[psicologia] O (super) bebé que se carrega no ventre

A gravidez é considerada uma herança e um tesoura da humanidade.

Os pais e as mães, quando estão “grávidos”, têm, a partir desse momento, uma caminhada de aproximadamente 40 semanas para ler tudo, em teoria, sobre as etapas da gestação e os cuidados a ter após o nascimento. A atenção torna-se selectiva e tudo gira em torna da gravidez e do parto.

Mas este texto foca-se no bebé (um super bebé!) ainda dentro do útero (feto, portanto), e em todas as suas capacidades e aprendizagens que já faz, mesmo antes de ter nascido. Sabem quais são?

Sim, neste texto, o bebé por nascer é o protagonista, o actor principal, o (super) bebé que se carrega no ventre!

O bebé que ainda não nasceu: o (super) bebé

Ainda não existem estudos que comprovem, de forma inequívoca, que tudo o que o bebé vivencia a nível psíquico no útero da mãe, constitua uma “pré-história afectiva e cognitiva daquilo que viverá mais tarde” (Mazet e Stoleru, 2003).

No entanto, existem estudos inequívocos que confirmam a existência de relações orgânicas entre o feto e o exterior, e a existência de sensorialidade no feto, na certeza de que é o cérebro quem processa as informações sensoriais.

Ao compreendermos um pouco mais sobre estas capacidades e aprendizagens sensoriais e cognitivas do feto, também conseguiremos perceber um pouco mais sobre o comportamento do bebé e as relações emocionais geradas entre mãe e filho (durante a gravidez e após o parto).

As capacidades sensoriais do (super) bebé

Audição sem dúvida, é dos sentidos que alimenta a maior parte das relações do feto com a sua mãe e pai (ou seja, do bebé no útero com o exterior). Em termos anatómicos, está cientificamente comprovado que o bebé é capaz de ouvir a partir do 5º mês de gestação. Estudos demonstram que os sons ouvidos com maior nitidez pelo bebé, são os ruídos viscerais e vasculares. Por essa razão é que os bebés recém-nascidos tendem a silenciar qualquer choro (acalmam instantaneamente), quando ouvem sons similares aos ruídos acima referidos.

Já os barulhos exteriores, chegam ao feto de uma forma mais atenuada, havendo evidências para acreditar que os sons mais agudos atravessem o líquido amniótico de forma mais facilitada que os sons mais graves. Sons como a voz humana e música, são os mais facilmente identificáveis pelo feto, já que possuem uma modulação diferenciada dos restantes ruídos do exterior.

No entanto, e apesar do canal auditivo estar preenchido por líquido amniótico e mesênquima embrionária (células em fase de “transformação”), o ouvido do bebé não está totalmente protegido de traumatismos auditivos in utero:

Estudos epidemiológicos parecem mostrar que a exposição de futuras mães a níveis de ruídos importantes durante toda a gravidez (nível médio 100 dB [décibeis] numa fábrica de têxteis) produz deficiências auditivas nas crianças. (…) estudos experimentais (…) mostram que ruídos intensos, que não produzem efeitos sobre a audição adulta, provocam traumatismos auditivos irreversíveis se forem emitidos num período que principia com a entrada em funcionamento da cóclea, ou seja, mais ou menos após 20 semanas de gestação no humano“. (J.-P. Lecanuet et al., apud Mazet e Stoleru, 2003).

Mas para além da capacidade de audição, existem estudos com evidências para afirmar que o feto desenvolve um certo grau de reconhecimento e aprendizagem a partir destes estímulos auditivos, durante a sua gestação no útero, fruto de uma possível “habituação pré-natal aos barulhos exteriores“, como a música e certos ritmos:

Murooka, depois de ter realizado uma gravação dos ruídos intra-amnióticos, difundiu essa gravação a um nível de 80 dB [décibeis] a bebés que choravam à espera da mama; esses sons provocavam a paragem dos choros e dos movimentos dessas crianças em 86% dos casos, e isso ao fim de 20 a 28 segundos. O efeito dessa gravação, comparado com o de diferentes sons testemunhos, poderá ser o indício do reconhecimento pós-natal de sons ouvidos in utero.”

