[amamentação] Vamos conhecer melhor a Filipa – a nossa CAM

 

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  1. Como começou o seu interesse no aleitamento materno e porque decidiu trabalhar nesta área?

O meu interesse nesta área – que se tornou uma paixão – surgiu com a maternidade. Fui mãe pela primeira vez em 2011 e pela segunda vez em 2014. Sempre quis amamentar mas, naturalmente, senti necessidade de explorar mais este mundo ao ficar grávida pela primeira vez. Tive uma experiência muito feliz logo com a primeira filha, que amamentei até aos 2 anos, e tendo ultrapassado aqueles desafios iniciais, como fissuras, dor na mamada, etc., senti necessidade, desde logo, de estudar literatura sobre o assunto.  Daí a prestar apoio numa base “de mãe para mãe”, online e por telefone, foi um pequeno passo.

Fui-me envolvendo cada vez mais com este mundo e com pessoas que trabalham no apoio à amamentação, por isso integrei a equipa do IBFAN Portugal (ONG para a promoção e proteção do aleitamento materno) desde a sua formação, onde trabalhei voluntariamente entre 2013 e 2015.

Entretanto já tinha tido o meu segundo filho, que continuo a amamentar, prestes a completar 2 anos, e pude, finalmente, fazer formação como conselheira de aleitamento materno. Poucos meses depois fundei a página Amamenta Porto (no início de 2015) e comecei a organizar workshops, cursos, encontros de mães, relacionados com a amamentação e a oferecer o serviço de aconselhamento ao domicílio. Fiz também formação como doula de parto uns meses depois.

Decidi trabalhar a tempo inteiro nesta área pois é aquilo que realmente me apaixona fazer. Sou licenciada em ciência política e relações internacionais, mas o apoio e informação na maternidade, e particularmente na amamentação, é aquilo que me move e que me traz gratificação pessoal.

  1. Como você descreveria o seu trabalho? Quais são para si as atitudes mais importantes na sua função como assessora/conselheira de amamentação?

Ter um coração aberto para acolher e ouvir a Mãe e o Bebé (e outros elementos da família, nomeadamente o Pai, que tem um papel importantíssimo no sucesso da amamentação). Disponibilidade. Empatia. Atitude totalmente desprovida de qualquer julgamento pelas escolhas e pela história da família em relação à amamentação, ao nascimento, etc.

A par deste lado humano, que é fundamental que seja apuradíssimo, é muito importante o investimento na técnica, na teoria, no conhecimento, na constante atualização, pois o conhecimento evolui e muito do que se tem vindo a ensinar sobre amamentação – com o intuito de promover o aleitamento materno – na realidade, não só não promove, como pode contribuir para mais dúvidas, mais dificuldades, mais insucesso. É aquilo a que eu chamo de mitos do lado pró-amamentação – que existem, e não são poucos.

  1. Qual tem sido o desafio mais difícil que você encontrou?

O desafio mais difícil de superar, para mim, é a falta de coordenação com os pediatras e outros especialistas que acompanham o bebé e a mãe… Não temos todos a mesma formação, não temos todos o mesmo nível de informação sobre amamentação, e quando as mães e pais recebem informação contraditória de fontes diferentes, o trabalho que vamos construindo pode ser deitado a perder. Para além de que existem situações em que é necessário encaminhar para outro especialista (exemplo freio da língua curto) e é EXTREMAMENTE difícil encontrar referências de quem saiba avaliar e executar uma frenectomia tendo noção do quanto isso influencia a amamentação e a pode, se não inviabilizar, prejudicar gravemente.

  1. As mães sempre têm as mesmas dúvidas? Qual é o “mito” mais frequente com o qual você se encontra?

As dúvidas mais comuns têm a ver com: saber se o bebé mama o suficiente, saber se o seu leite alimenta o suficiente, não entender por que é que o bebé perde peso ou não ganha o suficiente, a frequência das mamadas, “colo demais vicia”, “fazer da mama chupeta”… A maioria dos pais não está preparado para ter um filho, é o que eu sinto. A maioria nunca contactou com bebés antes! Algumas mães sentem-se engolidas pelas necessidades constantes do bebé. Esse é o lado mais difícil de trabalhar, por vezes…

  1. Por que você acha que na atualidade existem muitos fracassos na amamentação? Porque era mais fácil para as nossas avós?

Sinceramente, não sei se era mais fácil… Acho é que não havia tantas alternativas nem tão acessíveis, ainda não havia tanto marketing em torno dos substitutos do leite materno. Por outro lado também não se pensava tanto nisso como agora. Tinha-se filhos, eles nasciam, dava-se de mamar e pronto. Se não se conseguisse havia alguma vizinha que dava (as mães de leite) ou recorria-se às misturas de leite de vaca com água e outras coisas do género.

