[psicologia] Resiliência – “A nossa história não determina o nosso destino”

Durante uma aula sobre educação positiva, dei por mim a reflectir sobre o conceito de resiliência e decidi escrever este texto.

Poderá considerar-se verdade que os pais de hoje, têm mais recursos e apoios para educar os filhos; também poderá ser verdade que, actualmente, e talvez mais que nunca, existe uma enorme preocupação sobre o que pode, ou não, ser psicologicamente “traumático” para as crianças (também podem ler, ou reler o texto sobre perda, luto e morte nas crianças aqui).

Não obstante, a história mundial enceta provas de acontecimentos avassaladores, mais frequentes no passado (como, por exemplo, genocídios em massa), mas cujas crianças da altura, conseguiram evoluir para adultos íntegros e integrados na sociedade.

Paralelamente, nos dias de hoje, também se observam crianças em grande sofrimento, perante acontecimentos que, aparentemente, nada se equiparam àqueles acontecimentos avassaladores do passado, que mencionei antes.

Então, porquê que o mesmo passado pode ter diferente impacto em duas pessoas; e o que tem a resiliência a ver com isto?

“A nossa história não determina o nosso destino”

A expressão é de Boris Cyrulnik e a sua história é o espelho da sua afirmação.

Cyrulnik nasceu em Bordéus (França) no ano de 1937, pouco antes de eclodir a II Guerra Mundial (1939-1945). A família de Cyrulnik era judaica e Boris assistiu a tudo o que caracterizou a era Nazi: os pais foram levados para Auschwitz. Cyrulnik escapou por pouco, mas a sua então família de acolhimento, entregou-o às autoridades a troco de uma pequena recompensa. Conseguiu escapar durante a viagem para o campo de concentração e trabalhou (ainda criança) incógnito numa quinta. Perdeu todos os seus familiares e apenas no fim da guerra conseguiu ser criado pela tia.

Cyrulnik estudou medicina na Universidade de Paris e formou-se em Psicanálise e Neuropsiquiatria, determinado a compreender os acontecimentos da sua própria vida. Dedicou a sua carreira maioritariamente ao estudo e tratamento de crianças traumatizadas.

Diversidade de reacções

Perante acontecimentos trágicos:

  • existem pessoas que se sentem perturbadas, não conseguem seguir em frente e precisam de ajuda profissional;
  • e existem outras pessoas que reagem de forma diferente, apresentando-se capazes de lidar com essa vivência, assimilando-a e seguem o decurso da sua vida.

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Fonte: adaptado de Collin et al. (2012).

O foco da pesquisa de Cyrulnik foi exactamente a diversidade destas reacções.

Tradicionalmente, pensava-se que as pessoas mais resistentes e resilientes eram as menos emotivas. No entanto, os estudos de Cyrulnik revelaram que as pessoas mais aptas a superar adversidades e situações (potencialmente) traumáticas da vida, são aquelas pessoas que conseguem encontrar sentido na tristeza, na dor, na perda (entre outras ocorrências), encarando essas vivências como “experiências úteis” e com as quais se pode aprender e até de (voltar a) rir.

“Os resilientes nunca perdem a capacidade de ver que as coisas podem melhorar no futuro, embora o presente seja doloroso”.

Hoje entende-se que a dor não é sentida de forma diferente entre as pessoas mais resilientes e as que não apresentam essa resiliência; a diferença reside, sim, na forma como cada uma daquelas pessoas decide assimilá-la e usá-la, mesmo que a dor possa persistir por toda a vida.

 Segundo o autor, a resiliência constrói-se através de relações e estamos sempre “a construir-nos” a partir das pessoas e das situações com que nos vamos deparando, das palavras que trocamos e dos sentimentos que experienciamos, sendo sempre possível começar de novo.

Dos seus estudos, Cyrulnik concluiu que a resiliência não é uma qualidade inata nas pessoas, mas algo que se constrói através de um processo natural. “Por si só, a criança não tem resiliência alguma (…), é uma interacção, uma relação” e, com o apoio adequado e se lhes for permitido (factor da esperança), as crianças são capazes de superar trauma, especialmente pela sua plasticidade cerebral tão característica. Relevo que uma das variáveis presentes nesta recuperação é o afecto.

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Resiliência

Não existe uma definição universal de resiliência, mas antes várias definições, todas elas válidas e complementares. Não obstante, a metáfora mais usada é a de uma bola de desporto (ou um elástico) que, por mais que se deforme com um impacto, volta ao seu estado inicial após o mesmo.

Em termos gerais, resiliência pode ser entendida como uma combinação de factores que propiciam ao ser humano oportunidade de enfrentar e superar adversidades, sem causar dano significativo, quer a nível psicológico, emocional e/ou físico.

No âmbito da intervenção psicológica em situações de crise, existem outras definições que importa considerar, tendo em conta que, para existir resiliência, é necessário assumir o contexto psicológico, mas também o contexto social (psicossocial). Pereira (2015) refere três:

Bonanno (2005, cit. por Pereira, 2015) – resiliência pode ter como sinónimo a capacidade de recuperação de uma pessoa, depois de experienciar um evento potencialmente traumático (crise), sendo capaz de processar e dar sentido àquela ocorrência, mobilizar os seus recursos internos para lidar com essa crise de forma bem sucedida (“recuperação rápida”).

