[psicologia] Porque GRITAMOS tanto?

13942187_1328495270511837_136747393_n.jpgQuando desejei ser mãe, ocorreram-me todas as imagens de felicidade e realização pessoal como mãe e mulher. Nunca, em algum momento, me passou pela cabeça que o dia-a-dia de uma mãe (e pai) seria mais de stress do que serenidade.

Dois anos depois de ter sido mãe, dei por mim a ouvir do meu filho: “não gosto de ti, quero o papá”… como costumo dizer, “magoou-me o coração”… esta frase ecoou vezes sem conta na minha cabeça. Porquê que ele terá dito aquilo?

As crianças são sinceras, genuínas, sem filtros (porque ainda não os têm). Então percebi que, de alguma foram, eu é que teria “magoado o seu coração”.

Os sinais foram-se tornando mais fortes, quando a frase “quero o papá” se foi repetindo vezes sem conta, especialmente nas alturas em que eu interpelava o meu filho para o ensinar e fazer valer a minha “autoridade” como mãe. Basicamente, percebi que estava sempre a ditar regras de bom comportamento, ralhava muito e, nos momentos mais tensos, gritava… alto e em bom som.

As alturas de maior caos, choros, birras e desautorização dos pais, são aqueles típicos momentos de “saltar a tampa”. Quem nunca? Muitos de nós fomos criados com base no aviso em tom severo, quando não na base da “palmada”, que era bem mais pesada do que educativa. Mas, hoje em dia, os pais procuram alternativas e o parente mais próximo é: gritar.

O grito, no adulto, não é mais do que uma forma de canalizarmos a nossa frustração, saturação, desespero! Mas, quando um adulto grita, o que o distingue das crianças?

O cérebro de uma criança

Antes de mais, convém sabermos que uma criança nasce completamente desprovida de bagagem vivencial. Com isto, quero dizer que o seu cérebro é fértil para aprendizagens, mas possui zero de experiência. Como tal, a única forma da criança comunicar é a chorar. Este comportamento (naturalmente recompensado enquanto recém-nascido, quando os pais acorrem para o satisfazer), diminui à medida que a criança aprende a falar e a expressar o que pretende (pelo menos isso é o que deverá acontecer, de acordo com os estágios de desenvolvimento de uma criança saudável).

Mas há outro factor a desestabilizar esta equação: as emoções. Estas conseguem ser muito intensas e desestabilizadoras. As crianças, ao experienciarem, em tenra idade, emoções mais fortes (como a alegria extrema ou a frustração), tendem a agir de forma mais efusiva e nem sempre controlada.

Convém saber que a amígdala cerebral é a responsável pelas emoções mais primitivas. Ela mora no centro inferior profundo do cérebro. Basicamente, podemos considerar que é ela que activa quando “nos salta a tampa” (emoções primitivas). Por sua vez, é o lobo frontal (área do comportamento e do pensamento), localizado na zona da testa, que controla e gere as emoções, traduzindo-as em emoções filtradas, controladas, socialmente adaptadas.

cerebro da criança

Explicando de forma simples, sempre que nos falam de forma mais agressiva, é a amígdala cerebral que despoleta a emoção primitiva. Mas se conseguirmos ter autocontrolo, a emoção deixa de ser reactiva e passa a ser filtrada pelo lobo frontal.

O mesmo se passa com a criança: quando se sente punida ou afrontada, a criança sente necessidade de se defender. Posto isto, a sua tendência natural será o choro, a birra, a negação (lembrem-se, é a amígdala a falar sem controlo!).

De volta aos adultos

Então… se a criança tem esta condição, o que leva o adulto a gritar? Exactamente o mesmo que leva uma criança a gritar: a falta de autocontrolo. É natural e humano. Mas, o que vem a seguir diz muito: o nosso sentimento de culpa.

Explicando também de forma simples, a culpa é, no fundo, um sinal que o nosso corpo emite, indicando que, o que acabamos de fazer, entra em desacordo com as nossas crenças e valores. Se sentimos culpa a seguir a gritar com os nossos filhos, então algo está desajustado.

