[psicologia] “Até que desapareceste.”

No último texto, escreveu-se sobre resiliência e em como a nossa história não determina o nosso destino. Mas, ainda assim, a nossa história marca o nosso futuro de alguma maneira.

Quando questiono sobre marcos do passado, é comum evocarem-me uma perda de algo ou alguém de referência. A morte, parece ser, ainda, um assunto difícil de se falar e lidar. Mas não tem de ser… proponho que sigam o raciocínio seguinte.

Faz parte da capacidade de resiliência de alguém, ser capaz de “processar” um determinado acontecimento e lidar com ele da melhor forma possível. Porquê? Veja-se desta perspectiva: ainda há vida pela frente. Se sobreviveu, dê novo sentido à sua vida.

Quem sobreviveu (ou sobrevive), de uma forma ou de outra, tem uma nova esperança, uma nova oportunidade de gerirmos da melhor forma o que nos foi dado. Por “dado”, pode mesmo ser uma ferida, uma supressão, uma emoção intensa. Mesmo que a dor de uma perda permaneça, ela existe por um motivo.

Porquê?!

Porque as emoções fazem sentido existir. Por mais que se apelidem de emoções positivas e emoções negativas, elas são essenciais para a nossa sobrevivência. Se dermos oportunidade às emoções negativas de serem reflectidas, conseguimos compreender as nossas necessidades e dali construir novos caminhos positivos, ou de conseguirmos perspectivar, de forma mais madura e construtiva, essas ocorrências.

É muito comum o termo: “podes desabafar”. Mas, nem sempre, quem sofre quer partilhar o que sente. Não quer… naquele momento sente que ninguém a entende. Ou às vezes não tem com quem partilhar, porque não encontra ouvinte que o escute, sem moral, sem receio nem desvalorização.

Pois bem… Às vezes basta apenas uma reflexão, de preferência escrita.

Não é por acaso que existem diários. Exactamente para que a pessoa possa expressar o que sente, sem ter necessariamente de partilhar com alguém, expondo-se. Porque as emoções podem ser muito íntimas, assim como o sofrimento de alguém.

Escrever, obriga o cérebro a processar e a criar associações, a criar um diálogo interior e a exteriorizar o que se sente. Esse texto, pode ser escrito no “calor da emoção”, ou mais tarde. Ainda assim, escrever é um exercício poderoso.

Adicionalmente, a escrita permanece. Palavras ditas, não. Com um texto escrito, podemos voltar a lê-lo momentos mais tarde e compreender se a nossa perspectiva mudou, se conseguimos assimilar a ocorrência de forma construtiva, ou se permanecemos iguais na dor.

Mas compreenda-se: só com este mero exercício, já se evoluiu ao proporcionar, a si mesmo, um ponto de situação.

Se, com isto, sente que evoluiu, conseguiu interpretar o acontecimento como uma “experiência útil” (estudos sobre a resiliência de Cyrulnik). Se sente que nada mudou, então será importante conseguir perceber porquê dessa “não evolução” e, acima de tudo, se prefere perpetuar nesse estado e com que valias para si.

Um texto muito especial

Na altura em que escrevi o texto o conceito de morte nas crianças, percebi que os adultos, são quem mais sente falta de terem tido uma conversa sobre a morte, quando perderam alguém na sua infância.

Percebi também que, actualmente, começa a existir uma preocupação crescente em procurarmos educar crianças emocionalmente resilientes. Todos passamos por perdas na vida, mas não temos de fazer disso um drama ou um trauma. Como pais, podemos falar sobre o assunto, ao ritmo da criança e das suas perguntas (e atendendo à idade).

“A morte não é para crianças”… quantas crianças são protegidas de uma perda, sem terem oportunidade de lhes ser explicado o que aconteceu, ou simplesmente lhes ser perguntado o que sentem com essa perda? O que sentem quando alguém, de quem gostam, simplesmente desaparece das suas vidas? E que sentimentos isso lhes traz (insegurança, medo, fúria, angústia, …)?

Um dos leitores do Bloga8, o escritor Hélder Magalhães, partilhou connosco um exemplo assim. Tinha 8 anos, quando perdeu um amigo adulto, uma pessoa de referência. Foi “protegido” e o seu amigo, simplesmente, desapareceu da sua vida.

Com esta partilha, lancei-lhe um desafio: reescrever o guião que tem da sua memória. Escrever! Este foi o resultado:

“Talvez fosse longe para as pernas e os pés de uma criança fazer o caminho do adeus. A ti, que me levaste de mão dada pelos caminhos de fazer crescer, que me sentavas no teu colo para que comesse do teu prato como se já fosse homem. Ensinaste-me tanto nesse teu jeito de me observares em silêncio, como se tudo fosse dito na doçura dos sorrisos traçados. A tua generosidade ia muito além do terreiro onde jogávamos à bola. Acho até que a minha simpatia futebolística chegou pelos altifalantes do rádio que colocavas sobre a mesa, para ouvires o relato; devia ter antecipado uns golos, para que tivesses ido a tempo de os ver. Depois, veio a doença. Nunca lhe soube o nome, ou, se o ouvi cair de alguma boca, o tempo tratou de o apagar da memória. Lembro-me de ir visitar-te algumas vezes: íamos na camioneta de carreira para a cidade, saíamos na paragem mais próxima do hospital e esperávamos a hora das visitas. Até que desapareceste. Nunca mais te vi. Deves ter-te cansado da doença, havendo um lugar algures que proporcionasse férias às pessoas que estivessem doentes há demasiado tempo.

 Partiste, e ainda hoje tenho a sensação de que nunca me cheguei a despedir de ti. A tradição era a de que as crianças deviam ficar a brincar com os amigos, num nundo de faz de conta, em vez de embater de frente com a realidade da morte de um ente próximo, da perda de alguém que nos abraçava todos os dias. Assim, no lugar da tristeza por saber que não mais veria aquele meu amigo, ficou o vazio de uma janela para o abismo do desconhecido, um buraco aberto que nunca foi preenchido. Um dia hei-de reencontrar-te e dizer-te adeus, em mãos plenas de dedos, como nas primaveras em que abríamos casas para que as assoalhadas tomassem ar, e eu te acenava debruçado sobre os parapeitos.”

Helder Magalhães

Com este texto, lanço um novo desafio.

A todos os que, até hoje, optam por guardar a memória de uma perda, num espaço bem remoto do seu cérebro, desafio: permitam-se sentir, reflectir e escrever. A dor geralmente permanece intensa quando não trabalhada, mas tende a enfraquecer se a usarmos a nosso favor e procurarmos algum sentido, sentimento ou ensinamento. Estes últimos podem dar paz ou permitir-nos reconsiderar que caminho a seguir, que objectivos atingir, que necessidades satisfazer (nossas ou de outros).

Se se sentirem confortáveis, atrevam-se a partilhar connosco: mail.bloga8@gmail.com

É bom ter-vos por cá. Como sempre, despeço-me com um até breve.

Joana Madureira

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Artigo por Joana Madureira

Mulher e Mãe de duas crianças. Psicóloga, Formadora, Consultora de Recursos Humanos e Blogger Mentora da marca registada SCHOLA - Educar para a Felicidade.

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