[testemunho] A Felicidade na (in)fertilidade.

Olá, sou a Fátima e como qualquer menina sempre sonhei em ter filhos e desde cedo dizia que queria ter 3. Casei em 2005 e desde logo decidimos tentar engravidar pois como tinha historial de quistos de endometriose sabia que as dificuldades poderiam surgir.

foto casamento3

Tinha então 27 anos e em abril de 2006 tivemos o nosso tão desejado positivo! Estava grávida!

Recebemos a notícia com todas as precauções normais de uma 1ª gravidez… Infelizmente o sonho durou pouco tempo e perdemos o nosso bebé às 8 semanas de gestação. O Mundo parecia ter ruído à minha volta, pois ninguém está preparado para uma perda, seja ela em que altura for.

Mas como sempre, erguemos a cabeça e seguimos em frente e fomos tentando, tentando, tentando, mas nada acontecia.

Seguida por uma ginecologista particular que após varias tentativas com medicação encaminhou-nos para as consultas de (in)fertilidade da Maternidade Alfredo da Costa. E no entretanto, passaram dois anos. Fomos chamados, 1ª consultas, exames, diagnósticos e afins, fomos reencaminhados para tratamentos de Fertilização in Vitro, no nosso caso para ICSI (microinjecção intracitoplasmática de espermatozoide), pois eu tinha alguns valores hormonais alterados e o marido uma baixa % de espermatozóides normais.

Assim foi, em 2010 fizemos o nosso primeiro tratamento, na MAC…

Muita emoção, contida é certo, pois a probabilidade de conseguir à 1ª era muito baixa. O role dos procedimentos é extenso: injeções, medicação, ecografias, punção mas  tudo passou a correr. Agora a transferência de embriões e a espera do resultado, parecia uma eternidade.

No fim, o 1º balde de água fria… Negativo… Chorei, choramos… Mas seguimos em frente com pensamento positivo. Mais um ano passou e em 2011, novo tratamento na MAC… Tudo de novo, injeções, medicamentos, ecografias, nova transferência embrionária, novo compasso de espera e no fim… Novo balde de água fria… o 2º negativo.

Choramos novamente, fizemos o nosso luto, mas não baixamos os braços e por isso, decidimos dar entrada no processo de adoção.

Mais uma carreira de obstáculos, que sabemos ser longa e dolorosa, mas com o objetivo de caminhar a passos largos para o nosso sonho – sermos PAIS!

Ao mesmo tempo, decidimos partir para uma 2ª opinião numa entidade privada (IVI). Fizemos novos exames, que confirmavam um pouco o que tinha sido diagnosticado no público e avançamos para mais um tratamento… o 3º. Juntámos as nossas economias e arriscamos tudo num novo tratamento de ICSI, igual ao que já tínhamos feito anteriormente.

Novamente injeções, ecos, punção, transferência… espera…

E o resultado foi POSITIVO… mas muito baixo… Gravidez bioquímica, é o nome… Mais uma vez, sem nada, um vazio… Lagrimas, muitas… Forças, a faltar… mas não desistimos… Novos exames e novo diagnóstico…

Tenho uma translocação cromossómica que provoca abortos de repetição e um valor de anti-mulleriana (marcador de reserva ovárica) muito baixo, o que queria dizer que tinha poucos óvulos para a minha idade. Conjugando estes dois fatores foi-nos proposto outro tipo de tratamento… Doação de ovócitos. Não hesitamos e avançamos de imediato. Procura de dadora, acerto de ciclos e em agosto de 2012 fizemos novo tratamento…

No dia 13 de Agosto (data do meu aniversário de casamento) foram transferidos 2 embriões (lindos!) e nova espera, desta vez com mais esperança, mas sempre com os pés bem assentes na terra. Chegou o dia de saber o resultado e foi…POSITIVO!!!

Nem queríamos acreditar! Um valor acima dos 900, que queria dizer que era uma gravidez bem conseguida, talvez de gémeos! E eram, 2 lindos embriões a crescer dentro de m­im… era um sonho! Algo que nunca imaginei passar – muita emoção, alegria, pura felicidade.

2ªeco

As semanas foram passando e com um início atribulado com contrações e hemorragias, tudo estabilizou e fomos seguindo o percurso normal de uma gravidez (as análises, os rastreios, ecografias).

Mas às 12 semanas, numa ecografia puxaram o nosso tapete. Algo se passava. Um dos bebés tinha a translucência da nuca muito aumentada, probabilidades de ter uma trissomia muto elevada, sem certezas se seria um bebé viável.

