[Mães de segunda viagem] ”Atrás de nós, só as heroínas da Marvel.”

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Ainda tinha o meu primeiro filho meses de vida e eu já tentava convencer o meu marido a tentar o segundo.

Não que eu, clinicamente, pudesse engravidar logo de seguida, já que 17 horas de trabalho de parto culminaram numa cesariana. Mas isto de querer outro filho, especialmente no meu caso tão seguido do primeiro, leva o seu tempo a convencer o marido, já para não falar no resto da família e ademais pessoas que nos rodeiam.

Na verdade, a puérpera é, na boca e cabeça do povo, a doida que ainda anda com as hormonas aos saltos e o humor nos picos, pelo que não é possível levá-la a sério quando diz que quer ir ao segundo. E agora tinha de ser uma menina… “hah, como se pudesses decidir”.

Quando o tema era engravidar, ouvi: “És mesmo ursa. Goza mas é a vida”, “és maluca”, “Isso é porque ainda não estás em ti”, “Então o teu bebé deve ser muito sossegadinho… espera até as birras chegarem!”, “Tão próximos? Se calhar é melhor esperares mais seis mesinhos”…

E, felizmente, eu continuei “a doida” imbuída naquele espírito altruísta de querer partilhar corpo e alma com outro ser, tanto era o amor que tinha dentro de mim! Mas eu gostava tanto de voltar a ser mãe!

Ouvi o meu ginecologista-obstetra, sabiamente, dizer: “pode ter novo parto, idealmente, com 24 meses desde a última cesariana. A partir dos 15 meses já pode tentar, mas tenha em mente que raramente se engravida à primeira tentativa, não desanime”. Adoro o meu ginecologista-obstetra. Foi o melhor clínico e ser humano que conheci. Compreende-me na perfeição e antecipou que, “quando meto uma coisa na cabeça”, ou a alcanço com pinta, ou entro em paranóia… como não entrar em paranóia, quando remamos contra uma maré de gente a opinar sobre a nossa vida???

E bem ao meu estilo, lá vivi 15 meses, numa angústia constante entre “estarei a ser egoísta, ou altruísta em trazer outro ser ao mundo?”, “será que toda a gente tem razão?”, “será que vou conseguir engravidar de novo?”, “será que corre bem?”, “será que serei boa mãe?”, “será que conseguirei amar os dois de forma igual?”, “será que aguento cuidar de dois, sem pedir ajuda a terceiro (e ainda levar com retórica “eu disse-te que era difícil!”)…

Até que fui a uma primeira consulta, com um terapeuta que nos pede para agarrar numa máquina e mede todas as energias do nosso corpo (e a quem dei um ‘choque’ assim que lhe toquei!). Em conversa, e sem ele me conhecer ou saber do meu intuito, disse-me algo como “sabe bem o que quer mas por alguma razão acha que não devia fazer”. E esta foi a frase decisiva. Eu apercebi-me que “acha que não devia fazer” era grandemente devido a todas as opiniões em meu redor, mas não a minha.

De volta ao meu foco e com o marido já convencido e a desejar o segundo bebé, decidi parabenizá-lo no seu dia (semana) de anos, com uma prenda de entrega diferida em 9 meses. Em bom rigor, e como “era possível não engravidar logo à primeira”, decidi aumentar as hipóteses e contrariar todos os prognósticos e ditames populares.

Foram 6 dias de prática e, ao 7º dia, deixei o marido descansar, (ou não fosse a concepção uma obra equiparada a um Deus criador, alegoria a Géneses 2). Não me esqueci da sugestão – a minha preferida, lol – que encontrei na internet, para aumentar a propensão de engravidar: levantar as pernas para cima uns minutos (não fossem os espermatozoides terem mais juízo que eu e quererem fazer marcha trás…). Tentei divertir-me a partir daqui. Nada nem ninguém ia abalar a minha decisão e convicção.

Voltei a engravidar à primeira tentativa. E eu que precisava de fazer ginástica motivada, lá se foi o argumento chantagista para fazer “o amor” com o marido. A família nuclear e a mais próxima, souberam e contiveram-se nos comentários e euforia. Afinal, já era a segunda gravidez.

Depois dos 18 meses de salvaguarda da gestação, comuniquei aos amigos, e às pessoas mais atentas ao volume do meu ventre (que também ficou mais saliente e distendido na segunda gravidez).

E, novamente, ouvi: “Já!? Parabéns!”, “Heia, que corajosa!”, “A sério?”, “Oh, não brinques”, “estás a trabalhar para uma equipa de futebol?…” mas o que me irritou foi a insistente curiosidade em saberem se tinha sido programado ou se tinha sido acidente de percurso…

Mas isso importa agora? E que tal perguntar se a gestação está a correr bem? Se preciso de roupinhas, ou tenho lista de compras? Se preciso de ajuda para alguma coisa? Acho que cansei de tanto ouvir essa pergunta, que já no ultimo trimestre, eventualmente respondi a alguém: “Não me lembro. Estava bêbeda”.

O meu humor e paciência foram postos à prova, quando perguntavam o nome do próximo bebé e quando eu respondia, não houve pessoa que não tivesse opinado! Ou porque “era muito vulgar”, ou porque “já conhecia muitos”, ou porque “os dois nomes não combinavam”… Cheguei a ouvir uma colega a dizer “esse nome sozinho, está bem, mas os dois é complicado…”. Respondi-lhe: “hoje em dia já não é complicado, basta os pais gostarem e o registo aceitar, ponto final”. Evitei rosnar. Portei-me bem. Não voltei a dar-lhe confiança 🙂

Lembro-me, por volta desta altura, deixar de achar divertido o que quer que fosse e de ter começado a ladrar, rosnar e, em casos extremos, a morder. A culpa podia bem dever-se às hormonas, mas não só. A segunda gravidez trouxe imensos incómodos, complicações e sustos. Precisei de ficar atenta e em alerta. Tinha de garantir a vida do meu bebé. Afinal, era a função do meu corpo e a responsabilidade pendia sobre a minha decisão (em igual percentagem do meu marido, ou não fossem precisos dois para dançar o tango).

Chegou a altura do parto (mais cedo do que devia). Não foi o que tinha idealizado, e mesmo na mudança de plano de parto desse dia, também não correu conforme a experiência prévia. Mas assim que recebi o meu segundo filho nos braços (a minha menina!), o mundo à minha volta desapareceu. Só me lembro de nós duas, em surdina. Nada mais mágico. E saibam: não se ama os dois filhos de igual forma. ama-se na medida de cada um, sem medição possível, mas intensidade equiparada.

Ser mãe é isto mesmo: existirão sempre hipóteses que não antecipamos, mas não haverá nada no mundo que nos demova do amor pelas nossas crias. A vida corre para quem observa. Não se distraiam com os outros, oiçam a vossa voz interior (a genuína, não a dos outros). Ela saberá melhor. Quando e SE as forças vos falharem, lembrem-se que deram à luz um segundo filho (terceiro, quarto, quinto, etc.). Atrás de nós, só as heroínas da Marvel.

E espero, do todo o meu coração de mãe, que os vossos companheiros o sejam na completa latitude da palavra.

Um beijo cheio de luz nos vossos corações (literalmente com o rei/rainha na barriga).

Juca, mãe de 2

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