[psicologia] O Conceito de Morte nas Crianças

Em maio deste ano, a Bea partilhou um post |avó, não faças anos por favor!|

Este post gira à volta do tema da morte aos olhos das crianças e o medo de perder os adultos de referência – que neste caso, seguindo a ordem da vida, seriam os avós.

Como mãe, o meu filho de quatro anos também já me questionou o que era morrer e quando é que ele ia morrer. No espaço de semanas, percebi que o tema lhe surgiu – sem certeza de como – e com ele se manteve, porque perguntou a todos cá em casa e aos avós, com que idade morreriam.

A verdade é que a nossa cultura tem destino e melancolia em melodia no fado, mas a sociedade aparenta uma aversão a falar abertamente do tema da morte. Aliás, é comum fazer-se de tudo para afastar a criança do que represente morte ou de conversa a respeito, achando-se que isso a protegerá e contribuirá para o seu conforto psicológico.

Lamento desiludir, mas evitar conversar sobre o assunto, leva a um sentimento de dúvida persistente por parte da criança (que a pode levar a criar um condicionamento futuro desse tema, que ela percepciona como tabu), criando-lhe a sensação de ser algo que não controla e do qual nem os pais conseguem falar, nem sossegá-la a respeito.

Como Psicóloga, no curso que realizei de intervenção psicológica em situações de catástrofe (pela Ordem dos Psicólogos Portugueses), abordei os temas da perda, da morte e do luto, e sei que a compreensão destes três conceitos e as reacções emocionais geradas, são completamente diferentes num adulto e numa criança. Mas vamos por partes.

20151224_181109.jpgO que significa perda, morte e luto?

A perda pode não implicar necessariamente morte e, do ponto de vista das crianças, pode representar coisas bem mais simples (do ponto de vista de um adulto, claro) como a perda de um amigo fruto de uma zanga, ou a perda de toda a atenção dos pais fruto do nascimento do irmão mais novo. Não obstante, como pais, nunca nos devemos esquecer de olhar para o que apoquenta os nossos filhos através da perspectiva da criança!

A morte é já um construto mais complexo de ser explicado à criança, e que envolve um conceito de finitude, fim, sem volta. A compreensão da morte, por parte da criança, depende da idade dela (grau de desenvolvimento cognitivo), já que envolve a capacidade de internalizar e compreender conceitos como universalidade, irreversibilidade e não funcionalidade (explicadas no quadro mais abaixo).

O luto constitui-se como o processo necessário e fundamental para qualquer pessoa se adaptar à perda (inclua ela, ou não, a morte). As fases que constituem o processo de luto, variam consoante autores e teorias, mas geralmente envolvem reacções emocionais, sensações físicas, cognições e comportamentos (que também variam de pessoa para pessoa).

Estes três conceitos, geralmente envolvem alguma dor. Por isso, é importante o adulto poder-se disponibilizar a compreender a percepção que a criança tem dessa perda, numa partilha do luto e incentivo a encararem a morte como parte da vida.

A experiência da perda, e também da morte, podem constituir  uma “ajuda” no crescimento e amadurecimento da criança e pode ter implicações no consequente processo de luto. É importante percebermos que a compreensão de morte envolve uma percepção gradual (à medida que as crianças crescem e o seu cérebro se desenvolve).

No quadro infra, deixo-vos um breve resumo da percepção que uma criança tem da morte, consoante a fase aproximada de desenvolvimento:

Até aos 5 anos

Ainda não conhecem a morte como irreversível, pelo que a associação que fazem das emoções, são com base no que observam dos adultos (tristeza, choro, cansaço).

Os adultos às vezes usam expressões que transmitem uma ideia antagónica à finitude: “foi dormir”, “foi fazer uma longa viagem”, o que não ajuda.

Dos 5 aos 9 anos

A criança inicia a construção do conceito de morte e já a entende como irreversível, mas tende a personificar a morte como causa da acção de terceiros e não por cessação de funções vitais. Pensamento com base no concreto, causa-efeito (Vs. aleatoriedade). Há ainda alguma dificuldade em pensar que a morte pode acontecer a alguém que é significativo para a criança (medo).

Os adultos às vezes usam expressões que transmitem a ideia de morte estar associada a punição de maus comportamentos.

Dos 9 aos 12 anos

É na transição da última infância para a adolescência, que as crianças conseguem integrar cognitivamente o conceito de morte como universal (acontece a todos, incluindo animais), irreversível (não se ressuscita nem se volta atrás) e de não funcionalidade (envolve perda de funções vitais, intra-corpo, e não necessariamente por acto infligido por um terceiro).

Será a fase de maior percepção do discurso dos adultos.

Fonte: adaptado de Pereira, 2015 [1]; e Kluber-Ross, 1991 [2].

É importante relevar, uma vez mais, que a idade da criança determinará grandemente a forma como ela viverá e processará a ocorrência da perda ou morte. Os seus comportamentos variaram também consoante a criança e (no caso de morte) podem dever-se a factores como:

– Não perceber o que se passa;

– Não saber o que vai acontecer a seguir;

– Ansiedade pela separação do adulto de referência;

– Ser exposta a estímulos potencialmente traumatizantes;

– Presença de estranhos à sua volta;

– Não poder fazer nada para ter impedido o acontecimento.