Por isso, é comum sugerirem aos pais para cantarem uma mesma canção, ou contarem uma mesma história durante a gravidez e repetirem-na após o nascimento quando, por exemplo, estão a alimentar os seus bebés. Alguns autores acreditam que os bebés manifestam a sua preferência, ou reconhecimento, pelo modo como fazem a sucção quando são amamentados e/ou alimentados ao biberão!

Paladareste sentido tem uma importância indiscutível após o nascimento, já que está directamente relacionado com a amamentação e alimentação (acto e efeito). Interessantes são os estudos de S. Nicolaidis et. al (1989, apud Mazet e Stoleru, 2003), que tentaram testar as preferências de sabor (em especial pelo doce) que alguns bebés aparentavam ter in útero e logo após o seu nascimento:

fez-se a experiência de adoçar o líquido amniótico e pôde-se observar que o feto mamava mais e, ao que parece, engolia uma maior quantidade de líquido [adoçado]”.

Já a “apetência ou a preferência pelo salgado pode variar muito entre irmãos, conforme a mãe da criança vomitou muito (ou não) durante a gravidez, o que provoca (ou não) uma hiperprodução de angiotensina, hormona que gere a circulação sanguínea, por ventura a retenção do sal e, enquanto neuropéptido, aumenta a sede e a apetência pelo sal“.

Incrível, não acham?

Tactoos (super) bebés parecem perceber bem os contactos que têm do exterior, através da parede abdominal e do útero. A partir do 7º mês de gravidez, se a mãe colocar um livro pesado sobre a sua barriga, o feto perceberá essa pressão e tenderá, com elevada taxa de probabilidade, a mover-se com os braços e as pernas, no sentido de afastar esse peso que o incomoda! Esta evidência foi descoberta na Holanda por Veldman, quando este se encontrava a desenvolver a haptonomia – técnica que permite à mãe (e ao pai) tocarem no seu bebé ainda no útero (estimulando o contacto afectivo) através das paredes abdominal e uterina (através da barriga da grávida), aprendendo a acariciar o seu feto, e permite também ao feto ser acariciado.

Os variados meios de observação ou de gravação dos movimentos fetais (como a ecografia, por exemplo), vieram possibilitar saber o que se passa dentro da barriga da grávida. Através destes meios pôde-se confirmar que a motricidade do bebé in utero varia muito consoante a sua fase gestacional e estado de vigília (ou sono), que intensificam e amadurecem no último trimestre de gravidez. Por esse motivo, é tão comum assistir a reflexos de orientação bucal, como “chupar no dedo”, já que contactos entre a mão (ou o pé) e a boca, se podem dar à medida que os movimentos se intensificam.

Olfacto e VisãoO comportamento intra-uterino do bebé é passar a maior parte do tempo a dormir, enquanto o seu corpo se encarrega de trabalhar arduamente na perfeição das células, órgãos e afins. Mas o bebé, envolto em líquido amniótico, ainda não cheira (as cavidades estão repletas daquele líquido) e raramente abre os olhos (e quando os faz, está escuro).

A verdade é que um bebé de termo, sem problemas detectados durante a gravidez (como mal formações, por exemplo) e em condições normais (dentro da norma, ou seja, o que acontece com a maioria da população no mundo), o bebé nasce extremamente bem apetrechado em termos de aparelho visual e olfativo, ao ponto de reconhecer os seus progenitores pelo cheiro e pelo seu vulto (figura pouco nítida).

 Por sua vez, a visão progride de uma forma mais lenta, mas os órgãos responsáveis (os olhos) estão perfeitamente formados e capacitados para passar pela fase de adaptação ao meio ambiente, estádios de desenvolvimento da criança e maturação anatómica dos próprios órgãos.

Sabiam que o alcance visual (ver do perto ao longe) do bebé, aumenta à medida que cresce? E esse aumento progressivo do alcance visual, aumenta de forma independente mas muito convenientemente em harmonia com a capacidade do bebé em descobrir de forma mais complexa o que o rodeia?

