|Sou menos mulher por causa disso?|

[este texto contém ironia e linguagem imprópria para crianças] Todos os dias, milhões de mulheres no mundo são criticadas, julgadas e humilhadas por não seguirem um “padrão” de mulher. Esse padrão que eu ainda não percebi muito bem. O que é, para que serve e sobretudo se as que o seguem se são realmente felizes.

Este texto também poderia estar incluído na categoria “há coisas que me tiram do sério” mas era dar ao assunto pouca relevância. Vou começar pelo inicio.

Quando nascemos, mal nos olham para as partes íntimas, dizem: “é uma menina” ou é “um rapaz”. Aprendi que isso não é literalmente assim. Nem todos os que nascem com pilinha serão verdadeiramente homens, e nem todas as que nascem com pipi serão verdadeiramente mulheres. Vejam o exemplo da mediática Caitlyn Jenner, nascida como Bruce Jenner e que até ganhou uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos como homem. É pai, avô, mas nunca se sentiu ela própria durante décadas. No programa “I am Cait” (transmitido no canal E!), que eu sigo com bastante atenção, mostra a sua verdadeira identidade – como mulher. Quem via os episódios do KUWK (Keeping up with Kardashians!) quando Bruce ainda não tinha feito a mudança de género, via uma pessoa tímida, meiga, atenciosa, mas sempre muito reservada. Agora, ao invés do KUWK, no I’am Cait, Caitlyn é extrovertida, autêntica! Será que Caitlyn é menos mulher que qualquer mulher biológica? Claro que não! Eu considero-a como meu par e adorava conhecê-la pessoalmente para que me contasse olhos nos olhos tudo de bom que lhe está a acontecer.

Mas não estamos a falar apenas de extremos, mesmo debaixo do nosso nariz, há situações que no nosso quotidiano, os outros, doravante chamados de piolhosos, não perdem a demora por ridicularizar a mulher. Ora reparem:

  • nome de família do marido – se decidimos colocar o apelido da família do marido no nosso nome é porque somos umas submissas de merda e ele manda em nós. Por cada palavra da nossa boca que não seja “sim senhor meu amo” será punida com paulada; se não o colocamos, ai Valha-me a Nossa Senhora da Agrela que ela é daquelas com “pêlo na venta” e que ele é um coitadinho.

 

  • cabelo curto (à rapaz!) – já estão a ver como isto é lixado? uma pessoa nem consegue explicar o que é um cabelo curto sem colocar umas parênteses. Sim. Nunca vos aconteceu cortar o cabelo bem rentinho e algum piolhoso questionar: “mas fizeste um corte à rapaz!?”. Mulher sofre… mulher sofre!!

 

  • peso e idade – odeio, mas odeio, e trinco-me toda quando um piolhoso me diz “ainda és uma criança” sobretudo quando esse piolhoso ou piolhosa com a minha idade já sabia o que era a vidinha de ser sexuado e se não houvesse métodos de contraceção já tinham tido duas dúzias piolhosozinhos fofinhos. (valha-nos a borrachinha!) Outra coisa que me faz coceira é com o peso. O excesso dele ou a falta dele. O pessoal nunca está contente com o peso dos outros: ou porque “aquilo é alguma mulher? Aquilo é uma sereia – metade mulher, metade baleia” ou “com aquilo até eu passava fome, só pele e ossos”. Ó pá, M-E-T-A-M – S-E   N-A   V-O-S-S-A   V-I-D-A!!! Se andassem preocupados mas é com a vossa vidinha não tínhamos tantos homens barrigudos nem tanta mulher com celulite e muitos casais mal amados. É um conselho, de amiga.

 

  • sexualidade – esta não sei por experiência própria, mas acho que o pessoal que estabelece os “padrões” da sociedade não é muito liberal nestas coisas, mas a sexualidade da mulher, também – ao que parece – tem um papel importante no processo de “ser menos mulher” ora pois: se uma mulher anda enrolada com outra, não é mulher é macha. Ou é confusa, ou é aberração, ou é sei lá eu! Aos poucos, graças à evolução da nossa sociedade, acho que os casais lésbicos (e gays, também!) são cada vez mais bem aceites por todos, pela parte que me toca, podem continuar-se a beijar em plena Praça Mouzinho da Silveira que eu passo e sigo a minha vidinha (normalmente com um sorriso na cara!).

 

  • dona de casa vulgarmente apelidada doméstica – a minha avó sempre foi doméstica. Na altura dela era quase norma ficar em casa a cuidar dos filhos e gerir tudo o que envolvesse o lar. Não é por causa dessa opção que teve menos trabalho, aliás, o trabalho que é feito arduamente por estas mulheres é, para mim, um trabalho escravo. Não é remunerado e não existe nenhuma ajuda social para estas mulheres. Cuidar da casa, do orçamento familiar (muitas vezes reduzido), preparar refeições, cuidar da roupa, dos filhos pequenos, e, às vezes, ainda fazer alguns trabalhos de “freelancer” ou de artesanato para ajudar aos encargos mensais, levam estas mulheres à exaustão ao final de cada dia. Mas muitos dos piolhosos dizem: “ahhh, está folgada!! … Está em casa a cuidar dos filhos” ou “em casa?  voltamos ao paleolítico?” Eu, sinceramente, esgotava-me. Mas, mulheres e mães donas de casa a tempo inteiro, serei a primeira subscritora de uma petição para que a mulher dona de casa, com filhos menores de 5 anos receba uma majoração no abono ou um “subsídio” amigo da natalidade! Quem alinha? (aberta também, claro, a homens domésticos!)

Por falar em mães, há uma questão muito pertinente a levantar: porquê que uma mulher tem de ser mãe para ser plenamente mulher? Pois não tem. Eu sou mãe, não imagino a minha vida sem os meus filhos e sou realizada enquanto mãe. Mas há mulheres que se sentem realizadas sem filhos. Há mulheres que não querem ser mães! Há mulheres que não sentem a necessidade da maternidade para serem realizadas enquanto mulheres! Portanto, deixem as recém casadas em paz com as perguntas da praxe de quando vem o bebé ou dizer que já está na hora!! O mesmo se aplica a solteiras com mais de 40 anos.

E por fim, sejam felizes, não liguem a padrões e a modas. Não liguem a opiniões nem a piolhosos. Façam o que vos apetecer ou será que seremos menos mulheres por fazermos o que nos der na real gana? 😉

Bea

[para a semana “sou menos mãe por isso?]

Artigo por Bea

Mulher, mãe de dois rapazes, apaixonada por flamingos e completamente chocoholic. Adora ler, dançar, comer e experimentar coisas novas.

Seja o primeiro a comentar

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.