Este foi o meu caso. Enquanto me via no novo papel de mãe, “acumulava funções” como estudante na área da educação. Afinal, tive de admitir que, depois de ter filhos, “só sei que nada sei” (Apologia de Sócrates) – ou seja, achei que já não podia saber nada com absoluta certeza, mas que podia sentir-me confiante acerca de certas coisas. E uma delas era, definitivamente, que podia ser melhor do que isso (gritar).

Num misto de experiência pessoal e conhecimento profissional, posso partilhar convosco o que me ajudou a passar de “besta a bestial” (permitam-me a expressão popular). O objectivo era redescobrir o melhor de mim e reconquistar o afecto do meu filho.

Estratégias simples para evitar gritos

Deixar de tentar mudar as crianças e concentrarmos-nos em nós. Mudar o foco. Porquê? Porque comportamento gera comportamento. Somos o modelo.

Ajuda se tivermos sempre o cuidado de falar com os filhos da mesma forma como gostávamos que falassem convosco. Gritar pode ter resultados imediatos, como cessar uma birra por efeito do medo – mas não previne a repetição do comportamento e perde a força / impacto ao longo do tempo.

Gritar fragiliza a autoridade dos pais e envenena a relação com os filhos. Ao invés, sugiro que se procure estabelecer empatia e fortalecer o vínculo com os filhos. Muito mais difícil de fazer (respirar muito fundo e muitas vezes, ajuda), mas traz benefícios muito mais duradouros e vinculativos.

Gritar transmite uma imagem paradoxal às crianças – especialmente quando exigimos a gritar, para os filhos pararem com uma birra;

Ao invés de gritar, os pais podem procurar racionalizar os comportamentos. Como? Conversando, verbalizando, procurando que a criança participe no raciocínio. Mais difícil fazer do que dizer, eu sei. Mas falo por experiência própria! Sempre que os meus filhos fazem birra, tenho várias estratégias / exemplos que implemento e partilho aqui:

– Momentaneamente aproximo-me, toco no meu filho (ou filha) e pergunto “o que se passa?”;

– Se a reacção for intempestiva, faço silencio até que ele(a) se sintam “incomodad@” com a sua birra na minha presença – em algum momento parará de chorar e procurará olhar para mim para perceber a minha “reacção”;

– Se o ambiente é demasiado estimulante, e temos a presença de “treinadores de bancada” a dar “palpites”, procuro afastá-lo de forma subtil e meiga (gestos brutos fazem as criança entrar em modo defensivo e gritar pelo elemento mais permissivo que esteja presente, para intervir);

– Quando o meu tom de voz se tornar audível (tendo em conta o volume da birra, mas procurando falar num tom o mais sereno possível), procuro verbalizar o que observo, de forma a estabelecer empatia e a criar uma janela de comunicação. Por exemplo: “Estás chateado, não estás?” ou “estás triste porque não te deixaram brincar?”. Ao verbalizar o que vemos, transmitimos à criança que lhe estamos a prestar atenção e ajudamos a aumentar o léxico da criança: a exprimir emoções e pensamentos;

– Dizer o que sinto. Devemos explicar o que sentimos com o acontecimento. Mas a diferença aqui reside aqui: “estou triste com o facto de teres atirado as coisas ao chão” e não “estou triste contigo” ou “assim não gosto de ti”. Isto pode ser confundido com amor condicional e levar a criança achar que não tem valor ou os pais não gostam dela. Mesmo nos momentos mais difíceis, devemos distinguir a criança das acções dela e assumir sempre “mas eu continuo a gostar de ti!”. Isto dá esperança à criança de que, da próxima vez, pode fazer melhor, mas que os pais aceitarão a sua personalidade (ainda em franca formação) sempre;

