[psicologia] Brigas e rivalidade entre irmãos

Se é um facto que um filho único não tem irmãos para brigar, já dois são ingrediente suficiente para fazer uma briga. A rivalidade surge quando um pretende superar o exemplo do outro.

Geralmente, a rivalidade consciente não é habitual nos primeiros anos de vida, ainda que seja uma atitude passível de ser aprendido e incentivado pelos adultos de referência. Já as brigas surgem desde cedo.

As brigas entre irmãos (ou qualquer outro grau de parentesco ou relacionamento) deve-se, geralmente, à tentativa de ambas as partes fazer prevalecer a sua vontade. Outras vezes, as brigas podem ser despoletadas por ciúmes ou necessidade de chamar à atenção, nem sempre da forma mais adequada, mas, definitivamente, a mais célere no resultado: quando os nossos filhos gritam ou se pegam, não largamos tudo para saber o que se passa? Geralmente.

Antes de mais, é prioritário que não se incentive a rivalidade entre filhos. Rivalidade é sinónimo de concorrência, ciúme, emulação e, entre irmãos, pode ser um caminho nefasto a tomar, com prejuízo para a família. Rivalidade pressupõe vitória de alguém, alcance da satisfação pessoal com vista ao desmerecimento de outro. E, quero acreditar, não ser nesse conceito que queremos ver os nossos filhos no papel de irmãos.

Perante uma briga, é muito importante que os pais saibam o momento que devem intervir, mas também saibam qual o melhor momento para não intervir. As crianças também precisam de espaço para se conhecerem e conhecerem o irmão, sem terem necessariamente os pais sempre presente como árbitro. Se, por um lado, responsabiliza as crianças e lhes dá oportunidade de lidarem sozinhos com as brigas, por outro lado, também liberta os pais do constante “oh pai/oh mãe” e-lá-vem-o-queixume-que-os-pais-agora-têm-de-tomar-partido-de-um-dos-lados.

Quando os pais entendem que é oportuno a sua intervenção, sugiro que usufruam dessa oportunidade para darem espaço a ambas as crianças para explicarem a sua versão das coisas (sem se interromperem, apenas explicarem o que interpretaram e o que sentiram). Mais do que descobrir de que lado está a razão, o mais importante é poder conhecer a forma como os nossos filhos interpretam os acontecimentos, estimular-lhes a narrativa e a contra-argumentação, mas também proporcionar à outra parte aprender a aceitar um ponto de vista diferente do seu, trabalhando a empatia.

Dica: ajude a criança a reconhecer quais os actos que a deixaram consternada, ajudando-a a diferenciar o “não gosto do meu irmão” do “não gosto quando o meu irmão faz isto-ou-aquilo” – esta forma de comunicar diminui a necessidade do outro se defender e faz toda a diferença na relação que temos com o outro. Nem sempre sabemos distinguir, distanciar e exprimir emoções momentâneas de sentimentos duradouros (oportunamente escreverei sobre literacia emocional).

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Para diminuir a probabilidade de rivalidade entre filhos, há um conjunto de dicas para os pais, algumas adaptadas da autora Vicki Lansky:

Justiça e Equidade

– Certificarmo-nos que os nossos filhos têm direito aos seus próprios pertences (sempre que possível). Torna-se difícil quando tem de haver partilhas de objectos quotidianamente, ou quando não há definição clara do que é de quem e em que momento;

– Quando existem dois objectos iguais, devemos procurar que tenham cores distintas ou marcas que permitam diferenciar, evitando discussões sobre perdas, estragos ou afins;

– Nunca devemos usar adjectivos que fragilizam a imagem da criança e sirvam de tomada de partido. Palavras como “egoísta”, “feio”, “mau”, “invejoso” devem ser proibitivos. Muitas vezes repetidas, estas (e outras) palavras tornam-se no conceito que a criança terá de si própria e não ajuda a tornar-se num adulto melhor. A humilhação não deve ser estratégia;