Williams (2007, cit. por Pereira, 2015) – “capacidade da pessoa para, perante uma adversidade, uma ameaça ou um desafio, se adaptar – psicológica, emocional e fisicamente – razoavelmente bem e sem prejuízo duradouro para si, para o seu relacionamento com os outros ou para o seu próprio desenvolvimento como indivíduo”. Não significa ausência de problemas ou sintomas, mas sim a capacidade de se manter saudável não obstante contrariedades.

United Nations Office for Disaster Risk Reduction (UNISDR, 2009, cit. por Pereira, 2015) – entende resiliência psicossocial como “a capacidade do sistema, comunidade ou sociedade expostos a riscos de resistir, absorver, acomodar e recuperar dos efeitos dos riscos, de forma atempada e eficaz, nomeadamente através da preservação e restabelecimento das suas estruturas e funções essenciais”.

Considero igualmente interessante a referência de Manciaux et al. (2001, cit. por Pereira, 2015), ao facto da resiliência ser:

“um processo dinâmico e evolutivo que depende da natureza do trauma, do contexto e da etapa de vida das pessoas, e pode manifestar-se de diferentes maneiras consoante a própria cultura dos indivíduos”.

Crianças: entre o rótulo e a esperança

De volta ao autor Cyrulnik, este relevou a importância de não se rotular as crianças que passaram por experiências traumáticas, pois interferem na representação mental que têm dessa experiência e de si.

O trauma tem duas dimensões: o dano em si e a representação mental que se tem desse mesmo dano. Por essa razão, considera-se o factor chave para a resiliência o sentido de humor e as emoções positivas (como a presença de afecto).

Este autor demonstrou, nos seus estudos com recurso a imagens por ressonância magnética, que o cérebro de uma criança traumatizada pequena, apresenta os ventrículos e o córtex encolhidos. Mas, antes do primeiro ano de idade, se a criança receber apoio e carinho depois do trauma, o seu cérebro pode recuperar e voltar a valores normativos.

Por alguma razão é que, no âmbito da Psicologia, o estudo do conceito de resiliência encontra a sua orientação na Psicologia Positiva!

Espero que mantenham sempre a esperança, se alguma vez se depararem com um acontecimento potencialmente traumático, e saibam que existem sempre um sentido e uma saída para a dor sentida.

Atrevam-se a partilhar experiências, isso ajuda-nos a “crescer”. E é sempre tão bom receber o vosso retorno!

Despeço-me uma vez mais com um até breve

Joana Madureira

 


 

O conceito de resiliência na bibliografia

Este conceito terá surgido na bibliografia, pela primeira vez em 1920, com Sigmund Freud. Este autor defendia a ideia de que os traumas infantis, tinham impacto negativo no cérebro das crianças, prevalecendo este dano sobre qualquer factor genético, incluindo a eventual predisposição de resiliência psicológica;

A partir da década de 50, o conceito surge com maior enfoque, entre outros autores, com os Psicólogos Michael Rutter (Estados Unidos da América) e Emily Werner (Inglaterra). Esta última realizou um estudo longitudinal no Havai (acompanhou crianças traumatizadas durante 30 anos até à idade adulta), e cujos resultados evidenciaram que 80% das crianças cresceram positivamente, tendo-se tornado adultos competentes e bem integrados (Werner e Smith, 1982, 1992; cit. por Rodriguez, 2008) – um terço da população apresentava tendência para a resiliência. Estes estudos são ainda hoje um trabalho de referência.

Estas conclusões vieram contrariar a ideia inicial de Freud, não tendo sido encontrada evidência científica para crer que ocorrências (potencialmente) traumáticas constituíssem impacto negativo no cérebro da criança, e que uma criança que passa por essa ocorrência, não está necessariamente condenada a ser um adulto fracassado (Rodriguez, 2008, cit. por Pereira, 2015).

Em 1988, o Psicólogo John Bowlby, Psicólogo, Psiquiatra e Psicanalista conhecido pela sua teoria do apego e pelo seu trabalho na área do desenvolvimento infantil, propõe-se igualmente a estudar a resiliência.

As principais obras de Boris Cyrulnik, no âmbito do seu estudo sobre crianças sujeitas a traumas e o conceito de resiliência, são The Dawn of Meaning (1992); The Whispering of Ghosts (2004); e Resilience (2009).

Em 2007 o Governo do Reino Unido inicia o UK Resilience Programme nas escolas.

Em 2012 A Associação Americana de Psicologia (APA) cria um grupo de trabalho sobre a resiliência psicológica.

BIBLIOGRAFIA

Collin, C. et al. (2012). O Livro da Psicologia. Queluz de Baixo: Marcador Editora.

Pereira, M. (coord.) et al. (2015). Intervenção Psicológica em Crise e Catástrofe. Lisboa: Ordem dos Psicólogos Portugueses e Lisgráfica.

Artigo por Joana Madureira

Mulher e Mãe de duas crianças. Psicóloga, Formadora, Consultora de Recursos Humanos e Blogger Mentora da marca registada SCHOLA - Educar para a Felicidade.

Este artigo tem 3 comentários
  1. […] último texto, escreveu-se sobre resiliência e em como a nossa história não determina o nosso destino. Mas, ainda assim, a nossa história […]

  2. […] más”, porque todas elas trazem experiências úteis, tão necessárias ao factor da Resiliência. E muitas vezes precisamos de experienciar um pouco de tudo, para saber o que nos faz, realmente, […]

  3. […] mais difíceis na vossa vida. Nunca esqueçam o poder da nossa Voz Interior, da nossa capacidade de Resiliência e da Felicidade dos momentos que passaram […]

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