Mais um balde de água fria. Afinal poderia ficar sem um dos meus bebés, ou até mesmo os dois. Fomos encaminhados para o Hospital Sta. Maria, consultas de alto risco, onde se confirmou a TN aumentada e um edema na cabeça do bebé. Probabilidade de não sobreviver era elevada, novas ecografias, amniocentese às 16 semanas, pensávamos até que o bebé já não estaria vivo -mas estava e como se nada fosse, estavam os 2 aparentemente bem. Com a amniocentese ficamos a saber que era um casal!

O bebé da TN aumentada era uma menina, o outro bebé, um menino, que nada apresentava de anormal nas ecografias.

Novamente mais esperançosos, mas ainda com o coração apertadinho pois só o resultado final da amniocentese seria mais conclusivo e demorava 15 dias a chegar.

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Passado esse tempo fomos chamados ao hospital… um resultado inesperado e imprevisível nos aguardava -a menina, realmente nada tinha, mas ao contrário do que se poderia prever o menino tinha uma deleção cromossómica grave que provocava deficiências graves. O nosso mundo ruiu naquele momento – gelei, fiquei sem reação! Não podia estar a acontecer!

Fizemos todos os exames possíveis e imaginários para pudermos decidir de consciência o que deveríamos fazer. E por muito difícil que fosse tomar “A DECISÃO”, assim o fizemos… e no dia 9 de Janeiro de 2013 fizemos interrupção médica da gravidez (IMG) do meu menino, o meu Tomás. Foram dias de angústia, desespero, sofrimento (não o desejo a ninguém!) mas tinha que pensar na minha menina, que estava lá, VIVA mas a “sofrer” comigo. Vivi o resto da gravidez com o coração nas mãos, mas aproveitando cada dia, cada segundo, pois não sabia até quando ela ia querer ficar no “quentinho” da mamã. Havia o risco de nascer prematura, mas o destino assim não o quis e felizmente a minha princesa só nasceu às 39 semanas de cesariana (sentou-se à espera do momento final).

gravida 31sem

Dia 26 de Abril foi o grande dia e às 13h13 minutos a minha princesa veio ao Mundo! (13 é sem dúvida o nosso número) -foi um dia repleto de emoção, de muita alegria, mas também de um certo vazio – só metade de mim nasceu naquele dia – a outra metade era já um Anjinho.

E hoje, passado 3 anos, vejo tudo o que passei para chegar aqui e penso que, apesar de todo o sofrimento, tudo valeu a pena. Cada injeção, cada lagrima, cada negativo, cada dor só me fez crescer como Mulher e Mãe que sou e sempre fui, mesmo antes de os ter!

7 dias

Tenho 2 filhos lindos! Uma aqui comigo, que me faz sorrir todos os dias, que me faz a cabeça em mil com a sua rebeldia e teimosia, que me deixa de coração apertadinho sempre que fica doente, mas que me completa e é MINHA até ao fim dos meus dias…

O outro, está no Céu, a olhar por nós… todos os dias me lembro dele e será sempre o meu filho, mesmo com um Céu de distância…

E espero, um dia (que desejo ser em breve) poder dar um mano ou mana aos meus filhotes, pois continuo em espera para adoção. Esta é a minha história, igual a muitas outras que conheço de mães que passaram (e passam!) por isto.

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[A equipa do Bloga8 deseja à Inês e aos papás Fátima e Nuno, um feliz aniversário e que a vida se encarregue de somar cada dia que passa mais amor, mais alegria e saúde. Obrigada por este testemunho]

 

 

 

 

Artigo por Bea

Mulher, mãe de dois rapazes, apaixonada por flamingos e completamente chocoholic. Adora ler, dançar, comer e experimentar coisas novas.

Este artigo tem 8 comentários
  1. Sandra Duarte diz:

    Parabéns gigantes para OS PAPÀS e que em breve consigam concretizar o sonho de dar mais um mano ou nana aos vosso filhotes 😉

  2. claudia diz:

    Vivi de perto esta história e é impossível não me emocionar ao relembrar, quanto à infertilidade deixa marcas para sempre e infelizmente nem todos os casais têm a nossa história “final feliz”

  3. Anónimo diz:

    Chorei mas chorei mas com sentimento,tambem á oito ó nove anos senti a mesma emoção e sem. dar a perceber,nuitas feleçidades.

  4. Susana Mesquita diz:

    Arrepiei-me com cada frase que lia…aparte do diagnóstico (o nosso era idiopatica) revi-me em tudo. Também passamos por um período negro de 2 inseminações e 3 FIV…à terceira foi mesmo de vez e fomos brindados com um bebé maravilhoso. O nosso sonho concretizou-se em tosse azul…o Martim dá agora sentido às nossas vidas. Passaram já 7 meses! Nunca percam a esperança, porque por vezes a vida também nos reserva boas surpresas!

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