– Quando os nossos filhos lutam pela mesma coisa, devemos procurar averiguar quem cede a vez. Se não funcionar, informe quem pegou primeiro no brinquedo: “quando terminares, por favor empresta-o ao teu irmão. A seguir é a vez dele “. Por um lado, não obriga a criança a ceder imediatamente o brinquedo, evitando toda a ansiedade associada, e ao mesmo tempo fica a saber que o irmão está à espera. O que ele fizer, poderá ter a mesma reciprocidade do seu irmão, quando estiver à espera de vez para brincar;

– Em casos mais complicados (fazem de propósito para se demorarem naquele objecto), pode ser necessário recorrer a um temporizador para elucidar tempos de utilização, mas mantendo a situação ligeira e com recurso ao humor, ou explicar de forma sincera que têm apenas “y” tempo para brincarem e ambos merecem oportunidade de utilizarem o objecto;

– Caso seja uma tarefa de execução única, podemos dividir tarefas: um corta o pão, o outro escolhe a parte que quer; um verte o molho, o outro mexe…; esporadicamente podemos determinar a vez de alguém com uma brincadeira do “cara ou coroa” (ou similar), mas devemos certificar que a brincadeira é inócua, já que não se deve atribuir, por sistema, a equidade a um acto aleatório, na possibilidade de haver quem beneficie mais do que o outro.

– Para crianças um pouco maiores, já com vontades próprias e conceitos mais definidos de equidade, podemos definir o dia de cada um decidir determinadas tarefas (o jantar, por exemplo, ou o primeiro a fazer algo);

Mudança e desfoque

As próximas dicas, tendem a funcionar melhor com crianças de menor idade, mas também são úteis para os mais velhos, com os devidos ajustes (consoante as características de cada filho):

– Às vezes a falta de novidade levam a saturação. Sugerir uma nova actividade, pode ser suficiente para cessar uma briga em decurso;

– Tentar desfocar e distrair uma das crianças, por exemplo, dizendo que precisa da sua ajuda para cozinhar, costuma funcionar;

– Peça aos seus filhos para dizerem cinco coisas simpáticas sobre o outro. Elogio mútuo pode ser “amolecedor” de brigas;

– Para crianças mais velhas, podemos trocar as regras do jogo, pedindo que expliquem o que o irmão se estava a queixar e o que queria, e vice-versa;

– Para crianças mais velhas, podemos pedir que sugiram soluções, em que fiquem ambos satisfeitos com o resultado;

– Procure não incentivar chamadas de atenção dos seus filhos por meio de brigas. Opte por mencionar que prefere falar com eles apenas quando estiverem mais calmos;

– por vezes, em casos extremos, pode ser necessário tirar o objecto que motiva a disputa. Se for algo de muita estima para ambos, deve-se calmamente dizer que apenas poderão voltar a usar aquele objecto, se previamente definirem os termos e vezes de uso entre si, cumprindo-os. Isso incentiva a que ambos procurem sozinhos uma solução;

Dica: como pais, não temos de tomar partidos, podemos apenas ajudá-los a pôr por palavras os sentimentos que estão a sentir e ajudá-los a gerir a situação. E nunca nos devemos de esquecer: procurarmos falar com os nossos filhos da mesma forma que gostamos que falem connosco. Leiam (ou releiam) o texto Porque GRITAMOS tanto.

Até breve!

Joana Madureira

 


BIBLIOGRAFIA:

Lansky, V. (2014). 1500 Dicas Práticas para Pais: Tudo o Que Precisa Saber Sobre os Seus Filhos. Amadora: Vogais – 20|20 Editora.

Artigo por Joana Madureira

Mulher e Mãe de duas crianças. Psicóloga, Formadora, Consultora de Recursos Humanos e Blogger Mentora da marca registada SCHOLA - Educar para a Felicidade.

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