Por exemplo, nos primeiros meses, o bebé só vê com clareza a poucos centímetros de distância dos seus olhos, vendo vultos mais ao longe. Isto permite-lhe assimilar um objecto de cada vez para o seu cérebro processar de acordo com o seu estádio de desenvolvimento. À medida que o bebé cresce e se torna mais activo, tem capacidade de se mover sozinho, manusear objectos e procurar em redor o que quer explorar a seguir. Quando o seu alcance visual se torna mais longo, a assimilação de mais imagens acontece (vê muita coisa ao mesmo tempo com nitidez) e o processamento cerebral complexifica!

Por isso é tão importante o rastreio visual entre o primeiro e o segundo anos de vida: para evitar comprometimento do desenvolvimento cognitivo do bebé. A ida a um médico oftalmologista pediátrico nestes dois primeiros anos é aconselhável, e o Serviço Nacional de Saúde (SNS), em 2016, já chamou os primeiros bebés para rastreio visual no Norte do País.

Ciclos de actividade do (super) bebé

Noutro texto já se escreveu sobre ciclos circadianos (podem reler aqui). O ciclo circadiano no adulto faz-se em função das 24h, regulado pela alternância do dia e da noite. O que ainda não vos tinha escrito é que o bebé no útero, tem um ciclo de actividade (ritmo) bem diferente do da mãe, (já que o feto dorme a maior parte do tempo) e variam de bebé para bebé. Estes ciclos de actividade só começam a adquirir alguma estabilidade na altura do parto.

Já depois do nascimento, um recém-nascido de termo, (ou seja, a partir das 37 semanas) apresenta um ciclo de actividade “ultradiana” de cerca de 4h (contra as 24h dos adultos). Pois! Isto dá em pais cheios de sono!

A psique do (super) bebé

O estudo da psique nos fetos, vê-se dificultado por inúmeras limitações, sendo uma delas a inexistência de expressão oral articulada e perceptível. No entanto, é inegável que possa existir uma interferência psicológica (indirecta) da vivência do feto, por via das relações orgânicas entre a mãe e o feto, já que ambos estão ligados pela corrente sanguínea e interligados por “intermediários humorais e neurovegetativos” (fisiológicos).

Estudos revelaram que a vida emocional da mãe (com quem os fetos estão fisicamente e fisiologicamente ligados), têm efeitos sobre o bebé no útero.

Sontag (1965, apud Mazet e Stoleru, 2003), realizou um estudo longitudinal prolongado com mulheres grávidas, tendo reunido evidências entre o aumento e a intensidade da actividade motora do feto, e o momento em que as mães eram sujeitas a eventos traumáticos ou de elevado stress psicológico (por exemplo, uma doença grave ou falecimento do marido, não descartando outros casos); ou até de hemodinâmica (alterações relacionadas com a corrente sanguínea); com comportamentos visíveis nos bebés após o seu nascimento (por exemplo, tornarem-se bebés hiperexcitáveis, muito mexidos e irrequietos).

Assim, conclui-se que não existem provas inequívocas de que exista, no feto, uma construção nmésica (memória) durante a gravidez, nem se sabe concretamente o que é que o bebé sente na sua vida in utero. No entanto, a interacção entre a actividade do bebé no útero e a actividade da sua mãe, são reais.

Não obstante, deve-se salientar que o feto – o (super) bebé deste texto – se distingue da mãe (e do pai, sem nunca deixar de se parecer com ambos pela genética), não só pela sua própria dinâmica de maturação, como também pelo seu grau de autonomia e desenvolvimento absolutamente avassalador, equiparado a um super-herói-bebé!

Já tinham pensado no trabalho que o vosso bebé faz sozinho, dentro da barriga da mãe?

Depois desta breve viagem pelas capacidades e aprendizagens sensoriais e cognitivas do feto e das muitas interacções com a mãe (e pai), espero que gozem bem a vossa gestação como se tivessem (literalmente) o rei (ou a rainha) na barriga ♥

Tudo a correr bem e até breve!

 Joana Madureira

 


Mazet, P.; Stoleru, S. (2003). Psicopatologia do lactente e da criança pequena. Lisboa: Climepsi Editores.

Artigo por Joana Madureira

Mulher e Mãe de duas crianças. Psicóloga, Formadora, Consultora de Recursos Humanos e Blogger Mentora da marca registada SCHOLA - Educar para a Felicidade.

Este artigo tem 0 comentários
  1. Anónimo diz:

    Adorei! Muito esclarecedor 👍

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.