– Quando a birra é excessiva e nos sentimos já sem “trunfos na manga”, ocorre-me a opção imediata: desfocar. Desfocar serve para desviar a atenção da criança do que a perturba e, literalmente, dizer “olhó passarinho ali em cima!”, seguido de outras coisas de interesse ou acontecimentos que se seguem nesse dia, como por exemplo: “tu não querias visitar o jardim zoológico um dia? Que achas se formos amanhã?”. Dependendo da idade da criança, esta estratégia deve ser alvo de aprimoramento, claro 🙂

– Usar contacto físico para brincadeiras tipo “malabarismo”. Exemplo: o meu filho gostou tanto de andar de baloiço, que uma tarde não foi suficiente. A birra surgiu e, no momento, só me ocorreu fazer o “baloiço maluco” a cantar a música do Canal Panda “o mundo ao contrário”. O choro deu lugar à gargalhada e a um pedido delicioso: “mais, faz mais!”. Aqui também entrou a estratégia de desfocar;

– Podemos ralhar sem gritar. Se a birra é intensa, então devemos adiar o ensinamento (vulgo ralhete) para uma altura mais calma, em que a criança tenha mais poder de encaixe e os pais estejam mais serenos para poderem falar;

– Usar o humor! Podemos aligeirar uma birra (diferente de desvalorizar o que a criança está a sentir naquele momento) usando o bom humor ou trocadilhos que suscitem riso na criança;

– O poder do abraço. Uso muitas vezes a expressão “dá-me um abraço para relaxares”. Induzir a crianças nestas estratégias, ajuda-as a conseguirem autorregularem-se e a crescerem com base no afecto, no reconhecimento e na comunicação sincera, ao invés da hostilidade. O mesmo se aplica àquelas crianças que se tornam violentas – no momento apropriado, quando abraçadas, baixam as defesas e permanecem naquele abraço bastante tempo;

– Falar sempre com respeito. Se uso e abuso da minha autoridade, é possível que a criança um dia imite esse comportamento e os pais fiquem boquiabertos… e lhes digam: isso não se diz. Mas disseram, certo? Moderar o discurso;

– Sentimento de protecção – os pais têm o direito e dever de educar. Ralhar é diferente de gritar. Mas mesmo nas alturas em que ralham, a criança deve conseguir perceber, pelo discurso dos pais, que eles a protegerão sempre e a ajudarão a crescer de forma responsável e segura, para se tornar igualmente num adulto responsável e seguro de si.

– E, por fim, o mimo. O mimo não “estraga” crianças. O que “estraga” as crianças é confundirem mimo com falta de regras. Como tal, existem momentos mais apropriados para darmos mimo, mas não devemos usar o mimo como moeda de troca (um dia escreverei sobre o amor condicional!).

Primeira salvaguarda: não é preciso gritar para os pais fazerem prevalecer a sua autoridade. As crianças iniciam a aprendizagem através da imitação. Os pais são modelos dos filhos e, como tal, deverão fazer o que dizem (ao invés do “olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço”). Nunca se deve mentir: se disserem, façam. Isso faz com que a criança veja os pais como adultos credíveis, de confiança, que não lhes falham.

Segunda salvaguarda: os pais também erram! Os pais também precisam de um escape (mas se calhar, evitem gritar com as crianças, ok?)! Os pais não precisam que a sociedade (e muitas vezes a família) lhes apontem o dedo constantemente, com julgamentos, atribuição de culpa e críticas gratuitas! Os pais merecem ser empoderados; os pais precisam um dia de casal, sem filhos e sem culpas – para falarem sem os filhos, para se reconectarem, para descomprimirem, para partilharem objectivos e estratégias de educação.

Este artigo não serve para dizer aos pais o que é certo, nem o que é errado. Este artigo propõe-se a ajudar os pais a encontrarem o seu foco. Se o vosso intuito é passar a ter uma relação mais serena, cúmplice e unida com os vossos filhos, lembrem-se de comunicar com e para o lobo frontal do cérebro e na mesma linguagem (racional, tom sereno, paternal/maternal).

