendem a “proteger” os seus filhos de emoções menos boas, na tentativa de adiar esse “encontro” e proporcionar apenas as emoções boas às crianças. Isso não é de todo mau, mas também não é totalmente aconselhável.

Quando chegam à idade adulta, as “crianças” que foram protegidas na sua infância, experienciam, muitas vezes, dificuldade em explicar o que sentem, ficam confusas e por vezes irritadas por não dominarem o que sentem. O ciclo reinicia, quando estes (agora) adultos, repetem o mesmo com os seus filhos.

Literacia emocional

Atrevo-me a dizer que encaro a literacia emocional quase como um curso de especialização em nós mesmos (passo o pleonasmo), naquilo que sentimos, conseguindo identificar as nossas necessidades e as necessidades dos outros.

E não são só as emoções “boas” que devem ter foco. Também as “más” são importantes – elas também nos ajudam a identificar o perigo e a agir em defesa (protecção, alerta, mudança, etc.). Outros medos, podem ser mera expressão de receio do desconhecido, e podem ser trabalhados e superados.

Assim se explica, por exemplo, os medos que as crianças sentem: elas ainda estão a descobrir o mundo que as rodeia e o seu cérebro está em contínua assimilação da realidade. Os medos, são expressões emocionais do que não controlam, e estas reacções (de medo) podem constituir a expressão não verbal das suas necessidades de protecção, segurança, pertença e afecto – elas não sabem exprimir por palavras o que sentem, mas o seu cérebro já lhes emite sinais claros de necessidade de defesa e protecção.

Numa tentativa de iniciar os meus filhos neste “curso de emoções”, procurei livros que fossem acessíveis para crianças a partir dos 2/3 anos e descobri as obras da Rita Castanheira Alves, a chamada Psicóloga dos Miúdos (área Clínica e da Saúde), com ilustrações de Carla Nazareth. Nestes livros, a autora contempla uma secção destinada aos pais, onde escreve o seguinte:

“A literacia emocional permite colorir as nossas experiências e atribuir-lhes um significado. Permite-nos identificar, expressar, processar e regular as emoções e, consequentemente, ajustar o comportamento a cada situação, de acordo com as nossas emoções e com as dos outros. A literacia emocional é a chave para o sucesso e bem-estar pela capacidade de, não só, interpretarmos o que estamos a sentir, mas também por nos permitir fazer uma leitura das emoções e intenções dos outros.”

A autora reforça a importância dos adultos ajudarem as crianças a expressarem as suas emoções – ao invés de esconder ou suprimir. Ou seja, não as “proteger” de sentir. Porquê? A Psicóloga dos Miúdos explica:

“A supressão funciona como um bloqueio das emoções, não lhes dando espaço para serem percebidas e vividas, fingindo que não estão a sentir (…), como se nada tivesse acontecido (…), o que leva a uma expressão desadequada e prejudicial. É importante não fingir que não se sente e que não tem importância, não ter a tentação de ignorar, como se assim passasse. Há que valorizar aquilo que está a ser sentido, contextualizando e desenvolvendo estratégias para lidar com isso. Está assim a promover um reportório emocional diversificado: não ter receio de falar de emoções negativas (elas não aumentam por isso), nem ter receio de exprimir as positivas (isso não tira o encanto das experiências, pelo contrário, amplifica-o).”

É, então, importante reter que identificar emoções reforça o nosso cérebro e, assim, desenvolver a capacidade de compreender o que sentimos, identificar o que precisamos, para despoletar recursos, como por exemplo, regulação (auto-controlo, por exemplo) e acção (o que fazer/agir em conformidade) – emoção, pensamento, acção.

Promover o desenvolvimento emocional

Pois bem, nunca é tarde demais para se aprender as emoções. E há tanto por explorar! A minha sugestão é: descubram as emoções com os vossos filhos. Sugiro que explorem os livros que existem sobre as emoções, destinados às crianças, e devagarinho reflictam com elas sobre as emoções (deixo-vos alguns títulos na bibliografia deste texto). sem-titulo

Progressivamente, descobrirão que existe uma vasta lista de emoções, onde se incluem as emoções básicas e as emoções “combinadas”, como o exemplo de  Robert Plutchick.

Todos os dias podemos pôr em prática exercícios de identificar, regular e expressar as nossas emoções, procurar fazê-lo por palavras. Podemos até fazê-lo a observar os outros: tentar identificar com as crianças o que alguém (que observam na rua, ou através de fotografias) está a sentir.

“Diariamente, se promover a expressão emocional de toda a família, de uma forma espontânea e natural, o seu filho adquire um repertório emocional saudável e equilibrado, correndo menos riscos de transformar tristeza em zanga, culpa em agressividade, vergonha em inibição excessiva e frustração em raiva, adquirindo uma equilibrada capacidade de regulação emocional.”

Saber identificar emoções, é essencial para se construir uma personalidade saudável, equilibrada, bem resolvida. As emoções são naturais e amorais, existem por um motivo. Mas como seres racionais, o ser humano tem a capacidade de pensar antes de agir. Como tal, desvalorizar, ridicularizar, humilhar ou ignorar, não faz desaparecer uma emoção, mas prejudica muito quem sente essa emoção.

Aqui fica o video das três obras da Rita Castanheira Alves:

 

No âmbito da Psicologia, para os leitores mais interessados em aprofundar as teorias sobre as emoções (emoção e cognição), não poderia deixar de referir a obra A Psicologia da Emoção, de Kenneth Strongman.

E reflictam: preferem proteger(-vos) os vossos filhos de sentir? Ou preferem protegê-los dando-lhes todas as ferramentas da literacia emocional, tornando-os receptivos a conversar sobre qualquer emoção e sentimento vividos?

Partilhem as vossas experiências!

Até breve,

 

Joana Madureira

 


Bibliografia:

Rita Castanheira Alves (Psicóloga Clínica); Carla Nazareth (Ilustrações), 2015. Colecção Emoções: Filipe Feliz. Amadora: Booksmile e 20|20 Editora..

Rita Castanheira Alves (Psicóloga Clínica); Carla Nazareth (Ilustrações), 2015. Colecção Emoções: Maria do Medo. Amadora: Booksmile e 20|20 Editora.

Rita Castanheira Alves (Psicóloga Clínica); Carla Nazareth (Ilustrações), 2015. Colecção Emoções: Zé Zangado. Amadora: Booksmile e 20|20 Editora..

Strongman, Kenneth (1998). A Psicologia da Emoção. Lisboa: Climepsi Editores.

Artigo por Joana Madureira

Mulher e Mãe de duas crianças. Psicóloga, Formadora, Consultora de Recursos Humanos e Blogger Mentora da marca registada SCHOLA - Educar para a Felicidade.

Este artigo tem 2 comentários
  1. […] texto sobre Literacia Emocional, destaca que todas as emoções são importantes, mesmo aquelas que vulgarmente se apelidam de […]

  2. […] que tantas vezes nos faz “saltar a tampa” – este é um exemplo pelo qual a literacia emocional é tão importante: ajuda-nos a conhecermos as nossas emoções, a expressá-las de forma clara e a […]

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.