[psicologia] Miúdos de férias… por enquanto!

Uma das nossas leitoras enviou-nos uma sugestão de escrita: como preparar os miúdos para o início das aulas? O título deste texto também podia ser: preparar(mo-nos para) o regresso à escola. É que não são só eles que precisam de ser preparados… nós também!

O início do ano lectivo parece longe, mas está já aí ao virar do mês… e o trabalho tem de ser contínuo. Por isso, o final das férias deve ser um momento importante para reflectirmos sobre isso mesmo: o regresso à rotina de todo ano.

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As férias são uma descompressão para a maioria das crianças. Não para todas, porque existem jardins-de-infância que laboram todo o ano, ou colónias de férias que mantêm um ritmo similar ao resto do ano lectivo. E existem, naturalmente, crianças que ainda não andam no jardim de infância, ou só agora iniciam um ano lectivo.

Mas, no caso das crianças já estão no ensino básico, os pais deparam-se com 3 meses de férias… para as crianças (mas não para si) As crianças deixam de ter um horário restrito, deixam de ter uma semana de aulas planeadas, deixam de ter de acordar tão cedo e deixam de sentir a pressão para cumprir horários… referentes a eles, claro. Já os pais, que só têm duas semanas seguidas de férias (quando têm), já começam a sentirem-se extenuados por terem de levar os filhos a outros cuidadores (mudando toda a sua rotina habitual), enquanto se certificam que nadas lhes falte e ainda correm para cumprir os horários de emprego (quando não têm de trabalhar mais para suprir as necessidades do serviço devido à ausência de colegas em férias).

Crianças que iniciam a escola pela primeira vez  (Jardim-de-Infância ou Escola Básica)

Deixamos aqui algumas dicas para as crianças que iniciam, pela primeira vez, o jardim-de-infância ou a escola primária. Não obstante, alguns itens podem ser “revisitados” para crianças que já tenham iniciado escola e regressem agora.

– Se tiver “a hora do conto”, procure escolher livros (ou histórias na internet, ou até algo escrito e inventado por si) curtos que retrate o primeiro dia de aulas. Convém ler durante as férias, por exemplo, uma vez por semana e com algum distanciamento da data de início de aulas, para evitar depositar muita pressão na criança ao antecipar a situação. A ideia não é que sofra de ansiedade por antecipação! É mesmo o oposto: tornar a ideia da escola uma ideia natural, leve e agradável;

– Procure colaboração da escola para visitar o espaço um dia, e repita a visita de passagem ao edifício (por exemplo, quando for a algum lado, faça o desvio para avistar a escola durante a viagem); outra sugestão é: deixar a criança brincar no recinto do recreio! Isso ajudá-la-á a associar o local a momentos aprazíveis;

– Converse o bastante com a criança sobre o que é frequentar uma escola, mas com a devida precaução de não prometer algo que possa não se concretizar. Não ter medo de dizer: “não sei”, mas assegurar que procurará estar sempre disponível para ajudar a criança quando e no que precisar; ou dizer que irão descobrir juntos dentro em breve e que gostava muito que partilhasse consigo a sua experiência;

– Prestar atenção ao que a criança diz (ouvi-la e assegurar que a crianças se sente ouvida também), para perceber eventuais medos e preocupações que possam surgir-lhe. Tente pôr-se na óptica da criança – alguns receios podem parecer infundados ou ridículos, mas para uma criança, eles são muito sérios e avassaladores: afinal é a primeira vez e pode assustar!

– Ajudar a criança a dizer o seu nome completo, e assegurar registo na mochila com morada e/ou numero de telemóvel dos pais; ou, se a idade e capacidade da criança assim permitir, auxilie-a a decorar o seu número de telemóvel (através de uma música ou lengalenga), em caso de SOS;

– Experimentar uma brincadeira “faz de conta” deixando a criança improvisar o papel de professor(a) e os pais de alunos e vice-versa;

– Se possível, na semana anterior (ou a anterior mais próxima possível) tente providenciar uma visita (a primeira ou uma nova), preferencialmente guiada pelo(a) futuro(a) professor(a) ou educador(a). Dica: pode pedir permissão para tirar fotografias à sala, ao refeitório, ao recreio e criar um álbum (digital, impresso ou no próprio telemóvel), incentivando a criança a mostrar aos seus familiares esses espaços. O objectivo é criar interesse e entusiasmo, ao mesmo tempo que o mantém mais familiarizado com o espaço;

– Algumas instituições marcam um dia reunião de pais para início de ano lectivo, fazendo uma sessão de esclarecimento aos encarregados de educação, com apresentação do corpo docente e discente, permitindo também aos pais conhecer espaços, horários, rotinas e outros pais! Faça uma lista de dúvidas e assegure a sua presença. Isso ajudará a estar mais próximo do espaço (e ambiente) que a criança vivenciará durante o próximo no lectivo;

