[psicologia] À descoberta da identidade: género e orientação

Há dias, chegou-me um pedido para escrever sobre identidade de género.

Tudo porque uma criança de 4 anos, do género masculino, quis imitar a sua mãe ao pintar os lábios de vermelho e um estranho lhe dirigiu palavras reprobatórias e ofensivas.

Dado este texto ser redigido na especialidade de Psicologia, naturalmente fiz recurso e referência a bibliografia especializada neste contexto. No entanto, este texto visa apenas esclarecer conceitos relativos e relacionados com sexo e género, simplificando algo que ainda é um “bicho de sete cabeças” para a sociedade, na tentativa de evitar que se estigmatize as crianças ao primeiro sinal de interesse por “coisas do sexo oposto”.

Consta do próprio Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais: DSM-V (revisão actual) da Associação Americana de Psicologia (APA), o seguinte:

A área que envolve sexo e género é altamente controversa e resultou em uma proliferação de termos cujos significados variam ao longo do tempo entre as disciplinas e dentro delas.”

Mas afinal, o que é a identidade de género? O que é a orientação sexual? E em que idade isso se define? Vamos por partes e definir conceitos.

Breve destrinça de conceitos

– “Sexo“: definição do sexo (género) com que nasceu. Contudo, a ciência evoluiu com a humanidade e sabe-se hoje que a identidade que uma pessoa tem de si (mesma), pode conflituar com o sexo com que nasceu (ou seja, definido através de indicadores biológicos). Daí que o Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM-V), da Associação Americana de Psiquiatria (APA) tenha decidido introduzir também a palavra “género”.

 – “Género“: conceito mais amplo que permite definir o género da pessoa, sem reduzir essa definição unicamente com base em indicadores biológicos (clássicos, como sendo a presença de genitais, ou seja, ao seu sexo, por exemplo), mas abrangendo também a sua identidade social e psicológica (onde se inclui: tom de voz, gestos, atitudes, roupas usadas pela pessoa, etc.).

– “Identidade de género“: de acordo com o DSM-V, é uma categoria de identidade social e refere-se à identificação de um indivíduo como homem, mulher ou, ocasionalmente, alguma categoria diferente de masculino ou feminino.

– “Orientação sexual“: é a tendência afectiva e sexual por outra pessoa, dependendo do género dessa pessoa. Ou seja, pessoa do mesmo sexo (homossexual); pessoa do sexo oposto (heterossexual) ou de ambos os sexos (bissexual).

Existe também a ausência de atracção por todos os géneros (assexual), mas ainda não há consenso se este conceito se constitui, ou não, como orientação sexual.  Faço apenas uma ressalva: o DSM-V menciona que “a divisão em subtipos com base na orientação sexual é removida porque a distinção não é mais considerada clinicamente útil.” Ou seja, ser “homossexual”, “heterossexual”ou “bissexual”, não teve relevância clínica para o efeito.

E desse lado do ecrã, alguém pergunta: “Mas… e aquele menino que pintou os lábios de batom vermelho? Com esta idade já pode ser considerado homossexual? É menina no corpo de menino? Não percebo!

Pois bem, não existe idade estanque para a definição de personalidade.

A personalidade é um constructo complexo, que vai evoluindo consoante a idade e as experiências vividas. Claramente que os primeiros anos de vida são um marco em termos de aprendizagem e aquisição de valores e crenças. No entanto, a formação da personalidade não se cinge a isto, nem tão pouco é total causa-efeito de determinadas vivências.

Sabe-se que, a partir dos 2 anos de idade, começa a ser mais visível alguns interesses gerais de uma criança, já que coincide com a altura em que ela descobre ter vontade própria, e que pode fazer prevalecer essa vontade própria sobre a vontade dos pais. É por isso que começam as birras (já ouviram falar dos terrible two?), o “não quero”, o “mas eu quero” e o “é meu”.

Mas, o facto de um rapaz querer experimentar um batom vermelho, não significa necessariamente que tem ou terá um género “cruzado”, ou venha a desenvolver uma orientação sexual diferente do seu género de nascimento. Significa apenas que aquele rapaz só está a explorar o mundo e a conhecer o que é estar no papel da mãe!