Hoje em dia as mulheres não confiam nos seus corpos. Não confiam que são capazes de parir, não confiam que são capazes de amamentar… É essa falta de confiança na natureza do corpo da mulher que, a par das alternativas demasiado disponíveis e normalizadas, na minha opinião, está a causar tantos fracassos e sentimentos de culpa entre mulheres que querem tanto amamentar. Para além disso: a falta de formação dos profissionais de saúde em amamentação, as políticas pouco amigas da amamentação nas maternidades…

  1. Desmamar sem lágrimas é possível?

Claro que sim. O desmame natural existe. Todas as crianças chegam a uma certa idade (que foi calculado que, na nossa espécie, seja algures entre os 2,5 e os 7 anos) e desmamam por si próprias. Entretanto, há mães que sentem necessidade de incentivar o desmame em crianças maiores ou que têm mesmo de o fazer por motivos de saúde, por exemplo, e há imensas formas de o fazer suavemente e gradualmente.

  1. O que você acha sobre a cultura do biberão?

Acho que ela existe e é, em grande medida, a culpada pelo insucesso na amamentação. As grávidas compram ou, pelo menos, vêem biberões para os bebés – mesmo que queiram amamentar! Muitas vezes as mães querem extrair leite para o pai dar à noite ou para sair e alguém dar ao bebé… É quase estranho ter filhos e não lhes dar nem que seja um biberão. Parece que há um certo prazer nisso. Talvez porque o biberão permite VER quanto é que o bebé toma e a mama não. E muitas mães têm necessidade de VER QUANTO!

  1. Você acredita que está acontecendo uma nova mudança?

Espero bem que sim! E, sim, parece-me que essa mudança é percetível. Mas é preciso mudar mais do que a forma como se alimentam os bebés. Para se mudar isso, é preciso mudar a forma de nascer, parafraseando o Dr Michel Odent.

A amamentação é a continuação natural do parto. Se as mulheres estão desempoderadas no momento mais importante e poderoso das suas vidas – o nascimento de um filho – ficam automaticamente mais fragilizadas no pós-parto, e, por arrasto, na amamentação; para além de todas as implicações neurológicas, metabólicas e musculo-esqueléticas no recém-nascido que, sem dúvida, estão a perturbar o início da amamentação e a criar muitas dificuldades.

  1. O que você diria a um conselheiro em formação ou recém-formado se lhe pedisse conselho de acordo com a sua experiência até agora?

Que nunca pare de estudar! Não pare de se formar. Isso não acaba com um certificado. Além disso, recomendaria o estudo deste manual que é uma autêntica bíblia da amamentação: “Supporting Sucking Skills in Breastfeeding Infants” de Catherine Watson Genna, IBCLC 😉

 

 

Esta entrevista foi realizada por Laura Orion Sáez, psicóloga perinatal e fundadora do grupo de apoio à maternidade Emanue Maternidade Acompanhada, como parte da sua formação em aleitamento materno pela associação galega Teta Y Coliño. A entrevistada escolhida foi a Filipa dos Santos, fundadora da Amamenta Porto, conselheira de aleitamento materno e doula.

Esta entrevista foi realizada no dia 15 de abril de 2016.

Entrevista publicada com autorização de Laura Orion e Filipa dos Santos.

Este artigo tem 3 comentários
  1. Gostei muito do artigo. Tive dificuldades na amamentação no primeiro mês da minha filha, depois tudo melhorou e até agora tem corrido bem. Prestes a fazer 6 meses, tem estado em regime de amamentação exclusiva.
    Não posso deixar de comentar que quanto a não estarmos preparados para ser pais, concordo inteiramente, mas é algo que não passa pelo contacto com outros bebés. Cada bebé é único e a maior preparação que podemos ter, é dentro de nós, disponibilidade, auto-confiança e muito amor para dar. 🙂

    • Filipa dos Santos diz:

      Olá Cátia, obrigada pela sua partilha e parabéns pelos 6 meses de amamentação! 🙂 A maternidade é mesmo um desafio para o qual nunca se está, inteiramente, preparado. Mesmo quando se tem mais do que um filho, cada experiência é única e tem os seus contornos próprios.
      Felicidades

  2. Bea diz:

    Obrigada por comentar. Sim, sem dúvida que não estamos preparados para ser pais. Ninguém o está, mesmo aqueles que são experts em bebés. Ás vezes, até são os piores 😛 Os nossos, são sempre os nossos.
    Beijinho <3 e parabéns pela amamentação em exclusivo!

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