Antes de vos deixar, partilho convosco uma sugestão de leitura – que inclui sessões de “auto”coaching – sobre este tema (eu aderi ao desafio!):

Livro berra-me baixo

Procurem ser felizes, porque foi com esse intento que tivemos filhos!

Até breve,

Joana Madureira

Artigo por Joana Madureira

Mulher e Mãe de duas crianças. Psicóloga, Formadora, Consultora de Recursos Humanos e Blogger Mentora da marca registada SCHOLA - Educar para a Felicidade.

Este artigo tem 0 comentários
  1. Bea diz:

    Eu tento Joana, mas há dias que é impossível não soltar um berro. Seja por estar demasiado cansada de ouvir 1500x ”mamã, mamã, mamã” ou dizer outras tantas para parar e eles fazerem-se de surdos. Normalmente tenho sentimento de culpa no momento a seguir, mas a exaustão e a falta de descanso é determinante.

  2. joanammadureira diz:

    Não é fácil, Bea! Mas “de vez em quando” não é “sempre”. Somos humanas e cansamos. MAS É POSSÍVEL e a recompensa é real: o vínculo com os teus filhos.

    No meu caso, o meu filho, em 3 meses, deixou de fugir de mim quando eu o chamava. Agora já me dá a mão e vem comigo para um local calmo, para conversarmos sobre o assunto (por exemplo, um sofá da entrada ou na casa de banho de um restaurante, sem barulho e sem público), porque ele já sabe que eu não o vou humilhar, não lhe vou berrar e muito menos bater. Ele sabe o que fez de “errado”, que vai comigo para descomprimir e para conversarmos até ele acalmar. Se precisar de um abraço, terá. Interessa que ele pense por ele próprio e consiga traduzir, por palavras suas, o que aconteceu (aumentando a sua literacia emocional e léxico verbal).

    Uma consequência de se repreender frequentemente e de forma “autoritária”, é que as crianças habituam-se a comportar de acordo com as orientações do adulto, ficando dependente da avaliação dos outros, em vez de serem incentivadas a pensar por elas próprias. Isto pode levar a problemas na adolescência (ou fase adulta), já que aumentará a probabilidade de serem mais permeáveis à opinião dos outros, não serem tão auto-confiantes e tornarem-se inseguras das suas decisões.

    Por isso, lanço-te um desafio, porque sei que és uma mãe extraordinária, super empreendedora e sempre ocupada, mas tens sempre tempo para dares o melhor de ti. Se te identificas com o objectivo do texto (relação mais serena com os filhos), compromete-te contigo mesma (passo o pleonasmo) e começa por diminuíres o número de vezes que gritas.

    Quando houver uma birra, repete para ti várias vezes “serena, serena, serena”. Não penses “não vou gritar”, porque o cérebro, para processar, vai despoletar uma imagem de ti a fazer exactamente isso: a gritar.

    Ao te comprometeres MESMO contigo, vais activar o teu controlo e, ao fim de algum tempo, torna-se mais automático. Pensa que eles não tiveram outra forma de aprender senão com a tua sabedoria e exemplo e, se tu gritares, dás-lhes legitimidade para fazerem o mesmo… acredita, é possível. Corres é o sério risco de te tornares numa super mulher… ou pior: na mãe do Ruca… 🙂

    <3 JM

  3. […] tive oportunidade de escrever, noutro texto do Blog a 8, que “uma criança nasce completamente desprovida de bagagem vivencial. Com isto, […]

  4. […] Dica: como pais, não temos de tomar partidos, podemos apenas ajudá-los a pôr por palavras os sentimentos que estão a sentir e ajudá-los a gerir a situação. E nunca nos devemos de esquecer: procurarmos falar com os nossos filhos da mesma forma que gostamos que falem connosco. Leiam (ou releiam) o texto Porque GRITAMOS tanto. […]

  5. […] os 5 anos, as coisas não são definitivamente simplificadas, como já se explorou neste artigo (cérebro em constante formação, auto-controlo e […]

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