[testemunho] O meu namorado roubou-me a vida da minha filha

Olá a todos os leitores.
O meu nome é Alexandra Costa, e venho através daqui revelar o meu testemunho de dois temas, ainda muito controversos, considerados tabu na sociedade: Gravidez na Adolescência e Violência no Namoro.

13295178_1289198664428073_1523472679_n

Eis que com 17 anos, em Fevereiro de 2010, enfrentei uma gravidez. Mantinha uma relação considerada estável, com o pai da bebé, com 19 anos. Mesmo com as dificuldades e mudanças na nossa juventude, ambos decidimos enfrentá-las.Ainda que com alguma distância que nos separava, Porto-Valongo, o respeito era mútuo. Dentro das 7 semanas de gestação, o pai decidiu seguir Carreira Militar. Gerando na altura, alguma instabilidade.

No inicio da Carreira Militar dele, entrávamos assim nas 8 semanas de Gestação.
Foram então que surgiram as minhas primeiras dúvidas, grávida e adolescente: Como será a minha vida após o nascimento do bebé, se o pai só vem passar os fins-de-semana a casa? Poderei eu dar continuidade aos meus estudos, sem esse apoio fundamental, enquanto figura paterna?

Em Abril de 2010, iniciámos as Consultas de Obstetrícia na Maternidade Júlio Dinis – Hospital de referência, sendo a minha zona de residência no Grande Porto. O pai ausentava-se assim das suas primeiras responsabilidades, sendo que quem me acompanhava era a minha mãe.

Às 12 semanas de Gestação, soubemos que esperávamos uma menina. O seu nome, Leonor. O pai, zangado por mais uma menina na família, referiu então que pretendia o aborto, e que não estaria mais interessado na vida do bebé. Eu, contra a sua vontade, neguei-me a tal ato. A relação continuou, mas aí surgiram as instabilidades.

Sábados e Domingos, o Carlos (pai da bebé) enviava-me SMS, informando-me que não iria passá-los comigo. Passaram-se duas semanas, até à descoberta das traições. Devastada, revoltada e grávida de 15 semanas, eu dirigia-me a Campanhã, apanhando o comboio até Valongo, pretendendo qualquer satisfação no seguimento do que acontecia. Surpreso e revoltado com a minha visita, o Carlos começou a tomar as medidas mais drásticas: a Violência.

Dizia que, por sua vontade, a Leonor não nascia. Ou que, por sua vontade, ela não vivia mais. Esta era, a sua explicação, para tais atos de violência praticada contra mim.

Às 20 Semanas de Gestação, sofri a primeira dor no útero. No entanto, com algum repouso, a situação ficou ultrapassada e eu desvalorizei.
Na 21ª semana em Julho de 2010, o Obstetra dizia-me então (desconhecendo a violência que sofria), que a bebé estava saudável, e que a gravidez seguia sem nenhuma inconformidade aparente. O parto estaria assim previsto para Novembro de 2010. Dentro deste período, os atos de violência eram constantemente praticados, no seguimento das traições contra mim.

13293205_1289198691094737_2022854884_n

Às 23 Semanas + 5 dias de Gestação, no dia 5 de Agosto de 2010, durante o dia passeei e fiz uma vida considerada normal para uma grávida. Tendo uma ecografia agendada para o dia seguinte, a 6 de Agosto.
Nessa mesma noite, cerca das 23:30, surgiram as primeiras dores. Até notando que surgiam entre intervalos de tempo, inicialmente de 20 a 20 minutos.
Para uma grávida de 1ª viagem e desconhecendo completamente o que era um Trabalho de Parto, deitei-me tranquilamente. Sem conseguir dormir, as dores (contrações) eram cada vez mais frequentes e surgiam de 15 a 15 minutos. Seguiam-se de 10 a 10 minutos, até que notei que estava a ter Hemorragias.

Durante a madrugada de 5 para 6 de Agosto, eu acompanhada da minha mãe, dirigi-me às Urgências da Maternidade Júlio Dinis.
Fui então admitida e iniciei os primeiros exames. As contrações já eram constantes, sem nenhum intervalo de tempo entre elas.
Eis que então, a Obstetra me indica que eu já tinha iniciado o trabalho de parto e que já nada havia a fazer, de forma a parar o parto. A expectativa de sobrevivência da Leonor era nula, sendo que até já podia nascer morta.

Sendo admitida na Sala de Partos e já em choque, comecei a ser preparada e bruscamente quase impedida pelas Enfermeiras, de chorar, e pedir o apoio da minha mãe.
Às 03:00, deram-me a Epidural (Anestesia) que não surtiu efeito, devido ao cateter ter sido incorretamente colocado na Espinal Medula.
Durante 12 horas, agonizei e aguardei pelo nascimento da minha filha.

Às 10:40, sentia dores cada vez mais fortes, pedindo à minha mãe que pedisse ajuda, à qual era negada por Profissionais Médicos do Bloco de Partos.
Às 10:44, a minha filha nasceu através de parto natural, sem ter nenhum apoio/auxílio de Profissionais Médicos, visto que apenas estava eu e a minha mãe dentro daquela sala. Após o nascimento, entrando em choque, implorei ajuda de alguém a gritar. Entraram assim cerca de 10 pessoas dentro da sala, entre eles: Obstetras, Parteiras, Enfermeiras e Pediatras.

A minha filha viveu entre 10 a 15 minutos, sendo que as manobras de reanimação dado o seu estado muito frágil, não surtiram efeito, para que fosse possível levá-la para a Unidade de Cuidados Intensivos Neonatal.
O primeiro colo e o primeiro aconchego da sua mãe, foi já sem vida.

Foi-me negado por Lei, reclamar o corpo da minha filha para fazer o funeral, dado que faltava apenas 1 dia para completar 24 semanas. E por Lei, apenas é possível reclamar o corpo de um recém-nascido morto, após as 24 semanas de Gestação.
Assinei um termo, em que autorizava que o corpo da Leonor fosse autopsiado.

Após 2 meses, sabiam-se então os resultados da Autópsia:
Não se observavam malformações no feto, sendo que o parto teve início por um Descolamento de Placenta, causado por um trauma ou queda. Sabe-se também que existia um Hematoma Placentário e no crânio da bebé.

A partir desse momento percebi, que a violência a que me sujeitei, na tentativa da Leonor ter um pai presente, custou-lhe a própria vida. E a mim, ele ofereceu-me não o melhor da vida, mas sim, o pior: A dor que é Perder um Filho.

Mulheres por este Mundo fora:
Não se calem, perante tais atos de cobardia.
Denunciem se são vítimas, ou se têm conhecimento de alguém! Estes atos custam a nossa vida e no meu caso e em muitos outros, custam a vida dos nossos filhos.

[A equipa do Bloga8 deseja que a Alexandra encontre na sua vida paz e equilíbrio para viver com a perda desta filha. Sabemos também, que graças a uma nova gestação, tem um rapaz e que apesar deste nunca preencher o vazio deixado pela princesinha Leonor, torna a vida mais fácil e mais colorida para esta mamã guerreira. Muito obrigada por aceitares dar a cara para esta rubrica. Um beijinho enorme, Bea]

Este artigo tem 4 comentários
  1. É lamentável toda esta situação. Sinto muito é uma perda muito grande. Só espero que estejas um pouco mais feliz com o teu menino, eu sei que nenhum filho substitui o outro. Acredita que a Leonor está a olhar por ti. Muita força, beijinhos

  2. Sara Raposo diz:

    Como o mundo é um berlinde… Um beijinho Alexandra. Eu e a Alexandra fomos “companheiras” de gravidez do T dela e da minha L

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.