[testemunho] Era uma vez… a família Salta

Em 1956, a minha mãe deu à luz uma menina….na freguesia de S. Sebastião da Pedreira, Lisboa, no mês de Maio, mês das flores e de Maria e no dia 1, Dia do Trabalhador (altura sem comemoração em Portugal). Tinha pouco mais que 3Kg…..dia igual a tantos outros, menos para mim e meus pais…

Nasci dando um pouco de cor ao negro que a morte provocou levando a minha avó materna 2 meses antes. Uma morte prematura…minha avó era mais nova que eu sou hoje.

A tristeza deu lugar à felicidade, mesmo que descorada, na vida dos meus pais. Meu pai desejava uma menina e que nascesse em Maio. Lá lhe fiz a vontade.

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Fui registada com o nome da minha avó materna, Maria do Resgate, que tinha falecido 2 meses antes.

Fui a terceira filha…a primeira, minha irmã Gabriela da Graça, que nunca conheci faleceu com 10 meses de idade. Três anos mais tarde nasceu o meu irmão, António José. Cerca de ano e meio após o meu nascimento chegou a minha irmã mais nova, Carla Maria.

Nasci em Lisboa devido à doença prolongada e posterior falecimento da minha avó.

Os meus irmãos nasceram no Luso (agora Luena) em Angola.

Com poucos meses voltei com meus pais e irmão para Angola ….e digo voltei porque, apesar de ter nascido em Lisboa, eu era de Angola.

Vivemos em Luena até ao ano de 1961 quando começou a guerra colonial. Meus pais decidiram, então,  mudar para Luanda.

Em Luanda fiz a primária, o liceu (no Liceu D. Guimar de Lencastre) e o 1º ano da Faculdade de Medicina.

A minha infância e juventude em Angola foram inesquecíveis. Nada se compara à vida simples e feliz que vivi num país grandioso e com um clima fantástico.

(podem ver textos sobre Angola que Maria do Resgate escreveu aqui!)

Vim de Luanda a 2 de Novembro, tendo frequentado e acabado o 1º ano de Medicina em ambiente de guerra civil entre os 3 movimentos de libertação de Angola. Não direi que não senti medo mas não me assustei ao ponto de desistir de concluir o 1º ano lectivo na faculdade de Luanda.

Já a viver no Estoril frequentei a Faculdade de Medicina de Lisboa tendo concluído o curso em 31 de Julho de 1980. Foram tempos difíceis, com dificuldades económicas e vivendo debaixo de o estigma de “retornada”. Valeu o facto de o meu curso ser, na sua maioria, de “retornados” o que nos uniu e quase nos fez esquecer o rótulo que nos impuseram. Mas os anos da Faculdade foram dos melhores na minha vida e, um dia, quando meus filhos entraram para a Faculdade eu disse-lhes: aproveitem pois irão ser dos melhores anos da vossa vida. No fim do curso meu filho disse-me: Mãe, tinhas razão….já sindo saudades da Faculdade!

Caricatura feita por Francisco Zambujal para o livro de curso da Faculdade de Medicina de Lisboa ano de 1980Foto 7

Caricatura feita por Francisco Zambujal para o livro de curso da Faculdade de Medicina de Lisboa ano de 1980

E nesta caricatura ….tinha eu 24 anos….curso acabado….estão reflectidas as minhas “paixões”… Medicina Geral (na altura Clinica Geral)… Angola no meu pensamento… e o meu hobby de então, o tricô e o crochet! Hobby que me preencheu as horas que passava nos transportes públicos para chegar ao Hospital Santa Maria…..casacos, camisolas, toalhas, roupinha de bebé para as minhas sobrinhas….e o vestido de baptizado dos meus filhos.

Olhando para a minha caricatura…..sinto que falta ali qualquer coisa… coisa que Francisco Zambujal não captou pois, para além de não nos conhecer, o tempo era escasso para tantos alunos….. falta a minha imensa felicidade por ter chegado ao fim da etapa …..de ser médica……e falta a minha imensa nostalgia pelos anos maravilhosos que passei, mesmo com dificuldades económicas, naquele Hospital com os/as meus/minhas colegas de curso! Todas as dificuldades foram ultrapassadas com a força da nossa união…..com os bons momentos nos intervalos…..até nas longas filas para a cantina. Cada ano passado era uma vitória…..cada ano passado mais responsabilidade…..cada ano passado e mais perto do fim apareceu o sentimento de saudade…..saudade uns dos outros…saudade dos momentos…..saudade da nossa união! Adoro a minha profissão….adorei o meu curso!

Em 1981 iniciei a minha profissão no Hospital de Stª Maria e casei-me com o pai dos meus filhos.

Os dois primeiros anos no Hospital foram de estágio tutelado. Comecei no serviço de Cirurgia e posso dizer que aprendi muito, apesar te não ter grande apoio dos colegas mais graduados. Aprendi a observar os doentes, a tratá-los numa urgência/emergência… e também a desenrascar-me pois nem sempre consegui o tal apoio que me era devido….ganhei “calo” como diz o povo.