Para o diagnóstico de algo relacionado com  o que acabamos de falar, é preciso preencher um conjunto de requisitos frequentes e constantes no tempo, mas isso fica para os Psiquiatras e para os Psicólogos especializados na área clínica. E diagnóstico é muito diferente de preconceito!

É muito importante, senão essencial, deixar a criança experienciar o que a rodeia, havendo sempre o cuidado dos pais em explicar o que for necessário. O ideal é deixar ser a criança a lançar o mote, ou seja, ser ela a manifestar curiosidade em querer saber mais sobre algo. Muitas vezes é preciso experimentar para se saber o que gosta, ou o que não gosta, e compreender o que é estar “naquela” situação.

Naturalmente que a explicação de algumas regras de sociedade podem ser introduzidas, mas não há excepção sem regras. Por exemplo, em trabalhos supostamente de homens, existem mulheres, e vice versa. É importante deixar abertura suficiente para evitar que se crie dogmas e/ou confusões na cabeça da criança e, como pais, corrermos o risco de perdermos a legitimidade de “dizermos sempre a verdade“.

Um exemplo? Os meninos não usam saia… mas os kilts (saiote típico masculino) são usados na Escócia e os anúncios televisivos da William Lawson’s procuraram sempre imprimir sinónimo de masculinidade (lembram-se do “No Rules, Great Scotch”? Deixo aqui uma selecção de anúncios que incluem kilts!)

Quando as crianças chegam a adultos, trazem com elas conceitos enraizados que depois se tornam difíceis de mudar.

Um exemplo: um rapaz de 5 anos ser proibido de brincar com bonecas, mas que poderia constituir a simulação do papel de um pai adulto a nutrir o seu bebé/filho(a)/família; outro exemplo: uma menina de 8 anos não poder brincar com carrinhos ou construções, correndo o risco de poder mesmo condicionar o desenvolvimento da sua apetência por engenharia mecânica e todo um futuro brilhante nesta área, fruto do preconceito generalizado. Entre outros exemplos possíveis…

Noutra perspectiva, é interessante ver que os infantários (e os hospitais de dia, onde decorrem terapias), têm recantos (ou “cantinhos”, como lhes chamam”) definidos com diferentes papeis, e as crianças têm de passar obrigatoriamente por todos eles durante a sua semana de trabalho.

Eis um exemplo da organização de uma sala de infantário (creche ou pré-escolar):

Área da casinha – pode ter como objectivos:  imitar o real (o que existe nas nossas casas quotidianamente) e estimular o imaginário (“faz-de-conta”) e até expressão dramática (ao encarnar personagens); potenciar a aquisição de hábitos de organização e arrumação; estimular a partilha e socialização; desenvolver a destreza manual, motricidade fina; e favorecer o desenvolvimento da expressão corporal e oral; entre outros.

Área da biblioteca – pode ter como objectivos: aprender a manusear um livro, perceber a sua importância; estimular o gosto pela leitura (directa ou indirecta); estimular a concentração e a atenção na hora de contos (saber estar, saber ouvir); aprender a fazer sinlêncio; estimular a criatividade e fantasia; aprender novas palavras; potenciar a capacidade de raciocínio; estimular a memória visual e auditiva; entre outros.

Área dos jogos – pode ter como objectivos: desenvolver a motricidade (grossa e fina) e destreza manual; desenvolver o raciocínio lógico e a capacidade de resolução de problemas; estimular a compreensão de regras; estimular a imaginação e a criatividade; desenvolver a capacidade de atenção e concentração; estimular o desenvolvimento da autonomia; estimular a partilha; entre outros.

Área de carros e construções – pode ter como objectivos: iniciar a aquisição de conceitos matemáticos; desenvolver a motricidade (grossa e fina) e destreza manual; desenvolver o raciocínio lógico e a capacidade de resolução de problemas; desenvolver a noção de espaços e formas através da manipulação e encaixes; estimular e desenvolver a coordenação óculo-motora; estimular o desenvolvimento da autonomia; estimular a partilha; entre outros.

É através da imaginação, que as crianças experimentam o que é ser adulto e desempenham papéis pré-estabelecidos (por exemplo, cozinhar, ou lavar, ou arranjar o carro), sendo-lhes permitido criar o seu próprio guião. É com esse guião que o cérebro desenvolve! Estimula o seu raciocínio, as analogias, a criatividade em contornar situações inesperadas, em interiorizar papéis e regras sociais (como ir às compras e pagar a conta, por exemplo) e reviver na sua imaginação aquele papel de maneiras diferentes, permitindo saber com o que se identifica e com o que não se identifica.

