[psicologia] Horários e rotinas: uma ajudinha por favor!

O ano lectivo ainda agora começou e nós pais, já estamos de cabelos em pé.

É que mesmo sabendo da importância das rotinas e tendo em consideração as sugestões para preparar os miúdos para o início das aulas, os filhotes teimam em desafiar o relógio, a paciência dos pais e a insonorização das paredes (e até a “cusquice” de alguns vizinhos que não resistem a vir escutar à porta).

Claro que as crianças mais velhas terão já alcançado estrutura para internalizar as regras lá em casa, sendo mais fácil conversar com eles. No entanto, com crianças mais novas, especialmente até aproximadamente os 5 anos, as coisas não são definitivamente simplificadas, como já se explorou neste artigo (cérebro em constante formação, auto-controlo e auto-regulação).

As crianças assimilam a realidade e a forma de funcionar do mundo, através da brincadeira e do faz-de-conta. Para além de ser uma forma mais simples de testarem o “como se faz”, também permite às crianças brincar ao seu ritmo, no seu dialecto, no seu mundo imaginário, introduzindo à sua maneira o que aprende da “nossa” realidade. Mas não só… todas as crianças têm o seu ritmo, umas têm menor facilidade de apreensão que outras e algumas têm maior dificuldade devido a perturbações associadas (por exemplo, Autismo, Disturbio de Hiperactividade e Défice de Atenção, Alterações do Processamento Sensorial, entre outras).

Mas independentemente das particularidades de cada criança, para todos os casos existem algumas sugestões muito simples para ajudar a voltar à rotina, que partilho convosco:

– Antes do início das aulas (na semana anterior), todos os dias, escolhia um momento calmo e prazeroso do dia para descrever as mudanças que iam ocorrer quando as aulas começassem. Descrevia as tarefas principais de forma simples e sucinta;

– O fim de semana prévio ao regresso às aulas, em que lhe chamamos os dois “dias para praticar“, implementamos o horário aproximado àquele que teríamos quando as aulas começassem. Pratiquei e ajudei-os a praticar as rotinas essenciais, demonstrando com o meu exemplo (como, por exemplo, escolher a roupa do dia seguinte!). Dica: mesmo que as aulas já tenham começado, nunca é cedo para implementar esta sugestão e proporem-se a começar de novo.

Incentivar a autonomia deles na hora de vestir e praticar todos os dias o despir a roupa e vestir o pijama, na hora de ir dormir, ajuda as crianças a praticar e aperfeiçoar a sua motricidade e celeridade para o dia seguinte. Os pais devem ter o cuidado de escolher roupas práticas, velcros e elásticos, pois até aos 6 anos vestir-se sozinho pode ainda ser um grande desafio.

Claro que, até o corpo se reajustar do horário das férias, existe a forte probabilidade de ocorrer um desfasamento entre deitar e adormecer, mas acordá-los à hora certa no dia seguinte, ajudava-os a compreender que o extremo sono da manhã se devia ao deitar tarde na noite anterior e que nesse dia tinham a oportunidade de fazer melhor;

– Por fim, mas não menos importante, a presença de ilustrações! A vida dos adultos é muito complexa e nós (adultos) tendemos a ditar muitas regras e a falar muito… por isso, para além de simplificar a tarefa e praticar com eles, realizamos uma tabela ilustrativa das principais tarefas do dia (quadro de cortiça passível de mudar e introduzir actividades). A introdução do relógio digital (o nosso tem um led colorido) ao lado do quadro de tarefas, ajudou. Aqui fica a fotografia do nosso trabalho¹:

dica-rotina

Para que a implementação das rotinas resulte, é necessário envolver os miúdos na definição de actividades e responsabilizá-los pela sua concretização. Por exemplo, se a criança quer ler um livro ou receber uma massagem para adormecer, pressupõe que a mesma (geralmente a partir dos 3 anos) perceba que tem de fazer um esforço e cooperar com os pais para estar na cama até às 21h30 (por exemplo), para que essa actividade seja realizada.

Se a criança faz uma valente birra e 50 minutos depois a criança quer o cumprimento da actividade, os pais deverão transmitir de forma firme mas num tom o mais calmo possível que não lhe farão a vontade e a opção foi da criança (escolha e consequência). No dia seguinte, tem uma nova oportunidade de fazer melhor, cumprindo o horário, para que a actividade se realize como combinado entre os pais e a criança.

Sou apologista das birras terem consequências lógicas (e não castigos sem ligação à birra em questão). Mas para as consequências fazerem sentido para a criança, deve haver um acordo prévio entre pais e filhos, onde a criança é envolvida na definição das actividades (por exemplo, a escolha de um jogo depois do jantar, ou qual o livro para ler ao deitar).

No decorrer da birra, deve ser dada duas opções à criança e três tentativas para que a mesma possa se acalmar e fazer a sua escolha. Por exemplo: abrandar a birra = escolha; não ter a massagem = consequência.

  • “Se te acalmares e falares comigo (sem choro), podemos conversar um bocadinho sobre o que sentes. (Não tem a massagem mas) Amanhã terás uma nova oportunidade para te deitares mais cedo e receberes a tua massagem“.
  • (Se a criança continuar a chorar) “Bom, vejo que estás muito nervos@. Talvez precises de desabafar um pouco. Se quiseres, dou-te um abraço muito forte para acalmares. Quando quiseres, vem ter comigo.” (e afasta-se um pouco da criança para desincentivar a birra, sem contudo se ausentar do mesmo espaço da criança).

MESMO nos dias de birra, e após se acalmarem (ou darem sinal de “tréguas”), a criança merece afecto (um abraço forte, por exemplo) e os pais devem transmitir que a continuam a amar incondicionalmente.

Dica: tem de haver muita força de vontade e muito auto-controlo por parte dos pais. A médio prazo, a criança percebe que os pais não cedem à birra e que a consequência foi fruto da sua escolha (da criança). Estudos demonstram que os efeitos nem sempre são imediatos, mas são duradouros e contribuem para a auto-estima das crianças e o vínculo com os seus pais.

E fica aqui uma última Dica: para aqueles miúdos cuja especialidade é desafiar os pais, devem procurar mesmo respirar fundo e desfocá-lo como se não houvesse amanhã. Isto permite evitar confronto directo e desvalorizar as suas tentativas de chamar a atenção da pior forma possível…

Acreditem, as crianças que chamam a atenção da pior forma, são as que mais precisam da nossa ajuda, mas não sabem como a pedir. Pensem nisso com carinho e acreditem que é possível educar para a felicidade.

 

Até breve!

Joana Madureira


¹ http://ensinar-aprender.com.br/2014/01/plaquinhas-regras-combinados-e-rotina.html

Artigo por Joana Madureira

Mulher e Mãe de duas crianças. Psicóloga, Formadora, Consultora de Recursos Humanos e Blogger Mentora da marca registada SCHOLA - Educar para a Felicidade.

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