Depois passei pelos serviços de Pediatria, Otorrinolaringologia Ginecologia/Obstetrícia e Medicina nas valências de Cardiologia, Diabetologia, Reumatologia e Medicina Interna. No serviço de Medicina estive durante quase 4 anos.

O meu filho Nuno nasceu a 27 de Junho de 1984 no Hospital de Stª Maria em Lisboa, às 14h e 05m.

Foi um dia especial o do seu nascimento…

Foi o primeiro, foi o nosso momento.

Foi o dia em que nasci como mãe!

Na sua face pequenina eterno amor senti.

Nas suas mãozinhas coloquei meu coração.

Foi o primeiro dia dos dias seguintes…

cheios de amor…tanto amor…luz e alegria, preocupação…

tanta preocupação.

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Em 1987, por concurso público, fui colocada no Centro de Saúde de Vizela onde fiquei até aos dias de hoje como Médica de Família.

Em 28 de Agosto de 1988, no Hospital de Guimarães, nasceu a minha Princesa do Sol Nascente, Ana Rita.

Veio num verão quente…verão que se prolongou até Outubro.

O seu querido irmão, quando soube que eu estava grávida, queria que fosse uma menina e escolheu o seu nome Ana Rita.

Nasceu num domingo e já no fim da tarde.

Parto normal, rápido e sem nenhum percalço.

Era tão parecida com o irmão…..tão parecida que nos primeiros dias lhe chamava Nuno.

Com o tempo a parecença atenuou-se.

Foi uma bebé calma e dorminhoca.

Cedo nasceram os dentes, começou a andar, a falar e largou a fralda.

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Em 1990 fui convidada para trabalhar nas Termas de Vizela. Tinha uma condição…fazer o curso pós-graduação de Hidrologia na Faculdade de Medicina no Porto. E, apesar de ter 2 filhos, trabalhar no Centro de Saúde e numa clinica, avancei.

As aulas eram à sexta-feira das 8h às 10h e das 18h às 20h e ao sábado das 9h às 13h. Foram 4 meses cansativos…6 disciplinas e o exame foi feito numa manhã de sábado e às 6 disciplinas. Só se podia reprovar a uma. Consegui tirar 16 valores.

Os meus filhos foram crescendo… sem percalços para além das doenças próprias das crianças.  Foram sempre bons alunos e com um excelente comportamento.

O meu filho Nuno entrou para Engenharia Electrotécnica e seguiu a área de Telecomunicações. Formou-se, fez o Mestrado e entrou de seguida para o Doutoramento.

A minha filha Ana Rita foi para a Faculdade de Belas Artes em Lisboa. Era o sonho dela…ir para Lisboa. Licenciou-se em Arte e Multimédia e depois entrou em Engenharia Informática para ter mais competências. Está no Mestrado.

Faço parte de várias Associações, da Santa Casa da Misericórdia de Vizela e do Rotary Club de Vizela há cerca de 15 anos. Em 2009, fui convidada para entrar na lista, como independente, da coligação “Vizela é para Todos” para as eleições autárquicas. Como não sou pessoa de dizer não a um acto de cidadania e como acreditei no projecto, aceitei.

Entrei para um mundo que só conhecia do lado de fora. Onde “o pau pode ser pedra e o preto pode ser branco”.

A campanha foi durante todo o verão. Percorri as freguesias de Vizela a pé.

Conheci pessoas fantásticas. Devido a uma parte idealista da minha personalidade iludi-me….mas a minha parte mais racional tentava chamar-me à realidade: “olha, tem cuidado… as pessoas não são todas como pensas….não te iludas pois o resultado não vai ser o que esperas”.

E assim foi! Durante quase 4 anos fui vereadora da Coligação mas do executivo da chamada “oposição”.

Como disse a uma amiga não fui só eu que perdi, fomos milhares. Foram momentos dos quais não tenho saudades.

 

Em Abril de 2011 fui convidada para ser Directora Clinica e Médica da Unidade de Cuidados Continuados de Vizela.

Mas a vida não é perfeita.

 

Um dia o casamento, que já não o era, chegou ao fim.

Quando um não quer, dois não estão é o que penso.

Tempos arrumados mas com muitos aborrecimentos.

Filhos já adultos …. e a vida continuou.

Depois de uma vida atribulada, com períodos de dificuldades pensei que iria ter paz.

 

Mas, mais uma vez a vida não é perfeita…

… e no dia 16 de Junho de 2012 aconteceu o que uma mãe nunca deve ter que passar… a morte de meu filho.

 

“Meu querido filho,

Naquela manhã acordei tarde de mais….já tinhas saído…nem era costume saíres sem eu te dar um beijo de bom dia e tomarmos o pequeno almoço juntos. Mas naquela manhã saíste mais cedo ou eu acordei mais tarde.