Para concluir: ninguém se torna (identidade) homossexual por contágio ou aprendizagem. A bibliografia e a comunidade científica têm tido evidências no sentido oposto. E deixo uma boa notícia:

“Um desenvolvimento saudável não depende da orientação sexual dos pais, mas sim da qualidade da relação entre pais e filhos e dos vínculos de afecto seguros que se estabelecem entre eles.”

Quem o escreve é a Ordem dos Psicólogos Portugueses, no seu Relatório de Evidência Científica Psicológica sobre Relações Familiares e Desenvolvimento Infantil nas Famílias Homoparentais, de Julho de 2013, (também o podem ler aqui).

Curiosidade: mudanças na Psiquiatria

O DSM é um manual com cerca de 60 anos de existência e já vai na sua 5ª revisão. É um manual amplamente utilizado por profissionais da saúde mental, incluindo Médicos Psiquiatras e Psicólogos. Neste manual, também é bem patente a história (e evolução) do tema da sexualidade (sexo e género), com especial destaque para a homossexualidade.

Até 1973, a homossexualidade era considerada um transtorno mental, altura a partir da qual se “normalizou” este conceito (simplificando, entenda-se norma como frequência ou número de casos observados).

No entanto, até 1986 ainda era possível encontrar a perturbação relacionada com “homossexualidade egodistónica” que se referia à angústia de que padece um homossexual, pelo facto de o ser.

Desde então, e até 2012, o capítulo referente passou a intitular-se “transtornos sexuais e da identidade de género”.

Mas as mudanças não se ficaram por aqui. Em paralelo com clamores crescentes, cujo argumento mais recorrente era a importância de “despatologizar” da homossexualidade, em 2012 realizou-se a 5ª revisão do DSM-V e com ela novas mudanças no âmbito da identidade de género. Aproveito para introduzir aqui outro conceito:

– “Disforia de Género“: nova nomenclatura do DSM-V, que se refere ao “sofrimento que pode acompanhar a incongruência entre o género experimentado ou expresso e o género designado de uma pessoa“.

Repare-se na expressão anterior “que pode acompanhar” – pois, apesar de existir incongruência entre sexo e género na mesma pessoa, existem pessoas que não sentem desconforto significativo, ou seja, “sofrimento clinicamente significativo ou a prejuízo no funcionamento social, académico ou noutras áreas importantes da vida do indivíduo“; e existem outras pessoas que sentem esse desconforto; algumas pessoas conseguem cessar esse desconforto por via de tratamentos hormonais ou cirúrgicos (se os existirem), sentindo que têm a possibilidade de “repôr” um “erro da natureza” (assim referido por algumas pessoas, no sentido de explicar que estão num corpo que não é delas).

De acordo com aquele manual, “O termo atual é mais descritivo do que o termo anterior transtorno de identidade de gênero, do DSM-IV, e foca a disforia como um problema clínico, e não como identidade por si própria.”

Sugiro também que visitem este texto do site Oficina de Imagens. E, por fim, já viram o filme The Danish Girl? Partilhem as vossas experiências e vivências!

Sejam felizes na vossa pele. Até breve!

Joana Madureira

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American Psychiatric Association (2014). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais [recurso eletrónico]: DSM-V. 5ª Ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

http://www.dsm5.org/documents/gender%20dysphoria%20fact%20sheet.pdf

https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/relataorio_de_evidaancia_cientaifica_psicolaogica_sobre_as_relaa_aoes_familiares_e_o_desenvolvimento_infantil_nas_famailias.pdf

 

Artigo por Joana Madureira

Mulher e Mãe de duas crianças. Psicóloga, Formadora, Consultora de Recursos Humanos e Blogger Mentora da marca registada SCHOLA - Educar para a Felicidade.

Este artigo tem 0 comentários
  1. […] dão à criança de usar a sua imaginação, de brincar ao “fazer de conta”. Num outro texto, expliquei como as crianças experimentam, através da imaginação, diferentes papéis, […]

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