– Certifique-se que a criança sabe usar uma casa de banho, ou pedir ajuda a um adulto, se sentir essa vontade. O objectivo é que não sinta vergonha nem se sinta intimidado;

– Em casos específicos (como crianças mais visuais ou até crianças com perturbação do espectro do autismo), pode ser interessante desenhar com a criança um mapa da escola (fazer depois da visita), e torná-lo num percurso tipo “pista de corridas”, onde pede à criança para fazer os trajectos com carrinhos ou bonecos até aos devidos locais (por exemplo, da sala de aula até à casa de banho, etc.);

– Nos das que antecedem o início do ano lectivo, acompanhe a criança até à entrada da escola ou até à paragem de autocarro (se aplicável, para o ensino básico). Relembre a criança dos preparativos ou combinação especial que tenha combinado com ela, especialmente no que concerne ao regresso a casa (por exemplo, combinar um ponto de encontro ou uma hora), assegurando-se que a criança percebe a nova rotina. Se na sua zona de residência morar alguém de confiança, indique às crianças quais as “casas seguras” (caso, por exemplo, voltem sozinhos mais cedo a casa e souber que os pais ainda estão a trabalhar). Mencionar a importância de não ir a lado nenhum com estranhos sem avisar um adulto de referência (mesmo que seja o professor);

– Tente saber se existe mais alguma criança (vizinho, amigo ou conhecido) que inicie o ano lectivo na mesma escola, que se possam conhecer antecipadamente e possam partilhar o percurso para a escola, que se acompanhem nesta nova etapa: conhecer novas pessoas, novas rotinas, um novo mundo para a criança!

– Seria ideal se a criança tivesse algum colega para o acompanhar na entrada para a sala de aulas. Especialmente para evitar ficar muito ansioso e evitar a natural “crise de choro” no primeiro dia de aulas (em que geralmente o colo dos pais é o lugar para onde querem ir e não sair de lá, partindo qualquer coração de mãe e pai); a alternativa pode ser uma auxiliar educativa ou o próprio(a) professor(a) ou educador(a);

– Oferecer uma prenda para assinalar este nova fase, pode ser estimulante. Por exemplo, um relógio despertador e/ou um calendário onde pode conhecer os dias e assinalar datas relevantes (dia de ginástica, dias de aniversário, dias temáticos), podem ser aliados da crescente responsabilidade e autonomia que a criança passará a adquirir. Contudo, ressalvo que estes elementos não devem ser fontes de ansiedade, devendo usá-las com a devida moderação.

Preparar(mo-nos para) as manhãs

Para que as manhãs não comecem com os nervos em franja, existem dicas para ajudar a organizar o início do dia:

– Antes de iniciar o ano lectivo, defina claramente as horas de deitar da criança (com 30 minutos de intervalo para fazer as rotinas prévias como escovar dentes, ler uma história ou fazer uma massagem para relaxar, por exemplo). Dica: não avise a criança da hora de deitar no preciso momento. Dê-lhe tempo para processar a informação – avisando-a alguns minutos antes (30 minutos, por exemplo), dando-lhe a oportunidade de realizar uma ultima actividade a seu gosto daquele dia (pintar, contar uma história, ajudar os pais a escolher a roupa do dia seguinte, etc.).

– Durante as férias, deve praticar horários mais “relaxados”, mas nunca horários muito tardios, pois interfere nos ritmos circadianos da criança, levando ter dificuldades em adormecer mais cedo quando tiver de regressar à rotina da escola. Por exemplo: se, durante o ano lectivo, a criança se deitar às 21h30, pode eventualmente permitir que durante as férias se deite às 22h30, deixando raras excepções para dias de aniversário ou festas de família, por exemplo, até às 23h30 (adaptar mediante a idade, rotina familiar e/ou sono da criança);

Antes de se deitar, deixe tudo preparado. Pode tirar-lhe 20 minutos de sono, mas evitará, certamente, o famigerado stress da manhã seguinte

– escolha a roupa do dia seguinte, incluindo sapatos, meias, casacos de malha. Dica: as crianças gostam de se sentirem integradas e incluídas no processo de escolha, pelo que pode deixar duas alternativas para a criança escolher de manhã, ou ajudar a escolher a roupa no dia anterior. Reveja a mochila e se tem roupa suplente completa, bata/uniforme (se aplicável) e afins;

– Deixe a mesa do pequeno almoço já preparada;

– Verifique periodicamente se todos os relógios de casa estão sincronizados e correctos, para evitar enganos;

– Podemos dar pequenos incentivos às crianças para irem completando as tarefas, com base no alcance. Por exemplo, escolher o que quer de pequeno almoço, quando já estiver vestido (e designar antecipadamente esses x minutos para o fazer); se demorar, escolhe a mãe ou a(o) irmã(o) nesse dia 🙂 coisas ligeiras e inócuas mas que não provoquem lutas logo pela manhã!