Falar de morte a uma criança

Algo fundamental na intervenção com uma criança é: procurar sempre que seja um adulto de referência a falar sobre, ou a comunicar à criança, a morte de alguém (geralmente pai ou mãe, ou familiares mais próximos na impossibilidade ou morte daqueles).

O objectivo principal neste contacto, deve ser o de proporcionar à criança uma sensação de controlo e segurança. Eu costumo colocar-me ao nível dos olhos da criança: de joelhos ou sentada, mas de frente, olhos nos olhos. Dá sensação de proximidade e igualdade na relação.

Preferencialmente, deverá ser feito num lugar sossegado e intimista (evitar pessoas estranhas ao redor ou excesso de pessoas na sala);

Devemos procurar prestar informações adaptadas à idade (isto inclui ponderar a necessidade de contar muitos pormenores) e realistas (que não criem expectativas desfasadas do que pode acontecer).

Não se deve guardar segredos da criança e nunca se deve mentir. A palavra “morte” deve ser assumida e não floreada e, quando não se sabe responder concretamente, deve-se dizer com honestidade “não sei”. Este momento pode ser seguido de uma frase de conforto ou incentivo, como por exemplo, “mas estou aqui para te proteger e partilhar contigo este momento (abraçar, se a criança aceitar)”.

Quando as crianças reagem de forma mais exaltada (por exemplo, muito ansiosas, em hiperventilação ou aos gritos), deve-se procurar estabilizá-la e acalmá-la. Existem estratégias para desfocar a criança do que está a manter a sua resposta ansiogénica: estratégia da distracção (desfocar, como por exemplo prender a atenção em algo visível ou falar de um tema que a criança goste) e usar técnicas de relaxamento (focá-la na sua barriga, usar a metáfora do barco, que podemos fazer num papel, e pedir para inspirar e expirar imitando a ondulação do mar com o barco na barriga).

Acima de tudo a morte também faz parte da vida e do crescimento enquanto pessoas. Já privei com alguns adultos que me mencionaram terem pavor da morte e que, talvez, tal se devesse ao facto de nunca lhes terem falado, enquanto crianças, de como um dos seus familiares faleceram.

Não temos de “salvar” as crianças das emoções menos positivas. Elas precisam de passar por essas emoções para as conhecerem e descobrir estratégias de lidar com elas. Devemos perceber as coisas na perspectiva da criança e devemos estar disponíveis para partilhar com elas as suas preocupações, responder às suas perguntas ou, simplesmente, não falar mas estar fisicamente presente e disponível para prestar afecto.

Já agora, li um livro muito interessante sobre este tema e que revisito com frequência. Partilho-o convosco: ajudar crianças a uiltrapassar a perdaPor fim, deixo uma sugestão: quando os vossos filhos estiverem a ver desenhos animados, interessem-se por assistir, ao lado deles, pelo menos a um episódio. Eu fiquei admirada com a quantidade de vezes que o tema da morte está representada nos episódios infantis e da quantidade de vezes que actos perigosos não matam, de facto, os personagens, transmitindo a ideia de reversibilidade. De repente, muitas coisas que os meus filhos diziam, passaram a fazer sentido.

As crianças nem sempre têm noção de onde ou quando assimilam ideias. Quando nos questionam algo, é porque o tema, de alguma forma, lhes suscitou curiosidade ou dilema. E nós, adultos, também não controlados o que os rodeia. Mas podemos sempre estar presentes para lhes transmitir carinho e protecção. Pelo menos nesta fase em que crescem a um ritmo vertiginoso!

Como sempre, deixo-vos com um até breve!

Joana Madureira

[1] Pereira, M. (coord.) et al. (2015). Intervenção Psicológica em Crise e Catástrofe.Lisboa: Ordem dos Psicólogos Portugueses e Lisgráfica.
[2] Kluber-Ross, E. (1991). On life after death. Berkeley: Celestial Arts.
Artigo por Joana Madureira

Mulher e Mãe de duas crianças. Psicóloga, Formadora, Consultora de Recursos Humanos e Blogger Mentora da marca registada SCHOLA - Educar para a Felicidade.

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  1. […] Poderá considerar-se verdade que os pais de hoje, têm mais recursos e apoios para educar os filhos; também poderá ser verdade que, actualmente, e talvez mais que nunca, existe uma enorme preocupação sobre o que pode, ou não, ser psicologicamente “traumático” para as crianças (também podem ler, ou reler o texto sobre perda, luto e morte nas crianças aqui). […]

  2. […] sobre marcos do passado, é comum evocarem-me uma perda de algo ou alguém de referência. A morte, parece ser, ainda, um assunto difícil de se falar e lidar. Mas não tem de ser… proponho […]

  3. […] livro de Brenda Mallon, intitulado “Ajudar as crianças a ultrapassar as perdas“, a autora partilha alguns testemunhos do percurso de crianças e famílias, na luta contra a […]

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