Olhei pela janela e vendo o tempo de chuva miudinha pensei logo em ti, na tua ida até ao Porto.

Mas algo mais foi diferente naquela manhã….já não senti a angústia que me perseguia desde que foste para a faculdade…desde que começaste a fazer o caminho pela estrada por onde passaste cerca de 10 anos.

Fui trabalhar sem saber que já tinhas partido para junto d’Ele.

Só ao fim da manhã recebi a noticia…GNR à porta e de Lordelo? Que quereriam?

“É a mãe de Nuno Gonçalo Salta?” Perguntou um deles. Meu coração mirrou….não consigo explicar…mesmo eles não dando qualquer tipo de informação eu sabia…meu coração mo disse!

“Seu filho teve um acidente, tem de nos acompanhar ao Posto”

Lá fui…levada pelo Sr João (a Goreti ficou em casa em cuidados) e pelo caminho, mesmo o meu coração dizendo que tinhas partido, eu insisti em não acreditar e telefonei-te…tocou, tocou tocou…atende Nuno, atende meu filho, ATENDE….mas não o podias fazer. Sempre não querendo acreditar telefonei para o serviço de urgência do hospital e de lá negaram que tinhas dado entrada. “Mas o acidente foi em Lordelo (induzida por a GNR ser de Lordelo, mas afinal tinha sido em Guardizela) e Lordelo pertence a Guimarães” dizia eu…”O seu filho não deu entrada pela urgência!” respondeu a funcionária.

Num misto de dor e angústia chegamos ao Posto da GNR de Lordelo e aí foi-me entregue os teus documentos com as seguintes palavras: “seu filho teve um acidente grave e não sobreviveu.”

Chegou a Daniela e choramos, choramos….

Como dar a notícia à tua querida irmã? Como dar a notícia à tua querida avó e tios? Outra dor, outra dor…sentir a dor deles!

Fui ao hospital…tinha que te ver…tinha que te dar o beijo que não dei antes de saíres…tinha que te falar…dizer-te o quanto te amo, pedir a Deus pela tua vida em troca da minha, cantar-te a canção de dormir…Uma gaivota voava, voava….

Ali estive a dar-te os últimos mimos.

Cheguei a casa e abraçando a Goreti disse: o meu menino partiu…o nosso menino partiu!”

Nesse dia metade de mim morreu….foi com o meu filho. Tenho conseguido fazer sobreviver a outra metade pela minha filha.

A nossa dor é imensa.

Os dias até ao funeral foram passados num misto de luto e de não acreditar na fatalidade. Esperava que meu adorado filho subisse as escadas e chamar: Mãe… já cheguei!

Mas isso não voltou a acontecer.

Pela metade de mim que ficou retomei a vida na semana seguinte. Tinha de o fazer. Era imperioso!

Foi difícil tanto para mim, como para os meus colegas, amigos e utentes. Eu estava para tratar os meus utentes/doentes e não podia fraquejar. Eles, em contrapartida, receavam queixar-se perante a minha dor. Mas com o tempo e minha insistência os meus utentes começaram a agir naturalmente.

 

A vida tem seguido o seu rumo com viagens frequentes a Lisboa para estar com a minha filha, irmãos e sobrinhas. (textos aos filhos de Maria do Resgate aqui!)

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As vidas que gerei têm-me segurado à vida. Vivo pelo meu filho e pela minha filha. Mas vivo, também, para os outros.

 

Entretanto vou escrevendo cartas ao meu filho.

 

Actualmente trabalho na USF Physis (Centro de Saúde de Vizela), na Unidade de Cuidados Continuados de Vizela e no consultório.

Sou membro do Rotary Club de Vizela, Mesária da Santa Casa da Misericórdia de Vizela, membro dos Órgãos Sociais da Real Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Vizela, Presidente da Assembleia-geral da Associação de Dadores Benévolos de Sangue de Vizela. Sou sócia de várias associações de Vizela. Foto 22

Como disse, vou rascunhando a vida….um dia voltarei para Lisboa. Lá está a minha filha e restante família.

E cada dia que passa é menos um dia que falta para o reencontro com o meu filho.

 

Maria do Resgate Salta

 

 

 

Artigo por Bea

Mulher, mãe de dois rapazes, apaixonada por flamingos e completamente chocoholic. Adora ler, dançar, comer e experimentar coisas novas.

Este artigo tem 4 comentários
  1. Cidalia Cunha diz:

    Excelente!!
    É um grande privilégio e um grande orgulho fazer parte das amizades desta grande mulher. Uma mulher densa de ideias e de sentimentos !
    Obrigada Drª Resgate, por ser quem é e como é. Bj❤️❤️❤️

  2. Maffie diz:

    Uma Grande Mulher sem dúvida! Uma excelente Médica e com um Coração do tamanho do Mundo. <3

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