Iniciar a rotina: hora de ir para a escola!

As crianças necessitam de rotina nas suas vidas, para que se sintam preparadas e lhes transmita alguma confiança e/ou controlo sobre o que vai acontecer. Mas rotina não é rigidez militar, nem monotonia. Dentro da rotina, deve ser dada a possibilidade de minutos de tolerância ou “desvios” ao “habitual”, para evitarmos educar crianças tendentes a rigidez mental e dificuldades futuras de se adaptarem a diferentes contextos – especialmente num mundo em constante mudança! Eis algumas sugestões para o Dia E(scola):

– Programar o nosso alarme 30 minutos mais cedo (ou mais, mediante a nossa rotina matutina) para que deixe, tudo o que é da sua responsabilidade, pronto antes das crianças (e assim evita que fiquem enfadados à sua espera ou que não consiga fazer as suas rotinas em paz e sossego);

– Programar o alarme da criança para ter 5 a 10 minutinhos de preguiça, despertar lentamente e sem pressas, para depois iniciar o ritmo da manhã, como vestir-se, reunir os seus pertences, tomar o pequeno-almoço, assear-se, etc.

– Cosa etiquetas com o nome do seu filho nas roupas que possa despir na escola, evitando perdê-las (assim como o seu contacto telefónico na mochila para casos de perda);

– Lenços de papel, toalhitas, bolsas de catálogo transparentes (vulgo micas) e sacos plásticos (como os de congelação, para guardar lixo ou roupa suja/molhada na mochila, sem estragar livros) são sempre úteis. Dica: o tubo do rolo de cozinha pode ser um importante aliado no transporte de trabalhos A4, enrolados e sem amarrotar na mochila!

– Ensinar as crianças as regras de transito (olhar para ambos os lados antes de atravessar, por exemplo), atravessar nas passadeiras e reconhecer os sinais dos semáforos;

– Defina um local específico da mochila da criança, para transportar recados ao professor(a) (ter um caderno de registo ou uma bolsa para recados avulsos) e da professor(a) para si;

– Procure, sempre que possível, que a criança vá até à escola acompanhada, pelo menos, por um dos pais ou familiar de referência; como já se falou anteriormente, a companhia de um colega da mesma escola também é positivo;

– Indique à criança quem a vai buscar naquele dia (se possível) e certifique-se de que a criança compreende que ninguém, a não ser os pais (ou outro adulto de confiança designado e com a devida autorização escrita entregue na escola) a poderá ir buscar à escola. Algumas famílias definem palavras-chave J

– Procure perguntar todos os dias como correu o dia da criança, diversificando as perguntas e procurando que seja um momento de reflexão e de partilha comum. Escute com atenção as respostas na tentativa de saber detectar se existe algum problema ou receios associados.

Por vezes, enquanto se conduz o carro, pode ter-se a tentação de fazer essas questões, mas se esta for a altura escolhida, procure olhar o rosto da criança pelo retrovisor central, quando faz questões que lhe pareçam mais sensíveis, para perscrutar a expressão facial e emoção suscitada na criança (por exemplo, em momento de trânsito lento ou paragem num semáforo, em que pode diminuir a sua atenção da marcha).

Existem crianças que se abrem mais que outras em termos de narrativa do dia, pelo que fica ao critério dos pais o melhor momento. Ao longo do tempo, conseguirão perceber qual a altura ideal para conversarem tranquilamente (por exemplo, a caminho de casa, enquanto fazem o jantar, no banho, na hora de deitar). No entanto, é extremamente importante que se evite tornar este momento de partilha num “interrogatório”, ao qual as crianças começam a criar alguma aversão e fecham-se.

Deixamos aqui uma tabela de sugestões para questionar as crianças sobre como correu o seu dia.

Perguntas sobre a escola às crianças

E já sabem, sugestões e testemunhos são sempre bem-vindos. Não deixem de escrever os vossos comentários em baixo, agradeço as vossas partilhas!

Até breve,

Joana Madureira

PS: Aqui fica um vídeo “Back to school parody”, divirtam-se!


BIBLIOGRAFIA

Lansky, V. (2014). 1500 Dicas Práticas para Pais: Tudo o Que Precisa Saber Sobre os Seus Filhos. Amadora: Vogais – 20|20 Editora.

Artigo por Joana Madureira

Mulher e Mãe de duas crianças. Psicóloga, Formadora, Consultora de Recursos Humanos e Blogger Mentora da marca registada SCHOLA - Educar para a Felicidade.

Este artigo tem 0 comentários
  1. Monica Teixeira diz:

    Adorei as dicas, fantástico!!!
    Obrigada

  2. […] que mesmo sabendo da importância das rotinas e tendo em consideração as sugestões para preparar os miúdos para o início das aulas, os filhotes teimam em desafiar o relógio, a paciência dos pais e a insonorização das paredes […]

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